terça-feira, 31 de agosto de 2010
Pergunta com papel higiénico (que atrevida que estou)
Será masturbação um blogger perder-se a ler 4 anos de posts com um sorriso no canto da boca? E se o blogger não sorrir?
Há lugares assim
Mais do que um lugar assim, existe um certo espírito, um humor desaguado numa cor baça, nem é preto e branco nem é cor, cobalto, cobre, cortiça, assim. Uma paisagem-poema, uma melancolia sempre fina, às vezes, um nó na garganta, um rato no estômago, um ardor nos olhos. Não choro, não esbracejo, não canto, vivo mas não muito. E a brisa, simpática, afasta-me o cabelo da testa e espalha os meus suores. Hoje não salto as horas, hoje rastejo pelo dia, com sorte arrumo ao meio-dia, com fé arribo à meia-noite e o pior terá passado e a madrugada virá de branco. Mas não há cores, então o branco mal se distingue entre os tons que hoje me cobrem de película a pupila, juntas, feito unha e cutícula.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
A velha e o cão que comia açucar
A primeira vez que fui lá ter foi por acaso. Tinha saído a passear num dia de muito vento, levando pela trela o cachorro da vizinha, que se soltou e entrou pelo portão. Entrei atrás, gritando que nem louca pelo seu ridículo nome: Piupiu.
É complicado explicar a origem do nome, mas também não interessa. Portão dentro estava um outro cão enorme, que em vez de se pôr a cheirar o Piupiu, se deixou ficar sentado sobre as patas traseiras, olhando apenas para o prato à sua frente. Continha açúcar. Um monte branco de açúcar, brilhando ao sol. Estranhei, claro. Quem é que dava açúcar a comer a um cão?
Não levei muito tempo a saber. Atrás do que parecia ser um biombo de ferro estava uma senhora que devia ter pelo menos cem anos. Tinha um ralo cabelo muito amarelo na cabeça, a cara muito enrugada e escurecida, o corpo mirrado e muito magro. A expressão dos olhos traía uma possível loucura. A da boca, uma possível bondade. Sorriu para mim, mostrando uma dentadura perfeita. No entanto, não falou. Eu murmurei um bom dia e vim atrás do meu cão mas não me demoro mas ela ficou só sorrindo para mim.
Quando Piupiu se aproximou, ela estendeu-lhe a mão muito velha e passou-lha pelos pêlos. Pude ver o pêlo dele eriçar-se, mas deixou-se estar. Eu mordia a pergunta sobre o açúcar. O outro cão olhava para mim e para o açúcar. Juro que ele parecia pedir-me que o levasse de lá, lhe desse comida a sério e lhe explicasse como era que esta senhora tinha aparecido na sua vida. Pensei rapidamente que poderia pegar-lhe pela trela e correr, porque não haveria modo nenhum de aquele corpo quase putrefacto conseguir 1: apanhar-me, 2: gritar alto o suficiente para que alguém a ouvisse.
Foi o que fiz.
Mas não contava com a súbita cobardia do bicho: resistiu a ser puxado e ladrou para mim, quase me mordendo a mão. Eu estava lixada e olhei para a velha senhora a medo. Se ela se apercebeu do que eu tinha querido fazer, não deu mostras. Foi para dentro de um casinhoto mesmo ao lado, voltou com um pequeno quadro negro e um giz e escreveu, numa letra muito tremida, que o cão sabia muito bem por que era que lhe tinha servido açúcar. E que eu não me tentasse meter, que ele saberia honrar o compromisso deles. Ela não me disse qual o teor desse compromisso, mas vocês pensam que eu fiquei lá para saber?
Dei meia volta, como quem ignora um louco na rua e vim embora. Isso foi nesse dia. Se fosse agora, eu detinha-me mais, pensando que já não há pessoas que honrem compromissos nenhuns, que dêem valor à palavra, às expectativas dos outros. Se calhar a senhora nem era louca. Se calhar, houve uma razão qualquer para ela ter começado a dar açúcar ao cão. Até consigo imaginar algumas: que ele só gostasse de coisas doces e ela quisesse dar-lhe uma lição. Que ele andasse sempre atrás do açucareiro e ela quisesse dar-lhe uma lição. Que ela tivesse sonhado ver na cara do bicho, tal como eu vi, que ele reclamava da vida muita amarga e ela quisesse adoçar-lha.
Bom, eu, claro lá voltei. Mas parece mentira, mas não havia sinal de lá terem estado alguma vez. É pena que Piupiu não me possa confirmar, porque agora estou na dúvida se sonhei….
2003
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
O homem hibernado
Há imenso tempo que não trabalhava. Tomava o seu tempo a escolher a camisa, a gravata, a engraxar os sapatos. Metia-se no carro, abria as janelas, cheirava o ar à procura de terra molhada ou de rosas em flor. Conduzia devagar, a música no rádio subindo para um jazz animado, descendo para um blues relaxante. Estacionava o bólide com cuidados de profissional, punha a sombra no pára-brisas e entrava no escritório, cumprimentando toda a gente com um sorriso e um bom-dia animador. Enchia um copo de água assim que entrava no seu gabinete e ligava o computador. E não fazia nenhum o resto do dia.
Lia os jornais online, lia os blogs, comentava num ou noutro, via a previsão do tempo, lia as revistas estrangeiras. Estava tão informado acerca dos conflitos em Bagdad, como da saúde de Castro e da economia japonesa. Telefonava a amigos e conhecidos, só para saber das suas vidas.
De vez em quando, a secretária batia-lhe à porta e ele se assustava, fechava um jogo e punha a página dos e-mails, muitos, imensos por ler, por responder e olhava para ela com cara de um rato apanhado. Ela ignorava-o, olhava para o lado, deixava-lhe as cartas, os despachos, que ela sabia que ficariam a apanhar pó na mesa, até que ela os vinha recolher outra vez, os despachava sozinha, imitando perfeitamente a assinatura dele. Há vários meses que o fazia, era ela quem geria a empresa. Defendia-o quando os empregados comentavam a sua distracção, a sua ausência.
Há imenso tempo que ele não ia ao gabinete de cada um, perguntar como iam as coisas, exigir pressa, exigir qualidade. Ele comia no gabinete, bebia no gabinete e esperava até toda a gente ter saído para finalmente abandonar a sua toca, sair de cabeça erguida, outra vez fingindo, desejando boa tarde ao guarda e entrando no carro, que entretanto fora lavado e polido, para ir, cotovelo fora da janela, conduzindo devagar para casa. Há meses que não aparecia no ténis, deixou de ir aos almoços da família aos sábados. Que faria em casa?
Chegava a casa, descalçava-se à porta, ia despindo-se à medida que atravessava os corredores, chegava à sala da televisão, ligava-a, deixava-se absorver pelas séries, cinquenta minutos cada, vinha a publicidade e logo começava outra, ele alheado, seguindo a trama com a parte da frente da testa mas a dormir debaixo do escalpe, atropelado pela realidade, absorto, hibernado. Até um dia, talvez.
Ela chegava antes dele, abria o computador dele, lia os e-mails dele, os mais urgentes, ela encaminhava-os para o próprio e-mail, outros, ela respondia-os do computador dele, enchia-lhe o copo de água, deitava-lhe duas gotas certinhas e do mesmo tamanho do produto, o suficiente apenas para o ter assim, zonzo, perdido, a dormir acordado.
Ana chegava às nove, nunca se cruzava com o patrão. Ia logo ver a desarrumação da sala da televisão, sacudia os tapetes, abria a janela para arejar, compunha as almofadas, levava os pratos sujos para a cozinha. Aqui, abria o frigorífico, escolhia os ingredientes para o jantar e na jarra de sumo de tomate, o preferido o patrão, ela deixava cair uma gotinha, certinha, para o espicaçar. Um dia, quando ele viesse mais cedo e a encontrasse, ele não resistiria ao seu encanto, ao seu perfume, ao seu longo cabelo entrançado.
(...)
11 de Agosto de 2010
Encontro imediato do primeiro grau
Confesso que sempre vi os chineses como gente de um outro mundo. Pelo pouco contacto, pela língua, pelos milénios de história que a China tem e nós não, pelas pálpebras duplas, pelos segredos. Por toda a mística criada à sua volta. Uma vez disse à minha irmã mais velha que a posição dos europeus e americanos em relação aos negros era conhecida mas que não fazia ideia do que os orientais, os chineses em particular, pensariam do assunto. E ela respondeu-me: é fácil, Eileen: já os viste juntos nalgum lado?
Não tinha visto.
Cá em Cabo Verde, de há uns anos para cá, começamos a vê-los passar, a comprar nas suas lojas. Embora eu notasse que se davam relativamente bem com os seus empregados, eu continuava a sentir uma enorme distância e a observá-los com curiosidade. Na praia, a passear, com os filhos.
Mas ontem sim, ontem tive um encontro do primeiro grau, uma conversa que foi para além de eu perguntar quanto custa.
Fui pela quarta vez a uma oficina chinesa onde tinha encomendado umas redes. Parei a bicicleta ao pé da porta e a moça, enquanto imprimia o recibo, perguntou-me "Andas sempre de bicicleta?" Disse-lhe que nem por isso. e ela, outra vez "Quantas vezes por semana?" De vez em quando. E aí, apanhando-me completamente de surpresa, ela diz-me "Todos os dias de manhã, vou correr na praia. Para ficar... " ela faz um gesto, descendo ambas as mãos pelo corpo, para mostrar que queria ficar elegante.
Sorri. Descobri que afinal, somos todos a mesma coisa...
Não tinha visto.
Cá em Cabo Verde, de há uns anos para cá, começamos a vê-los passar, a comprar nas suas lojas. Embora eu notasse que se davam relativamente bem com os seus empregados, eu continuava a sentir uma enorme distância e a observá-los com curiosidade. Na praia, a passear, com os filhos.
Mas ontem sim, ontem tive um encontro do primeiro grau, uma conversa que foi para além de eu perguntar quanto custa.
Fui pela quarta vez a uma oficina chinesa onde tinha encomendado umas redes. Parei a bicicleta ao pé da porta e a moça, enquanto imprimia o recibo, perguntou-me "Andas sempre de bicicleta?" Disse-lhe que nem por isso. e ela, outra vez "Quantas vezes por semana?" De vez em quando. E aí, apanhando-me completamente de surpresa, ela diz-me "Todos os dias de manhã, vou correr na praia. Para ficar... " ela faz um gesto, descendo ambas as mãos pelo corpo, para mostrar que queria ficar elegante.
Sorri. Descobri que afinal, somos todos a mesma coisa...
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Pergunta universal
Vamos esclarecer esta coisa de uma vez por todas: afinal, há ou não há VIDA nos outros planetas?
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