Soncent

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sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Carta ao governo português

Exmo Sr. Primeiro Ministro

Venho por este meio humildemente exigir que deporte as seguintes pessoas, que muita falta me fazem em Soncent:
- O Dudão
- O Gujó
- O Luís
- A Carla
- O tio Óscar
- O Oliver

...

Com os melhores cumprimentos,

Eileen Barbosa
A saudosa

Tenho a pior mãe do mundo

Tenho a pior mãe do mundo - disse ela, e depois virou as costas e subiu para o barco. A Burguesa estava lá ao pé, num vestido cheio de botões à frente, das inevitáveis ramagens em tons verdes. Estendeu um dedo comprido na direcção do copo de gin e disse ao imediato:
- Sirva um copo também a essa coitada.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Atrás da parede

Atrás da parede
Bem ao lado
Bate o teu coração
E deste lado, bate o meu

Numa dança,
Numa trança
Na mesma música

Três minutos de música.
Na nota mais alta voar,
Na mais baixa flutuar
Na voz límpida encontrar

Um regresso, outra partida
Um sorriso, outra despedida

E atrás da parede
Tão longe,
Tão perto

Bate o teu coração.

E ouves,
De certeza
A mesma música

E já em comum
Temos a batida
O bit
“Tum tum”

Da precursão
E do coração

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

A burguesa - inédito fresquinho

(Vinha inventar qualquer coisa para escrever. Mas encarnou nos meus dedos o espírito de um velhote e o que saiu foi isto. Se eu fosse mística, escreveria um par de romances!)


A burguesa que gostava de escrever começou a escrever coisas cada vez mais sem sentido. Muito esquisitas. Eu li-as todas e gostava, mas eram tão estranhas! Comecei a pensar: ela está louca. Está a ir-se embora montada num tapete de Arraiolos de feira! Depois dizia-me que não me retivesse nas palavras, mas no som, na musicalidade das frases.

Passou a gravar as suas composições e punha-me a ouvir. Eram musicais, sim, porque ela as gravava com fundo de música. Eu era o velhote impotente sentado na cadeira de baloiço no quintal, debaixo da macieira, a ouvir composições da burguesa. E ao mesmo tempo, eu era o moçoilo que montava na vespa e saía pelas ruas a assustar as meninas e os cães deitados na calçada. Eu era o piloto de ATR's que ficava bem dentro do uniforme e tinha atrás 15 (quinze) moças casadoiras.

A burguesa levantava-se de vez em quando para ir buscar chá gelado e o meu olhar ficava preso no seu robe colorido. Muito gostava a burguesa de ramagens. Perguntava-me, nesses torpores em que caía, como podia alguém ter tão mau gosto para a casa e para as roupas, mas escrever tão bem, ter unhas tão arranjadas e dar-se bem comigo. Pior seria chegar à velhice e já não ter dúvidas nenhumas...

Vira e mexe, a burguesa aparecia com umas equimoses nos braços. Quando fiz olhos de peixe morto à empregada, fiquei a saber que a burguesa gostava de umas coisas mais duras. Eu que a julgara uma palaciana! Recebia-me sempre de manhã. Mas à tarde, quem iria sentar-se na minha cadeira? O que começou com um levantar de sobrancelha enquanto eu trocava de cassete, passou a ser uma pulga atrás da minha orelha: quem é que senta na minha cadeira quando cá não estou? Passei a olhar para a burguesa com outros olhos. O cuidado com as unhas, para quê? Os robes entreabertos?

Enfurecia-me agora com qualquer coisa. Comecei a precisar de ir mais vazes à casa de banho e tornei-me criativo nos caminhos que escolhia. Via sala, via quarto, via armário, via guarda-fatos. Na secretária onde ela se sentava a escrever havia um quadro com vários nomes. Eu soube logo que lá pousei os olhos. Não havia espaço nenhum para dúvidas. Eu não era o Solteirão, o Viciado, O Vândalo. Não. Eu era o Eunuco.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Óscar de melhor actriz

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Se tenho apostado com alguém, estava agora mais rica: o óscar de melhor actriz foi para Marion Cotillard, que fez um papel absolutamente fantástico como Edith Piaf em La vie en rose, de que já vos tinha falado há uns meses.
Mas coitados de nós, sem cinema nem nada, praticamente não chegamos a ver os filmes antes que estes sejam coroados, para nos darmos ao luxo de fazer prognósticos...

Amistad


Na Sexta-feira havia um barco fantasma no Baía do Porto Grande. Um barco preto, cheio de mastros, parecido com os de piratas. Para adensar o mistério, havia uma névoa sobre o mar. Spookie!

No Sábado, fiz seis anos e quando estavámos num pub irlandês a comer uma fatia de bolo, decidimos oferecer aos três "velhotes" da mesa vizinha uma fatia do bolo. Eles aceitaram, todos sorridentes e metemos conversa com uma senhora "afroamerican". Guess what? Eram do navio Amistad, que está a fazer um tour e que vinha da Serra Leoa. Para nos fazermos convidados, oferecemos também pastéis, rissóis e crocretes e no dia seguinte, lá estavámos na marina, para descer ao bote e ir visitar esta réplica do La Amistad, o barco que ficou na história dos Estados Unidos e da abolição da escravatura em geral.

Explicaram-nos toda a história e tivemos a honra de sermos os únicos visitantes cá de Soncent. Depois fui ler mais um bocadinho sobre o caso e neste momento, sinto-me uma mini-amistad-expert. hahaha

Uma das curiosidades é que na altura em que se construía esta réplica, o Spielberg estava a recolher dados para fazer o filme, pelo que houve uma pequena corrida a ver se o barco ficava pronto para ser usado no filme. Não tendo sido possível, o realizador usou outro, mas tão parecido que no filme não se conseguem distinguir as diferenças.

Outra curiosidade: o barco é comandado por uma mulher dos seus cinquenta ou sessenta, muito simpática, a Eliza, bonita, com cabelo comprido natural - o que quer dizer não pintado, com muitas brancas, e alguma, pouca, barba.

A cozinheira, a tal afroamericana, explicou-nos que uma das missões desta travessia é fazer as pessoas falar do racismo, dos mitos que ainda existem e dos tabus. Fiquei sem lhes dizer que a única vez em que senti raiva do branco foi exactamente ao ver a cena do filme Amistad, em que os negros foram lançados borda fora amarrados a correntes e a lastros, porque o navio estava muito pesado. Foi-nos dito que esses episódios aconteciam muitas vezes. Os negros vinham acorrentados uns aos outros. Se um deles adoecia, em vez de o curarem, mandavam o "pacote" de pessoas que estivesse acorrentatdo a ele borda fora.

Se vissem que iam ser abordados e tinham "carga ilegal", iam mais uns quantos para o mar.

O homem da foto é o Ben, o engenheiro de máquinas do navio.

Quem quiser saber mais pode ir ao site, em http://amistadamerica.org/