Soncent

Soncent
Mostrar mensagens com a etiqueta Crónicas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Crónicas. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Uma coisa bonita


Na semana passada aconteceu uma coisa muito bonita: fui mordida por uma cadela ao pé da minha casa e enfureci-me completamente porque foi sem provocação. Como qualquer outro cabo-verdiano, a minha reação, enquanto o sangue começava a deslizar-me perna abaixo não foi ir a casa lavar a ferida, fazer um curativo e ir tomar uma vacina contra o tétano. Não. A minha primeira reação foi apanhar uma pedra para atingir a desgraçada atrevida, a inimiga maldosa que se atrevera a morder-me à traição.
 Tenho vergonha de confessar que consegui o meu intento: atingi de fato a cadela nas costelas com uma pedra de calçada e só depois subi para casa maquinando como é que me iria vingar ainda mais não só da minha agressora mas de toda a sua matilha que havia já dias andava a atacar as pessoas e há já uns anos vivem e se reproduzem na minha zona. Mas à medida que fui lavando o sangue da ferida e verificando os estragos, fui acalmando e é claro que cheguei enfim à conclusão de que o ataque não era a solução.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Afinal sou boa pessoa

 
Nunca me preocupei muito em ser boa pessoa. Andei na escola preocupada em ser a mais alta, a melhor aluna; nunca me ocorreu ser a melhor nalgum desporto nem em ser a que se vestia melhor, não sentia vergonha dos meus garatujos mas tinha orgulho do meu português.
 
É claro que nunca fiz maldades a não ser expulsar um gato do prédio, até a minha irmã me chamar a atenção. Não me aproveitei da minha altura para bater em ninguém, não "busquei insulta" a ninguém, que me lembre. Era extrovertida mas não me metia a gozar com os colegas. E em casa, ainda apanhava da minha mãe, da minha irmã e da minha vizinha. Sem ter em quem me vingar.
 
Foi só em Portugal, quando estava na universidade que, estando afónica, descobri que era boa pessoa sim, senhora. Porque sou mandadora de bocas, isso sou sim, tenho uma boca lesta em fazer comentários sobre a forma de falar, a roupa ou a postura de alguém, bocas que partilho apenas com gente de confiança, que não servem para mais nada a não ser para aquele entretenimento passageiro e inconsequente que também nos dá a leitura de revistas cor de rosa.
 
 Mas se me dói falar, se só consigo sussurrar o básico, então calo-me e penso para comigo mesmo que a minha maldade é um fogo de palha que não justifica o esforço. E, calada, descubro-me um amor de pessoa.
Onde é que vou buscar a minha medalhinha de santa para usar junto ao peito?

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Oportunismo

Resultado de imagem para transportando na cabeça
 
 
Vinha ontem da casa de uma amiga, passando pelo Palmarejo quando vi um pequeno cortejo: uma senhora e duas meninas transportando um armário, uma mesa de cabeceira e uma mesinha de canto nas suas cabeças.

O armário era relativamente grande, ainda que feito de contraplacado e não de madeira maciça. Entrei pela rua do Suave atrás delas e perguntei à senhora se iam longe. Ofereci-me para as levar, dado que tenho uma carro de caixa aberta. (O famoso Portentoso, que esteve de baixa durante quase três meses).

Eu estava relativamente satisfeita com a minha generosidade espontânea quando a senhora me diz se não a posso ajudar. E eu pergunto "Com o quê?". Ela diz-me "Tenho um filho de dois anos que não fala." E eu pergunto-me "Será que ela pensa que sou médica? É verdade que não estou com um ar muito medicinal, de calções de desporto e um top despretensioso, mas talvez ela..."

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Memórias dos trovões

Era a noite de 24 de dezembro de 1996. Como muitas vezes acontece, estava a chover, ainda que não copiosamente. Eu e a mamã passeávamos no seu Ford Escort vermelho, a ver o movimento das ruas.
Só valeria ir à ceia muito mais tarde, quando a minha avó, que tinha uma loja da Pracinha da Igreja, se despachasse das vendas tardias.
 
A calçada brilhante refletia as luzes das lojas em que as pessoas se atarefavam, embora já passasse das dez. Por muitas portas saíam as músicas do Jorge Cornetim, marcas obrigatórias da época natalícia. Estava longe de estar frio mas ambas trazíamos casacos.
 
Começaram os relâmpagos, seguidos de trovões. Um, dois, três. A mamã confessou-se com medo. Eu sorri. Ela conduziu mais um bocadinho. Os trovões não paravam. Ficou com mais medo ainda. Eu gargalhava. O que é que poderia acontecer?  Nada, claro.
 
Mas sabem o que fez?
 
Foi a correr para a loja da mãe, que na altura tinha os seus respeitáveis 79 anos. Não procurar agasalho, claro. Conforto, talvez.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Crónica na desportiva II - atualização

 
Não ando a acompanhar os jogos olímpicos porque passam na TV e eu não sou muito disso. Mas ontem estive a ver um jogo de basquete e a pensar em que modalidade é que ainda estarei a tempo de me meter, para daqui a quatro anos, estar a curtir os jogos em primeira pessoa, tipo assim, participando e tudo. Creio que as minhas melhores possibilidades estão no Scrabble. Sem vergonha nenhuma.
 Nunca fui muito de desporto. Mas tentei muito!
A minha primeira paixão foi o karaté e andei uns meses numa escola. Mas o karaté era demasiado lento para quem queria ser ninja como eu. Eu queria era dar mortais e muita pancada. Afinal de contas, sou do tempo de karaté kid e saía do cinema possessa, achando que o meu destino já estava traçado.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Memórias a propósito

Resultado de imagem para festival baía das gatas
 
Em toda a ilha de São Vicente, o carro mais precioso era o da minha mãe.

Por essa razão, não havia hipótese nenhuma desse bendito carro ir à Praia Grande ou à Baía das Gatas durante o festival, de maneira que com sorte, ela dava-me uma boleia até à Rotunda da Ribeira Bote e aí, eu tinha que me acotovelar contra muito boa gente para conseguir entrar numa hiace rumo à Baía.

Apanhava de tudo nessas hiaces. Depois da entrada um bocado selvagem, nós que tínhamos vencido a disputa sentávamo-nos todos muito juntos e já nos permitíamos alguma camaradagem.

Uma vez, a meio do caminho, alguém acendeu a luz do tejadilho e disse "Bar aberto!" Circulou uma garrafa de grogue. Depois a mesma voz disse "Bar fechado" e apagou a luz.  Mais um bocado, voltou a abrir o bar e de novo a garrafa circulou.

Passado um momento, ouvíamos já a primeira atuação do Festival: a viúva do Baltazar Lopes cantava "nha manel junquim nha manel do diach" e todos nós dentro da carrinha fazíamos coro "olé lé lé".

Não preciso de vos contar do meu sorriso no escuro.
 
(Foto da net)

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Sopa de artistas


 
O Chico Buarque olha para mim com aquela cara séria e eu também olho para ele, sem me poder desviar um segundo. Venho de um leilão onde por pouco, arrecadava o piano da Nina. A verdade é que não haveria jeito de o subir em casa, então teria que o doar para o Conservatório e depois ir lá todos os dias enxotar quem nele quisesse tocar. Algures, ao longe, soam as notas e se o vento está de feição, ouve-se... Geni...

O Caetano disse que passaria pelo café, mas deixou-se ficar com o Cohen em Silves, que é uma cidade muito bonita onde nunca pus os pés, porque para tal teria que ter dito à Ryahnna: não precisas de mostrar os seios dessa forma para venderes discos.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Cabo Verde em 2030




Por alturas da organização do II Fórum da Transformação (maio de 2014) pediram-me que escrevesse a minha visão do que será o país em 2030. E escrevi isto:




2030 é celebrado por todos em Cabo Verde, até nas ilhas onde não havia muita tradição de apitos e barulho à meia-noite. Pudera! O país vira tanto desenvolvimento nas últimas décadas que parecia maior, como se as suas ilhas tivessem crescido.


Mas em tamanho, estava tudo igual. Até havia menos cidades e municípios, à medida que o crescimento levara à fusão de algumas cidades e algumas câmaras tinham conseguido chegar a acordo a fundirem-se, ganhando, desse modo, maior força e economia de escala. Fora o que acontecera em Santiago e no Fogo. O Governo tornara-se mais enxuto e dispersara-se pelas ilhas. Que se visse o efeito que a instalação de dois ministérios tinha tido na ilha da Brava! O Parlamento tinha também ficado mais leve e os deputados eram bem pagos mas tinham imensas exigências sobre eles.


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

34 anos e alguns ganhos

 
 
 
Dei uma volta e fiz 34 anos. A década de 30 interpela-nos porque há um conjunto de vitórias, aquisições e posicionamentos que a sociedade nos diz que devemos ter alcançado por esta altura e se falharmos, sentir-nos-emos muito mal e quem sabe, até comecemos a fumar, percamos peso ou pior, muito pior que isso tudo, engordemos.

Eu simpatizo mais com idades e números ímpares em geral. Assim, do alto da cabeça, posso lembrar-me que nada se igualou ao verão de 1997, que quando fiz 23 anos, pensei que não precisava fazer mais e os meus 33  me encheram de orgulho.
 
Nessa senda, estes 34 seriam só marcação de tempo para os 35. Mas os 35 parecem ter um peso e consistência toda ela diferente, e ainda bem que temos um ano inteiro para nos prepararmos para o tranco que depois, aparentemente, só voltamos a sentir aos 40.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Resenha crítica de Two Fragments of Love

Um dia, casualmente navegando na net, encontrei, quase sem procurar (isto tudo já parece 1 de abril) uma resenha crítica de um trabalho meu também casualmente publicado em Africa39, que só por razões de memória coletiva (as minhas) eu publicarei cá no blog.
 
Sabem? A mim, as críticas quase nunca são vociferadas; nem mesmo ditas. Um ou outro partilhou comigo, num sábado à tarde, três, quatro linhas. Sei-os de cor (os críticos, não as linhas). (Ok, também as linhas!). A maior parte nem sussurradas mas deu.
 
Então, estas imensas considerações sobre o meu trabalho deixaram-me a modos que de boca aberta e olhos em bico e um fio de baba a escorrer-me pelo queixo (feminino, redondo, ligeiramente torto e flagelado mas amoroso) até à blusa (não de cambraia, não de seda, apenas uma imitação de bom gosto e preço acessível) até à ponta do pé (torto mas pequeno).

READING THE AFRICA39 ANTHOLOGY: “TWO FRAGMENTS OF LOVE” BY EILEEN ALMEIDA BARBOSA.

 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Tentativa de balanço I - e outras divagações

Saibam que agora, dezembro  escreve-se com letra minúscula. Dezembro. Digo, dezembro. É que no início da frase, ele mantém a letra maiúscula por razões de que vocês se lembrarão. Menos a Catarina. Ela não se lembra das maiúsculas, o que a mim, me dá um certa aflição. Mas eu há muito que sou de me afligir com o Português mal escrito, não fosse ele a minha Pátria. Já o tinha dito aqui?
 
A minha Pátria é a Língua Portuguesa.
 
Dito isto, não tenho problemas nenhuns em dar umas chicotadas à Pátria, aqui e além, não por rebeldia mas por puro desejo de inovação, frescura e sacudir as coisas. Muito Mia. Vocês sabem... Couto.
 
(Tenho mosquitos na sala, sobrevoam-me com más intenções, zika, zika, zika...)

quarta-feira, 21 de maio de 2014

A minusculidade do ser





Depois dizem que o tamanho não importa. Eu vinha a caminhar na rua, não exatamente pensando mas antes deambulando no meu cérebro, entre as dúzias de neurónios que me foram presenteados à nascença em vez de me abrirem uma conta poupança. Então, numa esquina, topei com a notícia das eleições na Índia. Fui ver melhor, através dos vidros da loja.

Vi, mas não processei, que havia  814.5 milhões de pessoas que podiam votar. Mas isso não é nada, dirão vocês. Afinal, havia 8.251 candidatos. Não sei, bateu uma pequenez, uma coisa, apeteceu-me esconder-me algures, vi uma poça de água na rua, fui ver se ela me cobria, afinal tinha lama e óleo, de maneira que me sentei na praia, de onde podia ver as outras 9 ilhas do meu minúsculo arquipélago onde as quinhentas e tal mil almas, fazendo pelas suas vidas, não enchem um bairro de uma cidade média algures no mundo.


Deu-me uma preguiça... se aqui é o que é, com as eleições, com as centralidades e queixas, com uma ilha do tamanho do Sal a querer duas câmaras municipais para dividirem os recursos já tão parcos, como é que será gerir aquela galáxia que é a Índia? 

Haja Via Láctea!

(Foto da Wikipedia)

terça-feira, 13 de maio de 2014

Brio. Brio Profissional.


Ultimamente, recebi dois trabalhos que me arrepiaram os pelos das ventas: Um ficheiro com informações à atenção superior, enviado por um técnico superior. Tratava-se de uma tabela com dados. Veio sem nome (diz apenas “Cópia de Livro”), sem título, sem data, sem apresentação, com erros de português, com uma péssima formatação. Onde é que nos passaria pela cabeça entregar um documento assim? 


Num outro dia, enviam um relatório de um evento. Este tem título e data. Não tem é conteúdo. As frases não têm verbos. Não se encontra, nesse relatório de 4 páginas, uma única informação que se pretendia ao se pedir a tarefa. E não foi por falta de explicação. É certo que outra pessoa vai ter que investir ainda mais tempo a fazer o trabalho que já tinha sido encarregue a outra técnica.

Num outro dia ainda, uma técnica recusou uma tarefa por estar “cansada” e não se coibiu de escrever isso mesmo num correio eletrónico: Não posso fazer tal coisa porque estou cansada. E depois, recusou mais tarefas porque não está disposta a “tapar buracos”. Ou aceita fazer alguma coisa e meia hora antes diz que afinal, “não vai dar”. Claro que alguém teve que ir tapar os tais buracos, ou quem é que ficava mal era a instituição. (Leia-se-se, o empregador: Aquele que nos paga os salários.) 

Vejam, há imensa coisa que se pode dizer mas que nunca devemos escrever. Um correio eletrónico pode ser reenviado, partilhado, guardado. Essa coisa de enviar piadinhas, filminhos, flirts, no e-mail do trabalho... Não se faz. Nunca, ok? Vá lá, se o nunca for muito forte, apaga depois, e pede ao destinatário que faça a mesma coisa. 

É preciso estarmos conscientes do que andamos a fazer no nosso local de trabalho. Algumas das coisas mais básicas, aprendemo-las na escola: começar as frases com letras maiúsculas. Vocês dirão que estou a exagerar. Quem me dera. Também aprendemos a assinar as nossas comunicações. O Outlook dá um jeito: sugere correções aos nossos textos. Porquê recusar essa ajuda e enviar textos cheios de erros de português? 


Cada comunicação que enviámos, cada carta, cada documento que vai com o nosso nome é um sinal. Um sinal de que estamos atentos, que revimos o nosso trabalho – que é, por sua vez, um sinal de brio profissional e de respeito pelo destinatário. E não me digam que é por falta de tempo. 

E por falar em falta de tempo: o Facebook é uma ferramenta de trabalho, sim. Permite-nos obter informações em segundos. Mas deixar a página do Face aberta quando vamos à tua sala, para descobrirmos que em vez de estares a trabalhar, estar a curtir as fotos do baptizado da Maria Alice... Ê pá!

quarta-feira, 26 de março de 2014

Do baú dos escritos

Nós e o trabalho

Feitas as contas, passamos várias horas por dia a preparar-nos para o trabalho, a tentar lá chegar, e a fazer pausas, horas essas nas quais não produzimos e pelas quais também não somos pagos.

Agora que é possível fazer uma série de trabalhos em casa, as entidades empregadoras estão ainda amarradas ao medo de nos deixarmos amolecer no nosso sofá e preferem-nos pasmando frente ao computador, no escritório, que trabalhando uma hora e meia e fazendo uma pausa para fazer a cama, mais uma hora e meia e fazendo uma pausa para pôr a roupa na máquina. 

E nós, de olhos em bico no nosso salário no fim do mês, lá aceitamos tudo caladinhos. Quem dá um berro é logo visto como um louco, que não se preocupa se vai ter tutu no fim do mês para pagar a renda. Ou será que só eu penso assim e o resto da malta está muito feliz com semanas, meses, anos, décadas a ter que estar no local de trabalho 8 horas por dia?



13 de Julho de 2007

terça-feira, 11 de março de 2014

Chefes I



Contando com os estágios e descontado a escola, já tive, entre chefes e subchefes, mais de 10 pessoas a liderar-me. Ou a mandar em mim, como alguns deles terão pensado. 

Com 10 chefias, já devo algumas historias para contar, algumas lições aprendidas e queixas para fazer!

Dois dos meus chefes conseguiram verdadeiramente, liderar-me, sem nunca me pesarem. Davam instruções como quem dá sugestões. Um deles então estava quase sempre longe e envia-me e-mails onde me dizia "podias fazer isto e depois fazer aquilo..." Era o Tom. Sem Dr. nem Sr. 

Tive um chefe, o Victor, que era o pesadelo em cabelos pretos. Começou por entrar na minha sala sem bater, como que a querer apanhar-me a fazer alguma coisa de muito horrorosa, sei lá, quem sabe, uma posição de yoga, no chão, ou a limpar o nariz, ou, pior ainda, a falar ao telefone. 

Depois passou a ostracizar-me. De vez em quando dizia-me que não sabia quais eram as minhas funções quando eu me dera ao trabalho, poucos dias depois de ele chegar, de lhe apresentar todo o meu plano de trabalho, com prazos e objetivos. 

Depois dispensou-me de assistir a qualquer reunião. Obrigou-me a prestar contas sempre que me ausentava da minha sala, fosse para ir tomar um café ou à casa de banho. Finalmente, pôs-me numa mesa, na recepção, a atender pessoas. Este homem era tão terrível que passei a acordar e pensar "Que chatice, tenho que ir trabalhar!" 

Para relaxar um pouco dele e porque os seus chefes tardavam em tomar alguma medida mesmo quando viram que ele começara por mim mas já se tinha incompatibilizado com quase toda a gente, fui passar um fim de semana à Boa Vista. Cheguei, desci do avião e quem é que estava lá no aeroporto, a olhar para mim? Uma mulher de lenço na cabeça que eu julguei ser o Victor e já ia subindo de novo para o avião! 

Lições aprendidas? Não confies mais num profissional só por ser estrangeiro. E é com chefes assim que descobrimos se somos o capuchinho... ou o lobo mau. 


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Romances vs espionagem


Li, na vida, muitos mais livros de espionagem que romances de amor e o engraçado é que, sendo ambos bom entretenimento e tendo todos algum suspense, aventura e romance, está assente que nos romances, os casos de amor vão ter que durar a vida toda enquanto os espiões não se podem agarrar aos personagens deste livro, porque no próximo, têm que estar solteiros e disponíveis para as próximas aventuras… Já imaginaram o Bond, casado?  
 
Uma das minhas personagens favoritas de espionagem era uma tal de Baby, uma loura escultural que tanto poderia aparecer também morena ou ruiva sem que o cabelo dela ressecasse ou a peruca fosse evidente. A Baby era daquelas espiãs que sabe fazer tudo, desde guiar helicópteros, barcos, motas de água a falar russo, espanhol e francês e conseguia sempre escapar das armadilhas, geralmente sem muitas cicatrizes.
 
 
Já um dos meus romances favoritos foi um cujos personagens de conhecem batendo com o carro um no outro, numa tempestade de neve e implicam imediatamente um com o outro. No entanto, como o tempo não está para brincadeiras, têm que ir para um casarão abandonado lá perto e tentar acender uma fogueira para se manterem aquecidos... ai, os romances! Sempre nas cenas de mais angústia, eu sentia uma dorzinha aguda algures no peito mas quando era o caso da minha mãe, já eu agia com muita frieza: trazia o livro para casa, lia-o e ela depois tomava para ler.

A meio da leitura, eu resolvia que tinha que devolver o livro para tomar outro, então ela ficava sem ler o fim e quando me admoestava, eu respondia logo:
 
 
- Não te preocupes: eles ficaram juntos no final!

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Saudades a despropósito VII


 
O culminar de um dia de trabalho era a novela, que dava às nove da noite. Creio que era o momento em que elas se esqueciam das suas vidas de empregadas domésticas, em que elas encarnavam nas heroínas brasileiras, em que elas choravam junto com as escravas ou rejubilavam com os sucessos da menina pobre que casou com o mocinho.
 Do que me lembro é de estarmos na Praça Nova, com as nossas bicicletas reluzentes e a certa hora, a Da Cruz e a Ma Bia começarem a dizer-nos para darmos a nossa última volta, porque já está na hora de irmos para casa.
 
Mas a Praça era o paraíso para crianças como nós, então íamos ficando, íamos fugindo delas e os minutos escorriam até que elas, desesperadas e chateadas, nos pegavam por um braço, pegavam nas bicicletas com a outra mão e voavam calçada acima até o Alto de São Nicolau, onde, esbaforidas, suadas pelo esforço, subiam mais umas escadas para as casas vizinhas onde trabalhavam. Atiravam a bicicleta para alguma varanda e entravam na sala, onde a patroa já estava sentada no sofá a ver a novela.
 
A Da Cruz, a nossa, sentava-se então na alcatifa, pernas estendidas, e embarcava na trama. Todas nós na casa, e praticamente toda a gente na zona, na ilha, no país, atentos ao ecrã durante uma hora, sabendo os nomes de todos os personagens, amando uns e odiando outros, rindo-nos às claras e chorando às escondidas.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Coisas

Sinto-me uma fraude.

Há vários meses que entretenho ideiais minimalistas. Possuir apenas o que necessito. Livrar-me dos pesos mortos. Leio blogs acerca disso, dou aulas magnas à minha mãe.
 Criei fórmulas para obter o exacto número de camisas, calças e cordões que devo possuir. Livrei-me de cadeiras, de mesas, dei e vendi peças de roupa. Mas na semana passada, estando a organizar mais uma mudança de casa, era tanta a tralha que me encarava com olhos de peixe morto, que jazia pelo chão e nem pedia pela sua vida, nem implorava por ir comigo… Mas que eu lá ia enfiando nos caixotes, metendo nas malas, desesperada, pensando que sim, vou deitá-la fora mas preciso de tempo, tempo para escolher, tempo para me despedir, e sei traçar as origens de cada objecto e conheço a cor de toda a peça, o seu cheiro e peso e textura. Porque é que nos agarramos tanto às coisas?
 Ou serão as coisas que nos agarram a nós?
 Saí há mais de um ano da CI mas até há semanas, ainda guardava o caderno em que tomava as minhas notas, para o caso de vir a ser necessário. Depois, um dia assim, de sol, convenci-me: isto já não vai ser necessário para nada. Enchi uma tina de água na banheira, afoguei o caderno, depois cortei-o em postas, amachuquei-as todas e para o lixo é que vocês vão. E não, não aconteceu que no dia seguinte, me ligaram a pedir a data daquela reunião. Não aconteceu absolutamente nada.
 Já fiz isso com umas poltronas que, se não me viram nascer, estiverem presentes quando andei a ouvir cassetes da Joana e a pedir para faltar ao Jardim de Infância. Não as afoguei, limitei-me a pô-las na rua e horas depois, já aí não estavam e nunca mais perdi uns segundos a pensar nelas, nem lhes senti a falta.
 É na verdade, libertador libertar-nos dessas libertinices de ter tanta coisa metida em guarda-fatos, debaixo das camas, a encher as prateleiras e a apanhar pó.
 
E depois acontecem acasos felizes de no mesmo dia, encontrar-me com duas amigas vestidas com roupas que já foram minhas. Mas que fico muito contente por já não serem.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Eu brinco, tu brincas?


E assim, enquanto faço coisas mil que não postar em Soncent, este mesmo Soncent aniversaria - a 27 de Janeiro, completando 7 anos.
 
Depois, vou eu à ilha mãe, que estava bonita de se ver: as rotundas em flor, a baía jubilosa, uns prédios do Casa para Todos de dar água na boca e um mar, um monte de caras conhecidas e sorrisos queridos.
 
Não houve Laginha para mim, não houve Calhau nem nada parecido - fui em serviço - mas houve uma das actividades que mais aprecio ultimamente - brincar. Abro as portas dos guarda-fatos. Identifico imediatamente as peças novas. Retiro-as do cabide, visto-as, vou ver-me ao espelho. Ponho-as de novo no lugar.
 
Experimento todos os sapatos. Ando com eles um bocadinho, é sempre uma decepção nova redescobrir que são demasiado grandes. Volto a arrumá-los. Depois vou à casa de banho, mexo e remexo nas caixas que revelam os seus segredos: cremes de rosto, cremes de corpo, cremes de mão, cremes de pé; maquilhagem sortida; frascos de géis de banho, máscaras hidratantes, pequenas amostras de perfumes, óleos de cabelo. Necessaires com bijutarias, com apliques de cabelo, bugigangas.
 
Depois vou às minhas gavetas, onde estão depositados as cartas dos idos anos 90 do século passado. Os meus cadernos do liceu, as roupinhas que já não me vestem, um estojo com peças soltas de sei lá o quê. Um estojo que usei no jardim de infância, uma carteira que a Tia Mercedes me fez na primária. Os originais de alguns dos meus contos, escritos na minha letra muito feia, num pedacinho de papel qualquer. Fotos.
 
E rejubilo-me, e sinto-me em paz, e sinto-me em casa.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Esta época mágica

Esta época mágica, em que não está frio mas também já não faz aquele calor obsceno; estas manhãs mais cinzentas, às vezes com pinguinhos de chuva, às vezes só com uma brisa que sentimos vir lá de longe, uma brisa que passou por montanhas verdes, por cumes cheios de neve, por planícies cheias de bezerras branquinhas, vacas malhadas, quiçá um ou outro suíno gordo e cor-de-rosa; uma brisa enfim, que veio desde lá onde mora o tal do Pai Natal, que, como toda a gente sabe, mora numa casa de madeira entre dois rios, numa zona de moinhos de vento e moinhos d'água, numa zona com relva pelos joelhos e onde as andorinhas fazem os seus ninhos.
E esta brisa sopra-nos na cara e lembra-nos que Dezembro vem vindo, um mês de alegrias e famílias e celebrações e memórias de outras alegrias, outros seres queridos, outras celebrações. Então esta época, por ser tão mágica e querida, preenche-nos assim o coração e contamos os dias para que cheguem os dias mais importantes, esquecendo-nos que estes até são melhores, tantas vezes é melhor a antecipação que a coisa em si
E porque sim, porque estou com o coração cheio de antecipação e alegria que vos mando a todos um beijo soprado, leve mas quente, não aquele que queima mas do calor do pão quando está fresco e tiramos da padaria com um suspiro de satisfação.