Soncent

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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Teatro I

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É a inauguração da sala de espetáculos do Éden Park. Isso mesmo, o Éden Park da ilha de São Vicente, esse que foi cinema histórico na cidade, senhor de todas as estreias, dos maiores sucessos de plateias. E que depois, um bocado por causa das casas de vídeos e pirataria, foi soçobrando, decaindo, empobrecendo, apodrecendo e depois foi encerrado para ser demolido e passou anos simplesmente a cair aos pedaços.
Até que os ventos mudaram (surpreendentemente), choveu dinheiro em cima dele (a chuva de dinheiro é um fenómeno raro, mas acontece) e foi reconvertido num magnífico centro de conferências, com duas salas de cinema – ainda que pequenas – restaurantes, bares, um hotel e uma sala de teatro de época. A sala é que é de época. O teatro, tanto pode ser como não, como se diz em bom crioulo, é conforme, o que não significa semelhante ou análogo mas sim, depende.

Em dependendo desta plateia e do grupo teatral, a inauguração vai ser um sucesso. Trata-se de um grupo de teatro que veio dos Estados Unidos, nascido e criado em Brockton, que, como todo o mundo sabe, é a maior cidade cabo-verdiana no mundo. Este grupo surgiu por iniciativa de um antigo professor de história originário do Fogo, que, seguindo a sua sina, emigrou para os EUA cheio de sonhos para descobrir, depois de lá chegar, que o mundo da emigração não só não é doce como não é rosa. Trabalhou em toda a casta de sítios e tarefas de que nunca se teria aproximado na sua terra natal. Penou. Pensou. Em regressar, em desistir. Mas já lhe tinha nascido um rapaz. Depois veio uma menina.
Com os anos, e à medida que os filhos cresciam, ele foi vendo a vida das crianças filhas dos emigrantes. Como cresciam a serem constantemente atiradas de um lado para o outro ou plantadas frente a enormes televisões porque não havia tempo para elas. E o nosso professor de História, pessoa bem-intencionada, começou a organizar tardes recreativas para crianças na sua casa. A ideia era fazer jogos, cantar, dançar e sobretudo, manter a televisão desligada.
Isso foi há anos.
As coisas ganharam dimensão. A mulher deixou o trabalho e foi ajudar, porque os centros diurnos já davam dinheiro. Depois vieram outras pessoas colaborar. Os meninos cresceram e passaram a ajudar quando podiam. Em dez anos, a iniciativa dele fora replicada noutros centros urbanos.
Depois ele abraçou a sua verdadeira paixão, o teatro. Que ele começara a fazer em Mosteiros, na escola. Interpretara Romeu. Sentira como o papel lhe trouxera uma paixão que nunca sentira antes e que ficara no seu âmago, hibernada, até agora, que explodira, que o invadira e ele não queria mais nada. Passou a gestão para as mãos da mulher, escolheu algumas pessoas que acreditava terem talento e formaram o seu grupo de teatro experimental, que na verdade tinha a ambição de ser profissional.
E anos depois, eis que estão pela primeira vez em Cabo Verde, depois de uns quantos sucessos em várias cidades americanas.
(Foto da net)

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