Soncent

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sexta-feira, 11 de maio de 2018

Menino dado

Nos anos em que me deixei ficar para trás, bolinando de avesso no transverso do perverso do Severo, percebi que dos amplexos só nos restará o convexo: nada mais que algum sexo, nada menos que nenhum nexo. 

Pior ainda: do sexo transviado cresceu-me um quiabo, nasceu-me um nado, dormiu sem nunca haver chorado. Nem sei se houvesse respirado, nem sei se o tivera amado. À terra foi dado, e espero que não lhe tivesse pesado, a esse menino dado. 

Tinha pensado gritar por ti

Eu tinha pensado gritar por ti da minha janela, acender uma fogueira no meu terraço e fazer-te sinais de fumo - os que nunca aprendi a fazer. Eu tinha pensado em estudar as marés para te enviar mensagens numa garrafa de vidro fosco e para tal bebi o vinho que ela trazia dentro e não consegui escrever a carta, deu-me foi para te ir bater à porta, cantando, desgrenhada, chorando, babada, te amando, desesperada. 


quinta-feira, 3 de maio de 2018

O poema

Que o poema surgisse nu e coberto de tinta, parido num instante de pura rotina, carregado do velho que era mais um dia, desvirtuado por olhares cansados de sempre, enlameado de tristezas quotidianas, que o poema surgisse no meio à imundice da mesmice do pó que paira sobre o sol que se põe além, sem ninguém notar ou apreciar. 

Que o poema viesse pronto e nem rimasse, que fosse tonto e nem esboçasse rires e choros de nula espécie. Que viesse o poema como se chega a dor, que se desse o poema como se dá o amor, que ele chovesse como cai a névoa, que nos cobrisse como nos mancha a fé, que nos fodesse como nos suga o IVA, que nos quisesse como se pede a deus, que nos amolgasse como nos odeia a besta. 

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

A minha gente


Vai parecer anedota mas quando me ligaram a dizer que o meu poema "A minha gente" tinha sido escolhido para um livro que se chamaria "Os 100 melhores poemas de Cabo Verde", o que eu pensei foi:
Mas esse sequer é o melhor poema de Eileen Barbosa...

Mas quem escolhe assume todas as responsabilidades e na apresentação deste livro, que entretanto mudou de nome,  quando este poema foi lido e depois comentado, percebei porque é que tinha sido esse e não outro. É algo relacionado com o ser-se cabo-verdiano. Costumava crer que nunca refleti muito sobre o ser-se cabo-verdiano na minha escrita porque estava tão intrínseco em mim e porque sou geralmente escritora de ficção. Mas não é bem isso: penso agora que nos primeiros anos de escrita, a maior parte dos escribas escreve muito por influência de quem leu. E eu li muito mais escritores "ocidentais" que nacionais. 

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Atropelei-me

Resultado de imagem para mulher à chuva
 
Há duas noites atropelei-me no caminho do porto. Era noite e eu ia animada, as galochas levantando pequenas tempestades de água. Havia chovido horas antes e ainda pingavam das árvores, gotas de cultura.
Caí e rolei na calçada, magoei-me feio no coração. Posso ter apanhado pancada também no cotovelo, mas não dói. Foi quando desbloqueei o telemóvel ao som do viber e vi a tua mensagem, no fundo, tão singela, uma simplicidade tosca, que me dizia em poucas palavras o que custou tantos meses de amor: que já não me querias. As gotas da chuva e as minhas lágrimas misturam-se no ecrã, umas doces, outras muito salgadas, umas frias, as outras bastante quentes.
Muni-me depois de tintura, vou beber o frasco todo, a ver se me cura. O que não nos mata torna-nos mais tristes.  
 
(Foto da net.)

terça-feira, 30 de agosto de 2016

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Sonhos e histórias


Hoje é dia de escrever poemas tristes e sem glória.
Hoje é dia de choros, hoje levam-se a enterrar sonhos e histórias.  

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Minha campa

Minha campa,
um túmulo sem asa,
vagando sem flor
num mar de jasmins
e outros querubins
caídos
e vaiados por mim. 
 
Minha campa,
má memória de capim,
meu céu fortuito e carmim. 

terça-feira, 24 de maio de 2016

Versos perdidos



Perdi hoje uns versos que escrevi nuns ares,
Enquanto olhava para os teus lábios
Que me confessavam docemente
Que embora te tenhas apaixonado por mim,
Não ficarás comigo.

 

terça-feira, 1 de março de 2016

Sou desses lugares



 
Sou desses lugares
Assim, altos
 Onde as vistas se perdem
Nos baixios, vastos

Sou dessa natureza morta
Sou feita desses tons marrons
Dessas folhas e dons

 Por isso…

 Não têm rimas, as minhas linhas
 Não são versos, mas sim inversos.
Adversos
Diversos estados de alma.

 

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Adoro-te

Adoro-te a cada madrugada
Acordo-te a cada alvorada
Para te ver esse sorriso
Para ouvir esse teu riso

Sabes que também me emociono
Quando me olhas com essa cara de sono
Pois tenho pena de te levantar
Quando dormes assim

Mas tens que ir trabalhar
Para me sustentares, a mim.



2 de setembro de 2015,
num desafio com José Luís Rocha

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Resurmir-me-ia

Resumir-me-ia aos meus silêncios,
Ecos oriundos de profundos compêndios
De baixa sabedoria triste.

Resumir-me vem assim,
De me diminuir de mim.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Mil declarações


 
Mil declarações
De amor
De mim para ti

 Mil declarações
Num sorriso
Numa só forma
De riso
Nervoso
De um coração
Amoroso

 Dói
Saber que gosto de ti
Tanto assim
E que tu gostas igual
De outra
E não de mim

 Mil declarações
Tão sofridamente vãs

 E tu sorris
Porque notas
O meu devaneio
O meu desvario
E com um sapateio
Me acordas
E dou por mim

 Declarando-me
Sem querer
Sem pudor
Sem te poder ter
Mas com toda a dor


E teus olhos brilham
E parece que gozas
Penso
Mas sonho, só
Pois não poderias
Ter pensado
Beijar-me

 Mil declarações
Sem ouvidos
Mil sorrisos
Que se fizeram beicinhos
Alguns piscares
Que agora disfarçam
Outros esgares

 
Tentas ser
Alguém “fixe”
Mas será que aguentas
Gerir esse mix?

E enquanto tentas
Engano-me
Maço-te
Abraço-te
Abato-me
E declaro-me

 
Ciente
De tudo
(o que compreende)
Não corresponderes
Às minhas
Alegadas
Esfusiantes
Pouco pacientes
Declarações.

Será que aguentas?
E se tentas
Afastar-me
Empurrar-me

 E eu,
Num lento
Sorriso triste
Tento

 
Afastar-me
Empurrar-me
Fingir que afinal
Não existe

Esse sentimento
Fatal
Que me atrai
Será que aguento?

Ter de dizer adeus
Quando quero
Fazer só meus
Com esmero
E mérito
Os teus olhos
De Orfeu

 

(Abril 2005)

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Queria



Queria ter roubado a chave algures e me esgueirado quando ninguém estivesse a ver, porta dentro, pela tua cova alcova cabana terra santa, nua.


Queria ter-te visitado na tua sala vazia. Queria ter-me sentado na tua cadeira esguia e sentido o peso de cada pisa-papel e de cada caneta tua. Queria ter aspirado o teu cheiro nas teclas e lido as tuas letras bonitas nas folhas bem alinhadas em cima da escrivaninha. Queria ter percorrido com o dedo, o tampo brilhante e limpo, apesar da tua ausência. Pensado na tua pele leitosa nele roçando e comungando.


Queria ter pasmado sem sentir escorrer os minutos, no quadro na parede, pensado na vida daquele senhor tal como pensas quando estás apoquentado.

Queria ter violado, sem violência, penetrado sem maleficência, no canto da tua intimidade e sentido assim, a tua presença.


segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O Choro da Tua Natureza



Saborear o vago,

Acomodar o etéreo, 

Subir nas nuvens dos teus lábios… 

 Colar a saliva no céu da tua boca.



Mentir nas tuas nádegas.

Navegar nos teus gemidos.

Sentir o teu cheiro no meu cheiro,

Os restos de ti por mim, tirar o véu 



Saltar a vida,

Andar por um rodízio de amores.

 Saber, assim,

Com que gritos festejas o prazer.



E receber, sedenta, 

O choro da tua natureza.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Beijos em sacos de papel

Vão, que te mando, beijos em sacos de papel
Pois os meus abraços fugiram em tropel.

Sobraste

 
Sobraste.
Pela vinda de outro, sobraste
Pela presença de outro, não ousaste
Permanecer-me na retina
 
Foi com giz e não tinta
Que lograste escrever
Nas minhas muitas linhas
 
Foi com tanta ignomínia
Que te passei para trás
Apaguei-te da minha sina
E tu, já longe vais.
 
Agora, de consolo,
Quero dar-te uma prenda,
Uma flor,
Quero de oferta,
Tirar-te esta dor.

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Sobrou


Sobrou o teu cheiro pelas ruelas, pelos parques sardentos e poças de lama.

Sobrou de ti, umas saudades de louca varrida.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O meu sentido adeus

 
Quero reunir as tropas à minha volta, gizá-las de vermelho, cantar-lhes o meu hino e dizer-lhes o meu sentido adeus, pois parto nesta hora. Não mais ditaduras, não mais oficinas de crianças.

(Foto de Catalina Solares)