Soncent

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terça-feira, 30 de agosto de 2016

O beijo dele

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Queria falar-te do beijo dele, à porta de casa, o melhor sítio do mundo para se beijar.
 
Queria contar-te do beijo que demos, à porta de casa, sem nem nos tocarmos mais, só as nossas bocas encostadas uma à outra, primeiro muito tímidas e carnudas, a dele bem mais que a minha, a dele cobrindo a minha, sobrando pelos lados, a dele, mais rija que a minha, a dele, tão sôfrega quanto a minha, e o nosso pouco à vontade misturado com a vontade fazia-nos quietos, apenas as bocas uma na outra, às tantas até secas, e por isso, grudadas, e nós, respirando o ar que saía do nariz do outro, e vou-te dizer - se isso não é felicidade, então não sei!
 
E depois dos milhões de anos que passámos de bocas grudadas, ele afastou-se um bocadinho mas foi para se reaproximar, foi para me beijar de novo, foi para vir de lábios entreabertos, foi para me oferecer o inferior, aquele milagre de carne tenra e rija ao mesmo tempo, palpitante e quente, doce como nada mais na terra. E a ponta da língua dele veio atrás, arranjando espaço e tempo em mim, explorando-me, oferecendo-se e clamando ao mesmo tempo, roçando-se como quem se esfrega, afogando-me como quem navega.
 
E os minutos devem ter ido passando e a angústia chegando porque mais cedo ou mais tarde - oh mundo cruel - o beijo teria que acabar. Até lá, já não tínhamos forças nas pernas mas apenas nos braços com que nos agarrámos, e o peito dele enorme onde me encostei e de onde não saí de ânimo leve, por força própria.
 
E da porta de casa, ele foi-se embora.
 
(Imagem, obviamente, da net, do Klimt)

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