Soncent

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terça-feira, 16 de outubro de 2018

Ignite - inspiração em 5 minutos

























Eu, pensando: Será que consigo? Será que vão gostar?
Mas também, pensando: como é que vou vestida? E que penteado?
....
(Emojis de alguém a roer as unhas que eu não vou estragar as minhas).


Ufa!

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Camaradas

Onomástica possível

Pergunto-me o que a Comissão Nacional de Onomástica recém-criada achará do meu nome... E o que a minha mãe achará quando a Comissão achar que não dá. Ou não dava. Ou não devia ter dado. 

E eu, rindo do camarote, que ainda hoje, e ainda ontem, tive que desembainhar a espada contra os que não me quiserem chamar pelo meu nome ou escrevê-lo tal como o ditei.

Ando numa luta sem fim para que todos os cabo-verdianos aprendam este nome... mas que nenhum deles se lembre de o dar a alguma pobre bebé. 

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Uma coisa bonita


Na semana passada aconteceu uma coisa muito bonita: fui mordida por uma cadela ao pé da minha casa e enfureci-me completamente porque foi sem provocação. Como qualquer outro cabo-verdiano, a minha reação, enquanto o sangue começava a deslizar-me perna abaixo não foi ir a casa lavar a ferida, fazer um curativo e ir tomar uma vacina contra o tétano. Não. A minha primeira reação foi apanhar uma pedra para atingir a desgraçada atrevida, a inimiga maldosa que se atrevera a morder-me à traição.
 Tenho vergonha de confessar que consegui o meu intento: atingi de fato a cadela nas costelas com uma pedra de calçada e só depois subi para casa maquinando como é que me iria vingar ainda mais não só da minha agressora mas de toda a sua matilha que havia já dias andava a atacar as pessoas e há já uns anos vivem e se reproduzem na minha zona. Mas à medida que fui lavando o sangue da ferida e verificando os estragos, fui acalmando e é claro que cheguei enfim à conclusão de que o ataque não era a solução.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

O aparelho - Desatualizado, que já tirei o bicho









Desde que pus o aparelho passei a gerir mal minha saliva. Meus dentes, minha língua, minhas bochechas e lábios estranham o ser estrangeiro que se entranha neles e contestam-no. Minha saliva se rebelou de tal forma que sai sempre que pode, foge de minhas cavidades, aterra em outras caves, às vezes nas mesas, nos pulsos de terceiros e em vácuos amargos. Minha saliva, que eu saiba, deu de fugir chovendo por aí.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Auto-chuviscação ou como a chuva está no nosso ADN

Se agora não me levantar de onde estou e confiar apenas no barulho que vem da rua, está a chover. Não é de esperar que chova em maio, não é hábito, nem vi nuvens pairando no céu. E no entanto, parece que chove. Ouço o ruído suave de gotas caindo no asfalto, ouço o som de pingos na calçada. Ouço ainda a música da água nos mosaicos da varanda. Ouço isso tudo. E por nada me levantarei para ir confirmar se chove ou não. Desligo a luz, recosto-me na cadeira, fecho os olhos e durante instantes de longa meditação, sou uma cabo-verdiana abençoada pela chuva. 

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Mano, acreditas nisso?

Não sei como é que o Blogger apura as estatísticas, mas aparentemente, o país onde mais me lêem é a Rússia...

Menino dado

Nos anos em que me deixei ficar para trás, bolinando de avesso no transverso do perverso do Severo, percebi que dos amplexos só nos restará o convexo: nada mais que algum sexo, nada menos que nenhum nexo. 

Pior ainda: do sexo transviado cresceu-me um quiabo, nasceu-me um nado, dormiu sem nunca haver chorado. Nem sei se houvesse respirado, nem sei se o tivera amado. À terra foi dado, e espero que não lhe tivesse pesado, a esse menino dado. 

Tinha pensado gritar por ti

Eu tinha pensado gritar por ti da minha janela, acender uma fogueira no meu terraço e fazer-te sinais de fumo - os que nunca aprendi a fazer. Eu tinha pensado em estudar as marés para te enviar mensagens numa garrafa de vidro fosco e para tal bebi o vinho que ela trazia dentro e não consegui escrever a carta, deu-me foi para te ir bater à porta, cantando, desgrenhada, chorando, babada, te amando, desesperada. 


quinta-feira, 3 de maio de 2018

O poema

Que o poema surgisse nu e coberto de tinta, parido num instante de pura rotina, carregado do velho que era mais um dia, desvirtuado por olhares cansados de sempre, enlameado de tristezas quotidianas, que o poema surgisse no meio à imundice da mesmice do pó que paira sobre o sol que se põe além, sem ninguém notar ou apreciar. 

Que o poema viesse pronto e nem rimasse, que fosse tonto e nem esboçasse rires e choros de nula espécie. Que viesse o poema como se chega a dor, que se desse o poema como se dá o amor, que ele chovesse como cai a névoa, que nos cobrisse como nos mancha a fé, que nos fodesse como nos suga o IVA, que nos quisesse como se pede a deus, que nos amolgasse como nos odeia a besta. 

segunda-feira, 26 de março de 2018

Um ano de Eileenísticas na RCV


Fez este mês um ano que (quase) todas as quartas-feiras, antes das oito da manhã, e depois à tarde, passa a minha rubrica literária na RCV. Foi um convite do Humberto Santos que aceitei prontamente, achei uma ideia gira, fiquei contente e orgulhosa. 

Nem sempre fácil. Já gravei Eileenísticas no meu telemóvel, no aeroporto de escala entre Boston e São Francisco, com chamadas e avisos no altifalante e pessoas  a arrastar as suas malas por mim. Já as gravei na noite de terça-feira, em casa de gente, porque me tinha esquecido que no dia seguinte era quarta. Já gravei coisas divertidas e coisas mais sérias. E é um encanto encontrar pessoas que comentam comigo o que ouviram. 

Tem sido muito útil para mim porque ao escolher um texto e gravá-lo, sou como que uma editora estranha que o ouve pela primeira vez e o corrige, o repensa, refina. 

Então, obrigada, Humberto Santos! 

(Imagem da net)

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Boas vindas, 2018


Entrei em 2018 com uma flute de champanhe nas mãos, cortesia da Dominika Swolkien, que teve a feliz ideia de juntar pratos diversos num jantar agradável e informal no apartamento em que morei durante uns aninhos mas ao qual ela soube dar uma graça muito superior a qualquer decoração que lhe tivesse feito. Estava, estávamos, está mais que visto, em Soncent, minha ilha adorada. 

De manhã, após uma boa noite de sono, lá estava eu na Praça Nova, cumprimentando aquela malta toda que tinha vindo das festas, desta vez não desmazelados, com os sapatos nas mãos e fatos desfeitos, mas sim muito compostos, não exatamente perfumados mas bastante bem vestidos e pintados. Houve uma ou outra de sapatilhas discretas debaixo dos vestidos, mas de resto não vi manchas de bebidas, gravatas tortas nem ninguém podre de bêbado. Sinal dos tempos. Eu sim, tinha ainda as pálpebras inchadas porque entre a tosse terrível que me acompanhou nesses dias e os cães da Polícia de Intervenção que ladram durante toda a noite por nenhuma razão, não houve sono retemperador para mim. 

De resto, de assinalar a vivacidade da ilha, os preços que nos parecem baratos quando comparados com os da Praia, a minha família com quem é sempre muito bom estar. 

E este blog, que parecia zonzo de sono e agora vai voltar a florescer! 

Beijos e abraços! 

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

A minha gente


Vai parecer anedota mas quando me ligaram a dizer que o meu poema "A minha gente" tinha sido escolhido para um livro que se chamaria "Os 100 melhores poemas de Cabo Verde", o que eu pensei foi:
Mas esse sequer é o melhor poema de Eileen Barbosa...

Mas quem escolhe assume todas as responsabilidades e na apresentação deste livro, que entretanto mudou de nome,  quando este poema foi lido e depois comentado, percebei porque é que tinha sido esse e não outro. É algo relacionado com o ser-se cabo-verdiano. Costumava crer que nunca refleti muito sobre o ser-se cabo-verdiano na minha escrita porque estava tão intrínseco em mim e porque sou geralmente escritora de ficção. Mas não é bem isso: penso agora que nos primeiros anos de escrita, a maior parte dos escribas escreve muito por influência de quem leu. E eu li muito mais escritores "ocidentais" que nacionais. 

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Crítica a Eileenístico

Ecos do Brasil, no blog Leia-se, aparece uma crítica a Eileenísco, que reproduzo aqui, com enlevo:

"a leste do paraíso"

a vida é + rica
por maneco nascimento

Caboverdiana de São Vicente, daquelas que dizem, os sopros de fadas, nasceu para entabular ideias e escritas e fabular narrativas, fora do universo do lúdico, fantástico, mágico e enleador das inocências em processo de perda da infância.

Centra pena na realidade e, sob licenças poéticas e um quase recorte de diário, vai enredando leitores e deixando uma doce e suave alegria às escritas e memórias verossimilhantes às expensas do bom hábito de leitura e escrita a seus interlocutores, ou melhor leitores.

De linguagem leve, português de coloquial rebuscado e um descritivo inteligente Eileen Almeida Barbosa, traz um cabedal de histórias bem humoradas, ora carregada de discurso feminino livre e eficientizado, ora um discurso masculino à posse da domínio feminino do eu prosaico-poético. Textos de contos e crónicas eficazes. De certa desenvoltura pragmática para conluir à coesão e coerência dinâmicas aos olhos do degustador de narrativas.

Histórias de memórias criadas ao repertório da autora/personagem escritora que germina metalinguagem na aplicação da deliberada actuação de escrever e prender a recepção.

Enredos que beiram ao sexual, sexual sem apelos e, por vezes, linguagem que desliza pelo realismo de escola brasileira, mas toda a construção da prosa amalgama liberdade de correr por correntes, sem perder o porto do textual moderno aos melhores contextos de escrevinhador.

Dias de ócio

Vim aqui escrever umas linhas, apenas porque tempo demais sem palavras pode denegrir o éter, violar os apegos, desamarrar os nós e gorar os esforços, de anos, por uns ecos retorquidos. 

Nestes tempos, abandonadas as amarras ao sector público, fiquei de pena em punho, em janeiro ativa, nos outros meses, coerciva, tentando não rabiscar coisas novas mas terminar as antigas, a ver se tiro do ninho ovos que já cheiram a mofo, pintos gordos de tanto choco. 

E descubro uma nova realidade menos laboral, com os excessos e risos dos tempos às vezes demasiado livres: quantas vezes, quantos de nós, adentrados a um escritório e aí presos bastas horas diárias, não nos pegámos a desejar o sol e o mar, ou um sofá e lençol, num regozijo de dolce fare niente indecente de tão ocioso? Pois, dêem-nos horas vagas suficientes e pagámos-nos também, humanos que somos, a desejar a obrigatoriedade dos horários e das deslocações, da roupa passada a ferro e de encontrar pessoas outras que não a nossa cara embaciada no espelho, nem que seja apenas para lhes dizermos bom dia e fingirmos-nos ocupados. 

Reflexões para dias de ócio ou para dias de labor? 

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Achismo

A senhora parece que acha que a minha vida é estar deitada em lençóis de cetim, comendo uvas brancas e acariciando um gato persa! Saiba que devido a esta ciática, eu tenho que me levantar praticamente de hora a hora, para trocar o disco e deitar fora as grainhas!

Não publicações

Agora, como se não bastasse não publicar em Soncent e não publicar no Facebook, também já não publico do Youtube... A vida é feita não publicações. Vejam esta:

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Atropelei-me

Resultado de imagem para mulher à chuva
 
Há duas noites atropelei-me no caminho do porto. Era noite e eu ia animada, as galochas levantando pequenas tempestades de água. Havia chovido horas antes e ainda pingavam das árvores, gotas de cultura.
Caí e rolei na calçada, magoei-me feio no coração. Posso ter apanhado pancada também no cotovelo, mas não dói. Foi quando desbloqueei o telemóvel ao som do viber e vi a tua mensagem, no fundo, tão singela, uma simplicidade tosca, que me dizia em poucas palavras o que custou tantos meses de amor: que já não me querias. As gotas da chuva e as minhas lágrimas misturam-se no ecrã, umas doces, outras muito salgadas, umas frias, as outras bastante quentes.
Muni-me depois de tintura, vou beber o frasco todo, a ver se me cura. O que não nos mata torna-nos mais tristes.  
 
(Foto da net.)

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Vestimenta liberal

Muita mulher cabo-verdiana veste-se de forma liberal - roupa curta e apertada, independentemente de ter algum traço ou curva bonita para mostrar. Acho bem - ainda que o meu sentido estético deteste.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Afinal sou boa pessoa

 
Nunca me preocupei muito em ser boa pessoa. Andei na escola preocupada em ser a mais alta, a melhor aluna; nunca me ocorreu ser a melhor nalgum desporto nem em ser a que se vestia melhor, não sentia vergonha dos meus garatujos mas tinha orgulho do meu português.
 
É claro que nunca fiz maldades a não ser expulsar um gato do prédio, até a minha irmã me chamar a atenção. Não me aproveitei da minha altura para bater em ninguém, não "busquei insulta" a ninguém, que me lembre. Era extrovertida mas não me metia a gozar com os colegas. E em casa, ainda apanhava da minha mãe, da minha irmã e da minha vizinha. Sem ter em quem me vingar.
 
Foi só em Portugal, quando estava na universidade que, estando afónica, descobri que era boa pessoa sim, senhora. Porque sou mandadora de bocas, isso sou sim, tenho uma boca lesta em fazer comentários sobre a forma de falar, a roupa ou a postura de alguém, bocas que partilho apenas com gente de confiança, que não servem para mais nada a não ser para aquele entretenimento passageiro e inconsequente que também nos dá a leitura de revistas cor de rosa.
 
 Mas se me dói falar, se só consigo sussurrar o básico, então calo-me e penso para comigo mesmo que a minha maldade é um fogo de palha que não justifica o esforço. E, calada, descubro-me um amor de pessoa.
Onde é que vou buscar a minha medalhinha de santa para usar junto ao peito?