Soncent

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sexta-feira, 13 de março de 2009

A espia rasta-fari - extracto de um inédito

Disse-lhe que não o queria a chorar, como se isso só dependesse da vontade dele e não de todo o peso que lhe caíra em cima. Só lhe restava, respondeu-lhe ele, nesses dias de inglória, sentar-se ao pé do músico que compunha canções com um instrumento de cordas muito esquisito e chorar. Só lhe restava chorar e era o que pensava fazer até ao fim dos seus dias. Queria matar-se pela perda de sal.

Ela olhou para ele com semi-tristeza, como se acreditasse nele mas não se importasse mesmo, mesmo. E ele sentiu-se ainda mais acabrunhado, mais vítima do maior desconsolo da vida. E então, ele que já não via bem, que andava com os olhos inchados como duas goiabas amargas, viu ainda menos na névoa que lhe desceu sobre a vista, sobre o corpo, sobre o seu ser.

Estava condenado e nenhum milagre seria de esperar. Não a viu, portanto, abaixar-se para agarrar na adaga que jazia por terra e atravessar com ela o pescoço do músico. Só soube que a música parara de repente, que um ruído surdo precedeu o do instrumento que caía, e deu-se conta, em menos de um instante, que ela era afinal a tal espiã de que tanto ouvira falar.

O seu coração já fraco falhou uma batida e o ar faltou-lhe e o tempo suspenso desfez-se no ar, o próprio ar rarefazendo-se nesse instante, de tal forma que mesmo ela sentiu falta de ar e hesitou, antes de também a ele, passar-lhe adaga ainda molhada de um sangue que não o seu.

Uma foto para a Sandra e o Dénis

segunda-feira, 9 de março de 2009

Esqueci-me!

Peguei há dias num caderno antigo de matemática. Equações complexas, cheias de varáveis e fórmulas. Mandem-me fazer aquilo agora! Ou há algo de muito errado com o ensino, ou estou a dar para trás...


Há tempos, nem da famosa fórmula resolvente eu me lembrava... y ustedes?

Mandiga a preto e branco



Fotografar o Carnaval a branco e preto pode soar a contra-senso, mas existe algo mais poético?

Foto de Tiago Leão

(O que comentava este blog quase todos os dias, há um ano ou quê, e que o abandonou, possivelmente para ler blogs melhores, donde se conclui que não me posso zangar.)

sexta-feira, 6 de março de 2009

Construção

Haja letra inspiradora...

"Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado"

Chico Buarque

quinta-feira, 5 de março de 2009

Concerto no quintal

Que Cabo Verde não é afinal, um país de sol 365 dias por ano, que estamos sob o maior inverno que assolou estas ilhas desde que há notícia. Isso se diz pelas ruas Mindelenses, se comenta nos cafés.

Mas o vento da noite passada? Minha gente! Acordei com as rajadas e pensei Lá se vai a minha telha francesa que o meu avô conseguiu de riba da água do mar.

Depois lembrei-me que deveria ser o lobo mau a soprar, soprar, enchi-me de medo e encolhi-me debaixo dos dois edredões e um lençol onde me escondo para dormir. Noite de vento! De leste ou não, ai das roupas que deixei na corda...

segunda-feira, 2 de março de 2009