
Ontem tive a agradável surpresa de ouvir a nossa peça Upgrade bo Democracia na rádio nacional, a propósito da comemoração do dia da democracia. Foi com um grande sorriso que fui ouvindo as vozes dos meus colegas, os sons tão característicos, as músicas, o público entusiástico e participador.
Foi uma peça com um texto muito bom, da autoria do Alexandre Fonseca Soares, vulgo Tey, que ele escreveu em cima dos joelhos, nós íamos para o ensaio e ele ainda não tinha o texto para o dia seguinte, escrevia-o durante a noite.
Eram ensaios muito divertidos. (Até eu me aborrecer de morte, começar a reclamar sono, a dizer para nos irmos embora, e o Tey a dizer "Vamos começar outra vez!", como se não houvesse vida fora do teatro.)
Eu não queria assumir nenhum papel, porque sentia não ter tempo nem pachorra para as horas intermináveis de ensaios, mas quando surgiu um papel de um discurso em que não era preciso fixar o texto, eles disseram-me que tinha a minha cara e não precisava ensaiar todos os dias, então... já de uma outra vez, a actriz Taís Lucksis não podia actuar e o papel de minoria na assembleia caiu-me em cima, tive que falar brasileiro e dançar em palco. Foi óptimo!!
Gostávamos de espreitar pelas cortinas enquanto a sala se ia enchendo, do silêncio de antecipação, das gargalhadas nos momentos que nenhum de nós previra, e das gargalhadas que calhavam nos momentos em que nós também nos ríamos nos ensaios.
Antes das pessoas entrarem, havia uma "boca de urna", outros actores amigos iam ter com as pessoas do público e tentavam convencê-las a votar neste ou naquele partido e eles já entravam a sorrir para dentro da sala.
A meio da peça, eu e o Doca tínhamos de mudar de roupa, o Doca então tinha que se pintar todo de vermelho, cara, cabelo, lábios, e no escuro dos bastidores ajudavamo-nos, cada um tinha o seu ritual de concentração, o Bic (o anjo Jeremias) usava aparelhos electrónicos sofisticados - luzinhas que se acendiam e microfones) então ele e o Doca tinha que checar as pilhas, lembrar-se de ligar e desligar o micro quando entrava ou saía de cena.
Também a meio da peça, tínhamos uma mudança de cenário, com as cortinas sempre abertas, o que queria dizer que a fazíamos no escuro enquanto tentávamos não esbarrar e, principalmente, não nos rirmos.
Quando terminava, o público aplaudia de pé - é um hábito cá - e nunca acertávamos na forma de fazermos o agradecimento.
Levamos a peça para o Sal e foi um pesadelo, a entrada era livre, havia mil crianças a brincar ao pé do palco e faziam um barulho enorme, nós praticamente não nos ouvíamos e o público também não. Mas para quem nunca foi boa em desportos, foi uma maneira de descobrir como são as viagens em caravana... e voltar para Soncent foi outro pesadelo, viagem via Praia, saímos do Sal à meia-noite, da Praia às 5 da manhã... e claro, eu lá estava a trabalhar no dia seguinte, porque a vida de artista não alimenta o corpo...
