Soncent

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quinta-feira, 29 de julho de 2010

Saudades a despropósito

Sou do tempo das festas de terraço. Uma aparelhagem, boa música, os rapazes traziam bebidas (nem se bebia muito), as meninas traziam multas (pizzas, centopeias, pastéis e rissóis), havia aquelas músicas que procurávamos dançar com aquela pessoa... Tu me manques, Feia cabelo bedjo, Libreville...

Nos convites, escritos à mão, dava-se indicação do traje. Lembro-me de uma festa da Nadine em que pediam T-shirt e saia e eu não sabia ainda o que queria dizer T-shirt. Era o tempo da lambada. A lambada foi uma febre intensa, muitos se especializaram. Lembro-me do par Alcione e Bruno a dar um verdadeiro show nessa tal festa.

As nossas festas também faziam sucesso. Era um terraço espaçoso, com boa vista sobre a Avenida Marginal. A sequência das músicas era um dado adquirido: animada enquanto as pessoas chegam, depois uma longa de zouks, no meio umas tantas animadas outra vez e no final, umas românticas para selar qualquer coisinha. Chamavam-se "slow".

Depois todo o  mundo ia para a Praça. Uma vez, já na Praça, começou a chover e toda a gente correu para se esconder. Eu achei o máximo molhar o meu vestidinho cor-de-rosa com folhos na chuva, andar descalça nas poças, sentir o cheirinho de terra molhada... e depois faltar os dois primeiros dias de aula com uma gripe danada. Tinha 12 anos.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Coisas da Burguesa

A Burguesa sempre apreciou o seu chá, que bebe em chávenas de fina porcelana, desenhos cor-de-rosa e um ou outro estalo da idade. Segura nelas com o dedo mindinho esticado, porque nunca ouviu dizer que já não é chique. Nisto, ela descobriu um segredo que imagina só pertencer a uma grande minoria: que se o papel que vem junto a cada saquinho de chá for também mergulhado na água quente, o sabor não só melhora como o chá fica mais nutritivo e arrefece mais depressa.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Filme na vida real

Sinopse:
Um apartamento
Uma notícia: roubo selectivo de computadores
Uma vítima
Mil suspeitas
Nenhuma pista
40 contos.

Receita: divulgar pelos meios possíveis (circulando de carro pelas zonas mais obscuras e chamando os passantes de aparência duvidosa em surdina). Atenção à trilha sonora: suspense 2L/Kg. Divulgar também junto à vizinhança.

Contar com a sorte.

Dar crédito à pessoa que te acrescentou no messenger, a dizer, em muito mau português, que sabe do paradeiro dos teus computadores, mas que não pode ser descoberto pois teme pela sua vida e da do filho.
Dar o número de móvel ao potencial denunciador ou chantagista, vá-se lá saber.
Ir encontrar-se com ele, num local público e de preferência com circuito interno de filmagens, caso as coisas dêem para o torto.
Ir descobrir o local onde a mercadoria está escondida. Ir denunciá-los à polícia.
Perder a detenção dos bandidos por causa de uma reunião.
Ir buscar os computadores à Polícia e descobrir que apagaram tudo o que havia em dois deles, e que o mais velhinho, coitadinho, lutou pela dona até o fim: recusou-se a ligar-se, tendo ele salvado toda a informação que continha.

Culpados: o marido da minha empregada e um amigo.

Resultado: vários.
Conclusões: tirem as vossas
Denunciante: não abro o bico
Recomendações: peçam a um informático que vos bloqueiem os portáteis de todas as formas possíveis, e não apenas com o password, que não serve para rigorosamente nada.
Atenção às empregadas com chaves: elas podem ser honestas, mas os maridos não.

Realizador: o autor da ideia de promover o prémio de 40 contos, sem o qual, bau bau.
Montagem: Eileen Barbosa
Agradecimentos: à minha empregada. E ao meu HP.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Uma foto para o Boi


Às vezes, o vento na janela fazia-me tanto medo que eu corria para o celeiro e me abraçava ao Boi. O Boi era um touro sisudo e pachorrento, quente e mal cheiroso. Era um boi numa casa de velhos. Há muito deixara de trabalhar e vivia de memórias,a contar bezerros, a benzer vacas, a acobertar-me dos meus medos de criança. Às vezes o vento falava com ele e ele mugia em resposta. Às vezes eu falava com ele e ele me ungia em resposta. Dele se dizia que tinha sido o terror dos campos, que encarava lobos e bandidos. Tinha sido um boi de guarda.

(...)

Vítima do "roubo selectivo de computadores" - ou de larápios pouco atentos?

De maneira que no dia 5 de Julho, chego a casa e a porta está aberta e claro - os meus três portáteis tinham desaparecido. É evidente que ligo para a Polícia Judiciaria mas como isto não é a CSI, eles, depois das seis horas da tarde, já não vão a lugar nenhum recolher vestígios, pelo que é óbvio que limpo as impressões digitais das maçanetas das portas - para que é que serviriam, anyway, se sem suspeitos, a PJ não tem com que as comparar?

Elementar, no dia seguinte, aparecerem dois inspectores que me ralham pelo facto de deixar as janelas abertas num 3º andar, quando a porta destrancada indica que os ladrões não tiveram que se dependurar pelo prédio para me entrar janela adentro.

Primário: deve-se ter fé no trabalho da Polícia.

Secundário: ofereço 40 contos ou mais a quem me der uma pista consistente do paradeiro dos meus três protáteis, que imensa falta fazem à dona. Um deles é um velhote, o outro bloqueia de 15 em 15 minutos e o terceiro tem teclado americano,  mas guardam fielmente as  minhas músicas e tudo o resto que se guarda num computador pessoal.

Na mesma semana, saiu um artigo no A Nação a falar de roubo selectivo de computadores - o facto é que não me levaram mais nada. Alguém sabe o que se passa por estas bandas?

Repúdio pelos acontecimentos na Guiné

A notícia dos polícias espancados na Guiné Bissau tocou-me fundo. Quatro mulheres e um homem, espacandos com coldres de espingardas, por terem mandado parar o filho do general, segundo a RTP África, que por sua vez citou a APA, agência de imprensa africana. Para ceder prioridade a outros veículos.

Com mentalidades e comportamentos assim, onde esperam chegar alguns filhos da Guiné?

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Ler ou não ler, eis o martelo

Ontem participei num colóquio na Uni-CV - o Colóquio Língua Portuguesa e Diálogo Cultural, que reuniu alguns escritores cabo-verdianos para "Ler e reler o outro": A Fátima Bettencourt, a Vera Duarte, o Osvaldo Osório, e Filinto Elísio e a "caçula" Eileen Barbosa. Embora com estilos e vivências diferentes, o que resulta comum entre nós, concluí das nossas conversas, é uma paixão pela leitura que começou lá nos primórdios da nossa infância.

Foi-me dito pelo Prof. Doutor Marcelo Galvão Baptista que de  estudos feitos, sabe-se hoje que para que se ganhe o gosto pela leitura, é preciso que a casa em que crescemos tenha livros e que alguém próximo - pai, mãe, tio ou irmão - tenha esse hábito.

Vamos a ver: há alguém que por aí que ganhou o gosto pela leitura já na adolescência ou na adúlticia?