Soncent

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domingo, 26 de setembro de 2010

Pergunta para as Suzanas e Isas da vida

O Jim Morisson mostrou ou não a sua nudez num concerto, nos anos sessenta?

Pergunta para starlet comentar

Se fosses a Lindsay Lohan, como quem não quer a coisa, e fizesses o teste da droga e reprovasses: que levarias na mala, para passar um mês na cadeia?

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Autora estreante

E enchi páginas inteiras de histórias, de choros, de lérias baratas inventadas na hora, outras ouvidas de algum lado, lugares comuns mil vezes repetidos e agora um pouquinho envernizados, um nada modificados.

Dei por pronta a obra, murmurando “magnífica” e fui entregá-la, tal tesouro recém-descoberto, às mãos do intermediário.

Era um escritório vasto, mal cuidado, com ares de servir para muita coisa para além da actividade do meu intermediário: havia umas quatro secretárias, espalhadas pelas esquinas, e perto, sofás ocupados por gente aparentemente desocupada, embora com pastas de cabedal ao pé. Pareciam gente que já tinha sido alguém, mas que entretanto se tornaram ninguém e nem sabiam como.

Sentei-me no sofá que ficava mais próximo de uma porta com o nome do intermediário e mirei os outros personagens que pareciam esperar pelo mesmo que eu. Quando já tinha reparado em todos os pormenores que indicavam a sua decadência, ouvi um monólogo bem interessante, de um jovem bem parecido, que fingia conversar com uma moça barbuda num vertido colorido:

- Comecei por tentar um romance, depois descobri que tinha mais jeito para os contos. Agora consigo dizer tudo numa ou duas frases. Pu-las todas em páginas, num género simplista e despojado e chamei à compilação, Pares de Parágrafos. Lês e tens espaço para imaginar os contextos, o mood, como diz o inglês. Sabes, eu andava a sonhar ser um grande escritor, mas tenho demasiados defeitos.

"Encontrei depois uma copy-writer muito boa, que me reescrevia os textos, cortava redundâncias sem fim e advérbios demasiados. Depois ela desistiu e eu também. Quando eu lia o texto, não sabia de haveria de rir ou chorar. Ficava bom, ficava brilhante, eram as minhas ideias, mas não era meu, o texto… tão trabalhado, elaborado, sofisticado… tão bom como eu nunca conseguiria escrever sozinho.

"Mas o golpe final, quem o deu foi ela, porque, mesmo não sentindo os textos como verdadeiramente meus, eu não conseguia abrir mão da moça. Na altura, eu tinha um bocado de dinheiro para gastar… mas um dia ela despediu-se, disse que de tanto ler a minha arte, perdera a arte dela própria, perdera o encanto de criar… eu sequer soubera alguma vez que ela própria escrevia, julgara que era das pessoas que trabalham bem mas não criam… bom, o facto é que, em poucas frases, não dá para ser redundante e sempre digo o que quero…”

Entretanto chamaram por mim e entrei. Nervosa e agitada como uma bandeira ao vento de Dezembro.

Comecei por me zangar, porque, contrastando com a minha reverência quanto ao documento que trazia abraçado ao peito, o intermediário recebeu-o como se do jornal do dia anterior se tratasse, pô-lo debaixo de um monte de outros calhamaços que o meu egoísmo de autora estreante não me deixou cogitar que tinham sido entregues com igual orgulho e ansiedade e fui logo brigando com ele, então é lá que me enfia a obra, ele, já certamente acostumado aos chiliques e achaques, disse, “Não se preocupe, que tiramos os de baixo primeiro”.

Sosseguei-me logo, tal burro a que tapam a vista e fui-me embora feliz da vida, cantando pelo caminho. E imaginando, claro, a secção de autógrafos, a contra-capa, os comentários nas páginas culturais… e os prémios literários que choveriam sobre mim. E imagina o rapaz dos “Pares de Parágrafos” e vir pedir-me autógrafos também, quando se desse conta que, com frases, ele não iria a sítio nenhum.

Sentei-me à espera de Dezembro, veio cheio de frio, foi cheio de prendas, Janeiro entrou pobre, Fevereiro passou alegre com o seu Carnaval mas resposta nenhuma veio da editora. Em Maio, o intermediário disse-me que só me conseguira uma edição conjunta com um jovem promissor, muito bom, com uma escrita muito sucinta e objectiva, de grande leveza. Agora, tenho na minha estante o livrinho de bolso “Pares de Parágrafos” que é uma colecção de contos meio chunga intermediados por umas frases elaboradas onde o meu companheiro de estreia diz tudo o que quer.



Data: Um vêz/sei lá/Diazá

Vontade de ser Singapura

Vontade de ser Japão.
Vontade de ser Guiné-Bissau.
Vontade de ser Canadá.
Vontade de ser Chile.

Tantos livros com títulos maravilhosos prontos a serem escritos.
Tenho telhados de vidro, mas a este não pude resistir.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Passeio devaneio

Caminho pela rua e aproximo-me de uma senhora com uma cara conhecida. Reviro os meus ficheiros para a identificar. Não a encontro mas em contrapartida, encontro a Mónica Lewinsky. Cumprimento-a com um aceno de cabeça displicente mas ela pega-me o cotovelo. Que atrevimento, lançam-lhe os meus olhos dissidentes. Ela pergunta-me numa voz surpreendentemente doce:


- Vou ser lembrada o resto da vida por ter blowjobed o Clinton?

- Vais, que queres?

- Mas eu não fui a única.

- Mas foste quem se gabou de o fazer. Algum comentário?

- Sim. Acabou-se-me a fortuna mas ficou-me a fama.

- Menos mal. Da Paula Abdul já ninguém se lembra. – Sacudo e braço e sigo o meu caminho. Bocejo sem tapar a boca, porque daqui, ninguém me vê. Tenho que interromper o bocejo com urgência para fugir de um descapotável preto que quase me atropela. Oiço o chiar dos travões praticamente em cima de mim e quando a fumaça se esfuma, dou com o Bruce dentro do Mazda. Ele abre a porta do lado do passageiro e diz-me com má pronúncia:

- Jump in.

- Estou sem as minhas sapatilhas de basquete.

- Ok. Preferes ficar cá? – Hoje em dia hesito muito pouco. Sento-me no assento de pele e descubro que o Bruce gosta dos U2. O Bono diz qualquer coisa sobre a Lua enquanto o Bruce me olha dentro dos olhos e me diz:

- Tens qualquer coisa da Kim em ti.

- Menos mal. Se tivesse da Demi é que era uma chatice.

- Unh. – Não diz mais nada mas arranca e vai em direcção ao Plateau. Olho para o perfil dele e mais uma vez penso que parece uma pessoa qualquer. Peço-lhe para parar e desço do Mazda.

- Posso pedir-te uma coisa?

- Claro. – Ele tira uma caneta para me dar um autógrafo. Eu fujo com a mão e com a outra, pressiono o eject.

- Dá-me este CD. – Salto do Plateau a tempo de me agarrar à corda do helicóptero.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Moonlight Sonata

Casal animal

A vida em casal era uma luta de galos e por isso, poder-se-ia imaginar que tinham uma vida de cão. Mas ela era mestre na estratégia do bichano e em soltar a pomba branca. Depois de urros e pré-murros, ela ia ter com ele à pocilga - que era como a oficina dele cheirava - e rastejava para o ninho dele - uma mini-sala escura dentro de uma arca-frigorífica - e afagava-o minutos seguidos, começando pelas patas, com carinhos de minhoca pelos suas garras de carochinha.

Ele não se debatia, limitando-se a olhá-la com uma expressão de crocodilo sonolento.

Ela depois saltitava de joelho em joelho, laboriosamente como uma formiguinha, passando então a escavar o umbigo com a motivação de um castor. Quando finalmente, depois de sobrevoar o peito, lhe depositava beijos de beija-flor nos beiços, ele já se encontrava lânguido feito uma preguiça e daí a copularem feito coelhos ia uma asa de pintassilgo.

No final, ela abraçava-o com a intensidade de uma gibóia e fazia-o ulular perdões.

Que foi feito dos peixes do aquário?