Soncent

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quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

És uma pessoa tão bonita - Inédito


Nem todos os meus amores têm história. E nem todas as minhas histórias são de amores. Não escrevo para fazer dedicatórias e não dedico o que escrevo a ninguém. Mas inspiras-me palavras a que não sei o que fazer. Tal como dizes, o meu Português é bom, só falha por ter palavras a mais. Perguntaste-me ontem porque estou contigo, se só te faço críticas.

Saí-me com uma frase toda catita, gostaste dela. Aliás, vais gostando do que digo, vais gostando da minha face e do meu corpo, vais sendo simpático e carinhoso e elogias-me tanto que me derreto nas tuas mãos. Não eras quem eu queria mas parece que me escolheste.

Critiquei o teu carro, que era bonito de mais, critiquei a tua cara que não tinha encanto, a tua cor branca de mais, o teu nariz torto, o facto de teres um mestrado, peguei em tudo o que vi e pressenti e gozei, mandei bocas, desdenhei, saí contigo às vezes sem grande vontade, porque a conversa era interessante, mas nunca tencionando avançar para lado nenhum. Sem me esmerar no perfume, no cabelo. E tu, cada vez mais encantado, cada vez mais amoroso, fingindo que as críticas não te tocavam, fingindo que nem te interessavas muito, fingindo que só querias uma queca. E reconhecias depois que de facto começou por ser nada de especial, saímos, cinema e mais nada.


Não estavas à espera de que não te fizesse perguntas sobre a tua vida, não estavas à espera de que eu tivesse uma personalidade interessante e fosse culta e madura, como depois me disseste, tantas vezes que me convenceste.

Não estavas à espera de segurar na minha mão durante o tempo em que estivéssemos juntos, não estávamos ambos à espera de nada disto que temos agora no colo: não queremos estar separados um do outro, mas nenhum de nós está apaixonado nem queremos namoro, nem queremos que as pessoas nos saibam juntas.

Não queremos que o outro fique muito confiante nem muito pegajoso, não queremos ver-nos envolvidos com mais ninguém, só queremos estar juntos, não sabemos a fazer o quê, porque não queremos sexo ou não sabemos se queremos sexo e temos medo de querer sexo mas sabemos que queremos, temos que sabê-lo, mas duvidar na mesma, porque no fundo… já nos damos bem assim, porquê complicar as coisas, daqui a nada vou-me embora e para quê ter saudades de mais coisas para além da companhia, para além de sentirmos que temos alguém que nos abate o vazio enorme das nossas vidas, mesmo que não dure, porque sabendo que tem uma data para acabar, até nos sentimos mais à-vontade, não temos que fazer durar as coisas, não temos todo o tempo do mundo e portanto, vamos aproveitá-lo melhor, com medo de nos habituarmos, capricharemos, enfim, estas palavras inspiraste-mas tu, assim, no momento, agora, porque ando a pensar em ti e com sintomas de paixão, que sei que não é porque eu apaixono-me por homens bonitos e tu não és bonito, não me perco a olhar para ti, mas és uma pessoa tão bonita, tão bonita!

Dissequei-te todo, cortei-te em pedaços que classifiquei com rigores de uma geóloga e voltei a colá-los todos outra vez. Da mesma forma, com o mesmo desenho. Porque cabem-me numa mão as coisas que não gosto em ti.

2004

4 comentários:

Anónimo disse...

Mut bom...bom mesmo!
Bijin,
Turta

Anónimo disse...

Afinal não é só o humor que é agridoce.
Confesso, com humildade,que gostava de saber expressar-me assim, de ter essa indómita vontade de emigrar por dentro,de ser capaz fazer de cada ponto de partida o ponto de chegada.
Mas, como não sei, quero mais...!

a)Mais ou menos anónimo RB

Eileen disse...

Obrigada, Turta. É bom saber que visistas o blog de quando em vez...

Mais ou menos anónimo RB: Que lindas palavras, de quem afirma não saber emigrar para dentro... Muito obrigada!

Sandra Fonseca disse...

ola Eiilen!!! um gosta tcheu dess post li, alias ja era de esperar encontra so cosa de qualidade na bo log.
sodade de bo, e de nos temp de teatro...continua sempre assim c/ dotes de intelectual. ainda um ca ale Eiilinistico mas ainda um ca prede temp.
bjs
SANDRA FONSECA