Soncent

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quinta-feira, 21 de junho de 2018

O aparelho - Desatualizado, que já tirei o bicho









Desde que pus o aparelho passei a gerir mal minha saliva. Meus dentes, minha língua, minhas bochechas e lábios estranham o ser estrangeiro que se entranha neles e contestam-no. Minha saliva se rebelou de tal forma que sai sempre que pode, foge de minhas cavidades, aterra em outras caves, às vezes nas mesas, nos pulsos de terceiros e em vácuos amargos. Minha saliva, que eu saiba, deu de fugir chovendo por aí.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Auto-chuviscação ou como a chuva está no nosso ADN

Se agora não me levantar de onde estou e confiar apenas no barulho que vem da rua, está a chover. Não é de esperar que chova em maio, não é hábito, nem vi nuvens pairando no céu. E no entanto, parece que chove. Ouço o ruído suave de gotas caindo no asfalto, ouço o som de pingos na calçada. Ouço ainda a música da água nos mosaicos da varanda. Ouço isso tudo. E por nada me levantarei para ir confirmar se chove ou não. Desligo a luz, recosto-me na cadeira, fecho os olhos e durante instantes de longa meditação, sou uma cabo-verdiana abençoada pela chuva. 

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Vestimenta liberal

Muita mulher cabo-verdiana veste-se de forma liberal - roupa curta e apertada, independentemente de ter algum traço ou curva bonita para mostrar. Acho bem - ainda que o meu sentido estético deteste.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Afinal sou boa pessoa

 
Nunca me preocupei muito em ser boa pessoa. Andei na escola preocupada em ser a mais alta, a melhor aluna; nunca me ocorreu ser a melhor nalgum desporto nem em ser a que se vestia melhor, não sentia vergonha dos meus garatujos mas tinha orgulho do meu português.
 
É claro que nunca fiz maldades a não ser expulsar um gato do prédio, até a minha irmã me chamar a atenção. Não me aproveitei da minha altura para bater em ninguém, não "busquei insulta" a ninguém, que me lembre. Era extrovertida mas não me metia a gozar com os colegas. E em casa, ainda apanhava da minha mãe, da minha irmã e da minha vizinha. Sem ter em quem me vingar.
 
Foi só em Portugal, quando estava na universidade que, estando afónica, descobri que era boa pessoa sim, senhora. Porque sou mandadora de bocas, isso sou sim, tenho uma boca lesta em fazer comentários sobre a forma de falar, a roupa ou a postura de alguém, bocas que partilho apenas com gente de confiança, que não servem para mais nada a não ser para aquele entretenimento passageiro e inconsequente que também nos dá a leitura de revistas cor de rosa.
 
 Mas se me dói falar, se só consigo sussurrar o básico, então calo-me e penso para comigo mesmo que a minha maldade é um fogo de palha que não justifica o esforço. E, calada, descubro-me um amor de pessoa.
Onde é que vou buscar a minha medalhinha de santa para usar junto ao peito?

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Férias

A sensação inebriante de vir da escola com a bata ou a farda aberta, um ar descabelado porque foi o último dia de aulas antes das férias... quando é que a volto a sentir? Aquela noção clara de que durante mais de três meses, não haveria obrigação maior do que escovar os dentes à noite.. que de resto, era ir à praia quando quisesse, dormir quando desse, brincar por toda a zona, andar de bicicleta por todo o sítio... ir à Praça todos os dias!
 
Agora, sorrio um sorriso interno de excitação contida porque tenho uns diazitos de férias, não é nada que dê para gargalhadas histéricas. Mas vá lá, sempre é sorriso de antecipação.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Telepatia



 
Todas as empresas de internet, de telemóveis, de portáteis etc., estão num complot contra a telepatia, que era uma forma bastante mais barata de nos comunicarmos uns com os outros, pá!

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Setembro

Setembro... Parece um recomeçar, este mês, que supostamente vem depois do verão mas é muitas vezes ainda mais quente. É o mês do regresso às aulas, do regresso ao trabalho e às coisas sérias. Para quem fez promessas de ano novo, é, se calhar, mais uma oportunidade de as retomar, seja retomar as caminhadas, as idas ao ginásio ou passar a beber menos e deixar de comer isto ou aquilo.
 
Para outros, mais jovens, é tempo de se inscreverem em atividades de grupos, seja equipas, seja aulas de música ou sei lá o quê. Eu gostava de me inscrever num as aulas de canto e noutras de piano, numas aulas de condução de mota e noutras de pesados, numas aulas de pastelaria e outras de sushi, numas aulas de eletricidade e noutras de golfe. Tem tudo a ver, não é?

terça-feira, 30 de agosto de 2016

O beijo dele

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Queria falar-te do beijo dele, à porta de casa, o melhor sítio do mundo para se beijar.
 
Queria contar-te do beijo que demos, à porta de casa, sem nem nos tocarmos mais, só as nossas bocas encostadas uma à outra, primeiro muito tímidas e carnudas, a dele bem mais que a minha, a dele cobrindo a minha, sobrando pelos lados, a dele, mais rija que a minha, a dele, tão sôfrega quanto a minha, e o nosso pouco à vontade misturado com a vontade fazia-nos quietos, apenas as bocas uma na outra, às tantas até secas, e por isso, grudadas, e nós, respirando o ar que saía do nariz do outro, e vou-te dizer - se isso não é felicidade, então não sei!
 
E depois dos milhões de anos que passámos de bocas grudadas, ele afastou-se um bocadinho mas foi para se reaproximar, foi para me beijar de novo, foi para vir de lábios entreabertos, foi para me oferecer o inferior, aquele milagre de carne tenra e rija ao mesmo tempo, palpitante e quente, doce como nada mais na terra. E a ponta da língua dele veio atrás, arranjando espaço e tempo em mim, explorando-me, oferecendo-se e clamando ao mesmo tempo, roçando-se como quem se esfrega, afogando-me como quem navega.
 
E os minutos devem ter ido passando e a angústia chegando porque mais cedo ou mais tarde - oh mundo cruel - o beijo teria que acabar. Até lá, já não tínhamos forças nas pernas mas apenas nos braços com que nos agarrámos, e o peito dele enorme onde me encostei e de onde não saí de ânimo leve, por força própria.
 
E da porta de casa, ele foi-se embora.
 
(Imagem, obviamente, da net, do Klimt)

Voto em quem?

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Oiço, pela rádio que estamos em campanha. A mim, ninguém nunca chegou.
 
 Nem para pedir o meu voto, nem para me fazer sujeito - ou objeto - de um censo, um inquérito, uma leve sondagem de opinião.
 
 Deve ser, moro numa zona demasiado privilegiada...? Mesmo que aí me chegue o cheiro da ETAR que não filtra? Mesmo que me digam que não ande a pé não vá ser assaltada à porta de casa, onde, sim, roubaram-me um par de baterias do carro num só mês?
 
Deve ser, o meu piso demasiado alto, a entrada fora de mão? Deve ser, nessas zonas, não se faz porta a porta porque somos demasiado informados para querermos o calor do abraço da campanha, o olhar sério que nos pede o voto?
 
Deve ser, chegar aos milhares e milhares de eleitores não é fácil então vamos à zonas mais necessitadas, onde mais facilmente as nossas promessas encontram eco.
 
Tudo bem.
 
Em chegando domingo, voto em quem?
 
(Foto da net)

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Trabalhos pouco manuais

Não sei o que é que eu andava a fazer nas aulas de trabalhos manuais no jardim de infância e na primária... porque até hoje, para cortar, colar e até embrulhar um presente, é uma dificuldade que não vos digo nada.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Imobiliária

O melhor lugar para se morar continua a ser, sem dúvidas nenhumas, no abraço de quem queremos bem.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Agosto

 
O mês de agosto é para mim muito especial. Talvez por ser de Soncent, associo este mês às melhores atividades, às festas, festivais, praias, passeios, churrascos... Há já uns dias que a minha ilha me manda mensagens telepáticas. Estou cá na Praia, sinto-me bem na Praia mas este mês pede sempre que esteja no norte.
 
Tenho imensas saudades da Avenida Marginal, de casa, da minha mãe, da Ribeira do Julião - não sei porquê - da Tutu, da Lena, da Dominika. Sinto também saudades da minha adolescência, coisas que simplesmente já não voltam mais, como as grandes caminhadas que fazíamos para lugares mais ou menos recônditos ou apenas longe.

terça-feira, 8 de março de 2016

Pequena homenagem no Dia da Mulher

 
Neste dia da Mulher, quero fazer um reconhecimento muito especial a uma mulher também ela muito especial - a minha irmã Nádia. Embora ela tenha sido um bocadinho o terror da minha infância - porque me batia, gozava comigo e não me queria junto dos seus amigos - ao mesmo tempo preocupando-se comigo, indo à minha procura se não me encontrava em casa - desde que crescemos que ela se tornou no meu anjo da guarda.
 
É aquela pessoa que sei que está lá para mim, a quem me queixo, com quem me rio, com quem partilho o que me acontece mas também o que quero, o que me ocorre, o que li, vi, senti. A que me conhece, a que me ouve e a quem oiço. A que me dá prendas, a que me deu dois sobrinhos espertos, meigos e como se não bastasse, lindos!
 

quarta-feira, 2 de março de 2016

Do processo de criação


Comecei hoje a responder a um email da minha mãe e uma frase esquisita surgiu: "Por cá, não choveu, ventou mas pouco e as palmeiras ainda não floriram."
 
Estava completamente fora do sítio, do contexto mas lá me despedi depressa e vim rápido com um copo, um prato, uma xícara, apanhar a chuva de palavras que estava a cair, sintonizando com jeitinho o emissor que ora transmitia em português do Brasil, ora num português bem meu, porque lá onde diz "fazenda", estava "quinta" no original. Mas eu sei que "quinta" não se usa em terras de Vera Cruz.
 
E assim nos tornamos escritores: com humildade para captar as palavras mas com faca afiada para fazer as mudanças necessárias. Que não me torne no Hemingway para vir reescrever 39 vezes!

terça-feira, 1 de março de 2016

Esse gajo...


 
Ela recebe um pedido de amizade de um tipo que logo a princípio, não consegue identificar. Vai ver as fotos. De repente, sim, já sabe quem é. Um militar por quem passava sempre na porta daquele sítio. Continua a ver as fotos. Fotos de treinos, de caminhadas. Fotos numa queda de água. Fotos na praia. Ela põe uma mão frente à boca, sem se dar conta e exclama sozinha.
 
- OH NHA MÃE... Esse gajo é um transtorno!

(Foto da net porque não fica bem pôr a do gajo, embora a dele seja melhor... Enfim, encrencas da ética.)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

34 anos e alguns ganhos

 
 
 
Dei uma volta e fiz 34 anos. A década de 30 interpela-nos porque há um conjunto de vitórias, aquisições e posicionamentos que a sociedade nos diz que devemos ter alcançado por esta altura e se falharmos, sentir-nos-emos muito mal e quem sabe, até comecemos a fumar, percamos peso ou pior, muito pior que isso tudo, engordemos.

Eu simpatizo mais com idades e números ímpares em geral. Assim, do alto da cabeça, posso lembrar-me que nada se igualou ao verão de 1997, que quando fiz 23 anos, pensei que não precisava fazer mais e os meus 33  me encheram de orgulho.
 
Nessa senda, estes 34 seriam só marcação de tempo para os 35. Mas os 35 parecem ter um peso e consistência toda ela diferente, e ainda bem que temos um ano inteiro para nos prepararmos para o tranco que depois, aparentemente, só voltamos a sentir aos 40.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Em voo

 
Ia pôr esta foto a ilustrar algum post mas ela merece aparecer por si mesma, não de enfeite. Uma foto assim, cheia de movimento, tão bonita, que apanha a Nádia com uma cara de quem pregou algum partida e agora foge para não ser agarrada.
 
Uma foto em que ela flutua um bocadinho acima do chão, realizando o nosso sonho - voar, voar, nem que seja por um singelo minutinho.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Missão suicida

 
Entrou no quarto numa missão claramente suicida. Mordeu-me em ambos os braços, aproveitando-se do meu sono. Trazia zika ou não? Não perguntei, antes de o espremer e recuperar, ainda quente, o meu sangue.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O que faria se... IV



O que faria se ficasse presa num elevador com o Kevin Costner?


- Tentaria usar o telemóvel; o telefone do elevador; o botão de emergência; tentaria estimar em que andar estávamos e fazer barulho. Sentar-me-ia no chão, tentando concentrar-me em coisas agradáveis até que o tempo passasse e alguém nos viesse salvar. Censuraria o Kevin por ter um móvel sem GPS. Fingiria não olhar quando ele decidisse mijar contra as portas do elevador.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Resenha crítica de Two Fragments of Love

Um dia, casualmente navegando na net, encontrei, quase sem procurar (isto tudo já parece 1 de abril) uma resenha crítica de um trabalho meu também casualmente publicado em Africa39, que só por razões de memória coletiva (as minhas) eu publicarei cá no blog.
 
Sabem? A mim, as críticas quase nunca são vociferadas; nem mesmo ditas. Um ou outro partilhou comigo, num sábado à tarde, três, quatro linhas. Sei-os de cor (os críticos, não as linhas). (Ok, também as linhas!). A maior parte nem sussurradas mas deu.
 
Então, estas imensas considerações sobre o meu trabalho deixaram-me a modos que de boca aberta e olhos em bico e um fio de baba a escorrer-me pelo queixo (feminino, redondo, ligeiramente torto e flagelado mas amoroso) até à blusa (não de cambraia, não de seda, apenas uma imitação de bom gosto e preço acessível) até à ponta do pé (torto mas pequeno).

READING THE AFRICA39 ANTHOLOGY: “TWO FRAGMENTS OF LOVE” BY EILEEN ALMEIDA BARBOSA.