Soncent

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quarta-feira, 6 de maio de 2020

A fada do lar


A minha vida em tempos de COVID-19 tem sido exatamente aquela que sempre desprezei: a mulher que não sai de casa, que passa os dias todos iguais, a cuidar da criança, a varrer, a limpar, a dar banho e a “ver novela”: séries de água com açúcar porque desde que pari, toda a violência me choca; em contrapartida, basta que apareça um bebé na tela para que eu me derreta.

A minha bebé celebrou seis meses sob o signo do confinamento: houve um bolo comido apenas por dois; houve um vestido que apenas serviu para a foto. Mas ela riu-se toda e pousou orgulhosa. Suponho que ela nunca foi mais feliz, na sua curta vida: tem a sua mamã o tempo todo ao seu lado. E tem a novidade de ter um papá muito próximo, a brincar com ela todos os dias, a deixá-la explorar-lhe a barba farta, que ela adora! Para ela, ele é o parque das diversões. Para mim, é quem cozinha e lava a loiça. As coisas funcionam muito bem.

Tempos de confinamento

Dior Addict Eau de Parfum (2014) Christian Dior perfume - a ...



Tempos de confinamento, oitava semana. Noto que passei praticamente todos os dias vestida da mesma forma – calções e t-shirt, tudo amachucado, claro, quem é que anda a passar a ferro? O meu cabelo também é uma sombra do que foi: invariavelmente, está preso num rabo de cavalo feito à pressa, porque há-que limpar e varrer e lavar o chão e a bebé fica sempre a interromper.

Não sei quando foi que pus batom pela última vez, quanto mais outras coisas. Nas duas primeiras semanas pintei as unhas dos pés, depois achei que o importante era estarem limpas e pus apenas um verniz transparente. Nas mãos, mantenho as unhas curtas para não magoar a criança. Refletindo nisso tudo, resolvo, ontem, tomar um banho antes do almoço, pentear-me e escolho o meu perfume mais caro: Addict, de Christian Dior. Como sei que é forte, esguichei apenas atrás do pescoço e depois, com os dedos, toquei aí e pus atrás das orelhas e nos pulsos. Estamos ainda no início do almoço quando ele me diz, uma expressão de incómodo no rosto:

- Estás a usar um desodorizante diferente?
- É perfume! Não gostas?
E ele, responde logo:
- Não, não é isso. É bom. – A seguir levanta-se da mesa e oiço-o dizer, a voz de quem está a pensar alto:
- Ainda bem que não perguntei se era flit.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Eu e o Arnod Schwarzenegger

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Fui criança na década de oitenta. Aos fins de semana ia ao cinema e saía sempre entusiasmada. Se fosse um filme de karaté, eu vinha pelo caminho a imaginar-me karateca. Já tinha estado numa escola de artes marciais, mas tinha considerado o ensino muito lento para quem queria, como eu, ser ninja. Igualmente, se via um filme de dança, não conseguia evitar ir para casa dançando pelas ruas. O mal é que na manhã seguinte, misteriosamente, já estes entusiasmos tinham desaparecido.

Andei no Liceu na década de noventa. Era o tempo dos empréstimos. Lia livros emprestados, via filmes emprestados. Lá em casa, tínhamos apenas três filmes nossos: Carmen, um musical operático que nunca consegui ver até ao fim, de tão aborrecido que era; A Missão, que sempre me fazia chorar no final, e África Minha, um filme muito bonito, mas sem legendas. À falta de mais para fazer, via e revia estes últimos dois.

domingo, 2 de junho de 2019

Escrevo para adiar o importante

Não tivesse perdido o hábito de escrever sempre no blog - descobri que havia três grandes motivações: saber que havia gente a ler; estar sentada várias horas frente ao computador - agora o meu trabalho é fazer interpretações simultâneas, não dá tempo; ou se estiver a traduzir, pior um pouco: não dá tempo!; e ter coisas importantes para fazer. 

É mesmo isso: saber que tenho coisas importantes a fazer dá-me para procrastinar e uma maneira de procrastinar é escrever. Não é romântico? 

Se alguma vez algum jornalista se lembrasse de me perguntar qual é a minha motivação para escrever, eu podia responder com os clichês habituais de ter nascido com o dom, de ser irremediavelmente seduzida por folhas de papel em branco, por canetas novas ou canetas de terceiros ou ainda por frases que me surgem do nada, como que sussurradas por espíritos como a minha mãe gosta de crer, ao que lhe respondo sempre - porque é que os espíritos conseguem inventar uma história e eu não? 

Vou ter uma bebé

Fiz hoje 20 semanas e até esta, tudo corre lindamente: afora algumas ânsias de enjoo, sinto-me bem, com energia (sempre que durmo à tarde) e se no início ganhei logo uns quantos quilos, agora pareço ter estabilizado. Continuo a ir ao ginásio, à praia de vez em quando e ontem até fui a uma festa, onde ainda dancei um bocado. 

No início diziam-me que tinha a barriga bastante grande, agora dizem-me que a tenho pequena, ainda não sei se sinto a bebé a mexer-se ou se são gases e outras pequenas cólicas, mas no geral creio que tudo corre bem e cada vez mais vou-me convencendo que realmente isto está a acontecer: vou ter uma bebé! 👶


domingo, 21 de abril de 2019

Devia ter-te tirado uma foto

Devia ter-te tirado uma foto, sobre a qual eu estaria agora a babar. Dado que não o fiz, recorro às minhas memórias, onde os teus olhos são maiores que o mundo e os teus lábios, os mais rosados de sempre.

O domingo de Páscoa de uma ateísta

Ninguém se interessa por saber como é o domingo de Páscoa de uma ateísta? Isto é tudo muito ingrato. Toda a gente tem todo o prazer em andar a encaminhar postais de Feliz Páscoa, Paz e Chocolates e Ovos, mas o que aconteceria se me desse um ataque súbito de rebeldia por viver numa sociedade tão rendida aos valores cristãos e gritasse do alto do meu perfil, deixem-me me paz, desejem-me essas coisas sem ser com data marcada no calendário?! Não dá? 


quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Irmãs





A minha irmã Nádia, dois anos mais velha, foi unanimemente considerada mais bonita que eu durante toda a minha infância e adolescência, o que fez com que eu desenvolvesse, além de um sério complexo, um sentido de humor refinado, muita lábia e um aparente desinteresse por coisas femininas e coisas comuns. Ela, para além de muito bonita, estava sempre bem vestida, com as roupas engomadas e ai de quem lhe pusesse um braço no ombro, não lhe fosse amachucar a blusa. 

Sabendo que não estaria nunca mais bonita ou mais arranjada do que ela, eu vestia-me para ser diferente e não raras vezes, ela me chamou horrorosa e me disse que se insistisse em ir a algum sítio vestida dessa forma – lenços amarrados à cabeça que nem Rambo, dois pares de meias de cores diferentes em cada pé – eu teria que ir do outro lado do passeio para que ninguém soubesse que éramos irmãs. Ora, eu tinha pelo menos uma personalidade firme porque não me lembro nunca de ter ido trocar de roupa. 

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

O que andas a ouvir?


Se alguém me perguntasse, a meio de uma conversa sobre gansos pardos,
- O que andas a ouvir?, como se ouvir fosse um livro que andamos a ler, eu diria, em voz baixinha, Todo o Homem. Ando a ouvi-la, à canção, como quem lê um livro, sim. E ando a ouvi-lo, ao filho do Caetano Veloso, ainda não sei qual deles, que consegue fazer essa voz de anjo para nos tocar cá dentro.

"Todo o homem precisa de uma mãe."

Imediatamente a seguir, como num compasso, oiço Quando Bate Aquela Saudade, de Rubel. Estou amarrada a uma cadeira de rodas (de escritório) porque tenho um trabalho de tradução para fazer e são estas músicas que me vão empurrando gravidade abaixo.

(Foto por FW)

quinta-feira, 21 de junho de 2018

O aparelho - Desatualizado, que já tirei o bicho









Desde que pus o aparelho passei a gerir mal minha saliva. Meus dentes, minha língua, minhas bochechas e lábios estranham o ser estrangeiro que se entranha neles e contestam-no. Minha saliva se rebelou de tal forma que sai sempre que pode, foge de minhas cavidades, aterra em outras caves, às vezes nas mesas, nos pulsos de terceiros e em vácuos amargos. Minha saliva, que eu saiba, deu de fugir chovendo por aí.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Auto-chuviscação ou como a chuva está no nosso ADN

Se agora não me levantar de onde estou e confiar apenas no barulho que vem da rua, está a chover. Não é de esperar que chova em maio, não é hábito, nem vi nuvens pairando no céu. E no entanto, parece que chove. Ouço o ruído suave de gotas caindo no asfalto, ouço o som de pingos na calçada. Ouço ainda a música da água nos mosaicos da varanda. Ouço isso tudo. E por nada me levantarei para ir confirmar se chove ou não. Desligo a luz, recosto-me na cadeira, fecho os olhos e durante instantes de longa meditação, sou uma cabo-verdiana abençoada pela chuva. 

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Vestimenta liberal

Muita mulher cabo-verdiana veste-se de forma liberal - roupa curta e apertada, independentemente de ter algum traço ou curva bonita para mostrar. Acho bem - ainda que o meu sentido estético deteste.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Afinal sou boa pessoa

 
Nunca me preocupei muito em ser boa pessoa. Andei na escola preocupada em ser a mais alta, a melhor aluna; nunca me ocorreu ser a melhor nalgum desporto nem em ser a que se vestia melhor, não sentia vergonha dos meus garatujos mas tinha orgulho do meu português.
 
É claro que nunca fiz maldades a não ser expulsar um gato do prédio, até a minha irmã me chamar a atenção. Não me aproveitei da minha altura para bater em ninguém, não "busquei insulta" a ninguém, que me lembre. Era extrovertida mas não me metia a gozar com os colegas. E em casa, ainda apanhava da minha mãe, da minha irmã e da minha vizinha. Sem ter em quem me vingar.
 
Foi só em Portugal, quando estava na universidade que, estando afónica, descobri que era boa pessoa sim, senhora. Porque sou mandadora de bocas, isso sou sim, tenho uma boca lesta em fazer comentários sobre a forma de falar, a roupa ou a postura de alguém, bocas que partilho apenas com gente de confiança, que não servem para mais nada a não ser para aquele entretenimento passageiro e inconsequente que também nos dá a leitura de revistas cor de rosa.
 
 Mas se me dói falar, se só consigo sussurrar o básico, então calo-me e penso para comigo mesmo que a minha maldade é um fogo de palha que não justifica o esforço. E, calada, descubro-me um amor de pessoa.
Onde é que vou buscar a minha medalhinha de santa para usar junto ao peito?

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Férias

A sensação inebriante de vir da escola com a bata ou a farda aberta, um ar descabelado porque foi o último dia de aulas antes das férias... quando é que a volto a sentir? Aquela noção clara de que durante mais de três meses, não haveria obrigação maior do que escovar os dentes à noite.. que de resto, era ir à praia quando quisesse, dormir quando desse, brincar por toda a zona, andar de bicicleta por todo o sítio... ir à Praça todos os dias!
 
Agora, sorrio um sorriso interno de excitação contida porque tenho uns diazitos de férias, não é nada que dê para gargalhadas histéricas. Mas vá lá, sempre é sorriso de antecipação.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Telepatia



 
Todas as empresas de internet, de telemóveis, de portáteis etc., estão num complot contra a telepatia, que era uma forma bastante mais barata de nos comunicarmos uns com os outros, pá!

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Setembro

Setembro... Parece um recomeçar, este mês, que supostamente vem depois do verão mas é muitas vezes ainda mais quente. É o mês do regresso às aulas, do regresso ao trabalho e às coisas sérias. Para quem fez promessas de ano novo, é, se calhar, mais uma oportunidade de as retomar, seja retomar as caminhadas, as idas ao ginásio ou passar a beber menos e deixar de comer isto ou aquilo.
 
Para outros, mais jovens, é tempo de se inscreverem em atividades de grupos, seja equipas, seja aulas de música ou sei lá o quê. Eu gostava de me inscrever num as aulas de canto e noutras de piano, numas aulas de condução de mota e noutras de pesados, numas aulas de pastelaria e outras de sushi, numas aulas de eletricidade e noutras de golfe. Tem tudo a ver, não é?

terça-feira, 30 de agosto de 2016

O beijo dele

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Queria falar-te do beijo dele, à porta de casa, o melhor sítio do mundo para se beijar.
 
Queria contar-te do beijo que demos, à porta de casa, sem nem nos tocarmos mais, só as nossas bocas encostadas uma à outra, primeiro muito tímidas e carnudas, a dele bem mais que a minha, a dele cobrindo a minha, sobrando pelos lados, a dele, mais rija que a minha, a dele, tão sôfrega quanto a minha, e o nosso pouco à vontade misturado com a vontade fazia-nos quietos, apenas as bocas uma na outra, às tantas até secas, e por isso, grudadas, e nós, respirando o ar que saía do nariz do outro, e vou-te dizer - se isso não é felicidade, então não sei!
 
E depois dos milhões de anos que passámos de bocas grudadas, ele afastou-se um bocadinho mas foi para se reaproximar, foi para me beijar de novo, foi para vir de lábios entreabertos, foi para me oferecer o inferior, aquele milagre de carne tenra e rija ao mesmo tempo, palpitante e quente, doce como nada mais na terra. E a ponta da língua dele veio atrás, arranjando espaço e tempo em mim, explorando-me, oferecendo-se e clamando ao mesmo tempo, roçando-se como quem se esfrega, afogando-me como quem navega.
 
E os minutos devem ter ido passando e a angústia chegando porque mais cedo ou mais tarde - oh mundo cruel - o beijo teria que acabar. Até lá, já não tínhamos forças nas pernas mas apenas nos braços com que nos agarrámos, e o peito dele enorme onde me encostei e de onde não saí de ânimo leve, por força própria.
 
E da porta de casa, ele foi-se embora.
 
(Imagem, obviamente, da net, do Klimt)

Voto em quem?

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Oiço, pela rádio que estamos em campanha. A mim, ninguém nunca chegou.
 
 Nem para pedir o meu voto, nem para me fazer sujeito - ou objeto - de um censo, um inquérito, uma leve sondagem de opinião.
 
 Deve ser, moro numa zona demasiado privilegiada...? Mesmo que aí me chegue o cheiro da ETAR que não filtra? Mesmo que me digam que não ande a pé não vá ser assaltada à porta de casa, onde, sim, roubaram-me um par de baterias do carro num só mês?
 
Deve ser, o meu piso demasiado alto, a entrada fora de mão? Deve ser, nessas zonas, não se faz porta a porta porque somos demasiado informados para querermos o calor do abraço da campanha, o olhar sério que nos pede o voto?
 
Deve ser, chegar aos milhares e milhares de eleitores não é fácil então vamos à zonas mais necessitadas, onde mais facilmente as nossas promessas encontram eco.
 
Tudo bem.
 
Em chegando domingo, voto em quem?
 
(Foto da net)

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Trabalhos pouco manuais

Não sei o que é que eu andava a fazer nas aulas de trabalhos manuais no jardim de infância e na primária... porque até hoje, para cortar, colar e até embrulhar um presente, é uma dificuldade que não vos digo nada.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Imobiliária

O melhor lugar para se morar continua a ser, sem dúvidas nenhumas, no abraço de quem queremos bem.