Soncent

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sexta-feira, 11 de maio de 2018

Menino dado

Nos anos em que me deixei ficar para trás, bolinando de avesso no transverso do perverso do Severo, percebi que dos amplexos só nos restará o convexo: nada mais que algum sexo, nada menos que nenhum nexo. 

Pior ainda: do sexo transviado cresceu-me um quiabo, nasceu-me um nado, dormiu sem nunca haver chorado. Nem sei se houvesse respirado, nem sei se o tivera amado. À terra foi dado, e espero que não lhe tivesse pesado, a esse menino dado. 

Tinha pensado gritar por ti

Eu tinha pensado gritar por ti da minha janela, acender uma fogueira no meu terraço e fazer-te sinais de fumo - os que nunca aprendi a fazer. Eu tinha pensado em estudar as marés para te enviar mensagens numa garrafa de vidro fosco e para tal bebi o vinho que ela trazia dentro e não consegui escrever a carta, deu-me foi para te ir bater à porta, cantando, desgrenhada, chorando, babada, te amando, desesperada. 


sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Achismo

A senhora parece que acha que a minha vida é estar deitada em lençóis de cetim, comendo uvas brancas e acariciando um gato persa! Saiba que devido a esta ciática, eu tenho que me levantar praticamente de hora a hora, para trocar o disco e deitar fora as grainhas!

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Atropelei-me

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Há duas noites atropelei-me no caminho do porto. Era noite e eu ia animada, as galochas levantando pequenas tempestades de água. Havia chovido horas antes e ainda pingavam das árvores, gotas de cultura.
Caí e rolei na calçada, magoei-me feio no coração. Posso ter apanhado pancada também no cotovelo, mas não dói. Foi quando desbloqueei o telemóvel ao som do viber e vi a tua mensagem, no fundo, tão singela, uma simplicidade tosca, que me dizia em poucas palavras o que custou tantos meses de amor: que já não me querias. As gotas da chuva e as minhas lágrimas misturam-se no ecrã, umas doces, outras muito salgadas, umas frias, as outras bastante quentes.
Muni-me depois de tintura, vou beber o frasco todo, a ver se me cura. O que não nos mata torna-nos mais tristes.  
 
(Foto da net.)

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Casamento expontâneo


E foram lá e casaram-se, sem nem planear, sem padre nem testemunhas, sem nem entrar na igreja – foi antes atrás dela, na rocha, ao ar livre, entre arvoredos e pássaros, com um único anel que ambos partilharam, com o sorriso que aflorou no rosto dela e as lágrimas que brilharam nos olhos dele por manifestações de celebrações. E de mãos dadas, voltaram a descer a colina, os degraus, encantados com a vida e o amor.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Espaçosa

Ela era como um porta-bagagens de uma mercedes - espaçosa. Muito pouco tempo depois de a conhecer, já ela queria aparecer na minha casa, ser convidada para entrar. O pior é que eu não resistia ao atrevimento dela, que nunca via nada de mal nas suas maneiras pouco contidas. Não lhe custava nada pedir boleia na rua ou meter conversa com quem estivesse ao seu lado no café. Dava opiniões não solicitadas onde quer que estivesse, nunca se dando conta das caras de pouca amizade que lhe faziam as pessoas.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Ato de rebeldia

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Num ato de pura rebeldia, deixei o casaco em casa. E para piorar as coisas, parco o carro na primeira vaga, ficando bastante longe da porta. Quando lá chego, estou transida de frio e caí duas vezes dos meus saltos agulha. Da primeira vez para a direita, da segunda vez, para a direita de novo, que posso ser rebelde mas sou coerente.

Joelhos esfolados, um fio de sangue canela abaixo, entro majestosa no pub/lounge/restaurante/escritório do Antunes, que parecia nunca tomar banho mas as camisas iam-se alternando entre vermelhas e pretas, certamente cores fortes para disfarçar as manchas. Mas o cheiro?

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Cobro, de graça

Faz-lhes saber que sim, posso ir ouvir as ideias e dar a minha opinião mas há um porém.
Não cobro para opinar, nunca cobrei, opinar é uma coisa que vem da família, nós sentamo-nos na mesa é para opinar uns sobre os outros e não para comer e quando estamos ao ponto de nos matarmos uns aos outros, vamos para a varanda mandar bocas sobre os vizinhas. Gostamos não só de expressar as nossas ideias mas sobretudo de criticar, de apontar as falhas. Hás-de convir que é divertido.
 
Então, sim, darei a minha opinião de graça.
Mas diz-lhes que para ir, eu cobro, e para sorrir, eu cobro, e para apertar a mão, também cobro.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Dois copos de água

Encho o meu copo de água duas vezes por dia, bebo devagar para que me renda. A água amansa a garganta seca mas não a sede. Às vezes estou mais desesperada, bebo o copo de uma vez e depois as horas maltratam-me até que chegue a hora de me ir embora, e de cada vez, paro a uma casa diferente, bato à campainha de uma forma mais venerada, mais pedinte, e o que faço quando eventualmente me abrem a porta é pedir, pedir que me deixem merecer um copo de água por algum trabalho.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Sapatos Agá

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O critério de qualificação dos sapatos da nossa marca é o H seguido de um número. O H10, por exemplo, aplica-se aos nossos melhores sapatos, aqueles que permitem ser usados durante 10 horas seguidas. Os modelos H4 permitem ir a eventos, jantares e cocktails.
 
Atenção aos modelos H1. Apesar de lindos e maravilhosos, permitirão apenas vislumbres fugazes, como poses no tapete vermelho ou receções de amantes à porta dos quartos de hotéis, servindo lindamente, depois, para serem teatralmente atirados para o alto.
 
(Foto da net)

terça-feira, 30 de agosto de 2016

O morto não enterrado

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Quando a gente não enterra o morto, a gente fica cutucando-o de vez em quando, para ver se ainda vive. E de cada vez, o morto reage, parece vivo mesmo e a gente sorri. Mas depois vem aquele fedor todo de morto e a gente descobre, de novo, que o morto morreu e vem de novo toda aquela dor de perder o vivente.
 
(Foto da net)

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Não valia à pena

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Eras o meu macho, sussurrou ela enquanto encostava a porta, lentamente, levantando-a ligeiramente lá onde costumava ranger. Ele ficou deitado na cama desfeita, os lençóis molhados do suor de ambos, os olhos ora no teto, ora na porta encostada. Depois, mecanicamente, agarrou no telemóvel, viu as mensagens sem importância que o esperavam.
 
Não valia à pena tentar dormir suado como estava. Não valia à pena tomar banho agora, porque em alguns momentos, tinha que ir treinar. Não valia à pena ir atrás dela - sabia que acabaria por regressar, como de todas as vezes antes. Foi, toalha à cintura, até à varandinha traseira, onde dois potes com flores murchavam à chuva.


(Foto da net)

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Cocktail molotov - ou o nonsense que se me desceu de algures


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Serviram-me um cocktail molotov on the rocks, never shaken, always stirred, as minhas barbas arrepiaram-se, as minhas influências confluíram para uma única série - confesso que as vejo, deitada, enrugando o espaço entre as mamas - seios para vós que não me conhecem bem - e entre o cocktail e a cicuta, só sei que nada saberei.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Teatro I

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É a inauguração da sala de espetáculos do Éden Park. Isso mesmo, o Éden Park da ilha de São Vicente, esse que foi cinema histórico na cidade, senhor de todas as estreias, dos maiores sucessos de plateias. E que depois, um bocado por causa das casas de vídeos e pirataria, foi soçobrando, decaindo, empobrecendo, apodrecendo e depois foi encerrado para ser demolido e passou anos simplesmente a cair aos pedaços.
Até que os ventos mudaram (surpreendentemente), choveu dinheiro em cima dele (a chuva de dinheiro é um fenómeno raro, mas acontece) e foi reconvertido num magnífico centro de conferências, com duas salas de cinema – ainda que pequenas – restaurantes, bares, um hotel e uma sala de teatro de época. A sala é que é de época. O teatro, tanto pode ser como não, como se diz em bom crioulo, é conforme, o que não significa semelhante ou análogo mas sim, depende.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Tombou?



Meu mundo, falaram, deu um tombo.
E eu, olhando, deixei meus lábios se afastarem suavemente de meu aparelho.
Mundo que dá tombos? Está tombado, então?

Tombou, sim. Ficou tombado.

Tinha uns arames, uns cabos que o seguravam no meio do éter, meu mundo que era rosa se desprendeu de um desses cabos, tombou, ficou de cabeça para baixo, daqui, parece tudo cinzento.

Meu medo é que os outros cabos se soltem, e meu mundo, feito bola de basquete, bata com força num chão que deve existir algures, abaixo ou acima.

Tenho medo porque eu enjoo.
 
(Imagem da net)

quarta-feira, 20 de julho de 2016

A gente da Praia - extrato de A Artista

 
A gente que a recebeu a Artista era boa – o Anacleto era sobrinho do Honório e vivera uns tempos em casa dele, daí sentir que tinha a obrigação de velar pela Imelda. Era um homem sóbrio, careca e bastante queimado pelo sol, com uma perna ligeiramente mais curta que a outra. A Santinha, a mulher dele, era uma santa. Muito protetora, muito decidida a pôr alguma carne nos ossos da priminha, coitadinha, que viera da Boa Vista carregada de queijos, mas estava tão magrinha. A Santinha era muito parecida com o marido, alta, escura, de ombros um pouco largos de mais e umas mãos enormes.

Eles tinham três filhos em casa e a Artista tinha que partilhar o quarto com as duas meninas da casa. Que  eram excelentes miúdas. Simpáticas e carinhosas. A Artista é que, até à data, não partilhara nada. Nem quarto, nem sono – acordava por qualquer motivo, muito assustada – não estava acostumada ao barulho todo em casa, não estava acostumada sequer ao suave ressonar da prima Babinha, que sofria de alergias. O susto maior vinha da Roselma, a prima mais velha, que rangia os dentes nos dias das vésperas dos testes na escola. Também estranhava ter que esperar para poder ir à casa de banho, a mesa numerosa, ter que comer o que estivesse na mesa ou ficava com fome. 

quarta-feira, 22 de junho de 2016

De ouro

O copo cheirava a chá de hortelã, sem pimenta. Um copo tosco, vidro encardido. Uma garrafa ao lado, essa aparentemente de cristal, transparente e brilhante como se lavada para aparecer na TV. Mas chá, depois de três meses de a casa estar fechada? Não fazia sentido.
 
Rebolei no chão para escapar a uma bala perdida. Mas não houve estampido nem furo na parede. Em contrapartida, o meu macacão de bombeira ficou imundo de pó e cimento. Encontrei, enquanto me levantava de novo, o atacador de ouro de um brinco. Só o atacador. De ouro.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

O Casa-café-museu-poético

 
Não digam a ninguém: estou a escrever um romance. Chama-se A Artista. Ninguém irá acreditar, mas não tem rigorosamente nada de auto-biográfico. Tanto mais não seja porque ela, a Artista, poderia ser minha avó.
 
Eis um extracto:
 
"(...) A Artista mungira várias vacas, tinha uns dinheiros que de vez em quando ainda entravam, exatamente quando mais necessitada.
Tinha um amigo que às vezes lhe pagava umas contas da casa. Era o Euclides de Pina. As coisas começaram quando ela foi ter ao escritório dele com um pedido de financiamento para uma casa-museu. Os seus argumentos eram fortes: pintava, possuía uma coleção de objetos absolutamente divinos. Desde que se tornara Artista que amava o fútil, o pueril, e fazia-o de uma forma anárquica, eclética e extravagante.

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Tudo por ela - Rated R


- Cobres-me de elogios todos os dias, acaricias com penas imaginárias a minha face, lanças pequenos beijos em direção aos meus olhos. Imagino que se me encontrasses deitada numa maca, cravejada de pregos e pioneses, me fosses  besuntar o corpo com cremes parafinados perfumados, enquanto, com um paninho de turco egípcio, colherias as gotas de sangue do meu martírio.
- Tudo pela tua vagina, querida. Tudo pela tua vagina.
 

O inquilino da Madalena


 
 
Negesse Pina era o nome do inquilino da Madalena, um mulato escuro, largo em tudo. Nos ombros, no queixo, no rabo e na cintura. Tinha saídas giras. Disse à Madalena que não queria que ela lhe abrisse a porta. Queria era trepar até chegar às janelas dela e deitar-lhe a cabeça no colo. Mandava-lhe mensagens todos os dias e poemas e elogios e  enchia-a de promessas e de garantias; queria dormir com ela de conchinha, queria fazê-la sua mulher, dar-lhe todo o carinho e atenção.
 
Atenção limitada, ela haveria de descobrir, porque ele ainda estava casado com uma senhora em São Tomé, com quem tinha quatro filhos e um Fiat Uno.