Soncent

Soncent

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Um furo, dois furos, três furos

Alguém, dando-se conta da minha eterna seriedade do ser, aconselhou-me a viver a minha adolescência. Sem as considerações todas que possamos fazer sobre o tema, saí, passei numa loja de jóias para consertar uns brincos e saí de lá não só de brincos novos, mas com mais um furo numa orelha, exactamente 10 anos depois de ter feito os primeiros furos.

E decidi que de dez em dez anos, farei um novo furinho. É verdade que vai para dois meses e este ainda não sarou, mas daqui a dez anos, quem se lembrará deste pormenor? É também verdade que entre o que as videntes me dizem - que tenho a vida longa - e o que a natureza me deu - orelhas pequenas - posso vir a ter ligeiros constrangimentos de espaço se continuar com esta determinação.

E depois, daqui a algumas dezenas de anos, parecerei alguém que, em vez de não ter vivido a sua adolescência, a vive todos os dias: com brinquinhos multicolores ao longo de ambas as orelhas, olha aquela senhora louca! 

Paleio a meio da manhã.

Às pessoas que torcem o nariz quando lhes digo que o meu segundo e terceiro livros serão de contos, digo-lhes que estes são tão literários como os romances. Enfim, defendo o conto como uma contista. Enfim, não confesso que não tenho fôlego para um romance. 

Mas já tive um romance quase que escrito. Alinhavado. A quatro mãos. 

Tudo aconteceu quando estava em Faro, a licenciar-me e correspondia-me com um mestrando ou doutorando - já nem sei - que se encontrava em Lisboa. Não nos escrevíamos todos os dias, havia alguma espera, mas escrevíamos sobre tudo - amores e desamores, a escola, a vida, a filosofia, a política, a poesia. Ele era a voz do mais velho, que me aconselhava, que me ouvia, mas era também aquele que vivia através das minhas palavras: deleitava-se com a minha vida, com as descrições que eu fazia do ambiente de estudantes, de uma cidade diferente, dos meus casos. Beijava com a minha boca, via com os meus olhos, tinha a experiência de uma estudante universitária em Portugal que ele nunca poderia ter tido. 

De maneira que quando peguei em quatro anos de e-mails trocados, pensei em fazer mais um livro de Cartas-trocadas-entre-fulano-e-sicrana, mas... os conteúdos eram tão reveladores, tão íntimos e pessoais e sinceros que eu lhe daria cabo pelo menos do casamento, se não fosse da sua reputação e sei lá do quê mais. 

Este paleio todo porque de um certo ponto de vista enviesado, só não sou romancista para proteger terceiros, o que é sempre uma forma muito honrada de não se ser autor. 

Aves amarradas

Os coqueiros são as girafas da flora? São um tipo de aves que se amarraram ao chão e criam plumas mais duras e os testículos lhes nascem, pesam e caem? São, sim, as minhas árvores preferidas.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Uma mais um


O primogénito da Taska diferenciou-se dos irmãos por ser de longe o mais bonito, esperto, o primeiro a abrir os olhos e a comer sólidos. Quis ficar com ele, quiseram ficar com ele, e eu, num raro acesso de generosidade, ofereci-o ao Ten, que, ainda bem, ficou a morar na cave da casa da minha mãe. Assim, sempre que ia a Soncent, brincava com este meu neto. Agora, ele vive comigo na Praia. É mal-educado, brutalhão mas super cheio de energia e muito carinhoso.

A adverbial declaração do ser

Musicalmente, sou pessoa de piano e violino, embora o meu maior fraco seja a voz melódica. Esteticamente, sou de cores fortes, masculinamente, sou de pernas fortes, minusculamente, de miniaturas de perfumes, financeiramente, de poupanças, metaforicamente, sou uma gata, geograficamente, sou de ilhas, climatericamente, de calor, eletricamente, sou positiva, negativamente, sou do contra, geometricamente, sou uma recta, dubiamente, sou um pouco louca. Adverbialmente, sou de regressos.


Viram que regressei, musicalmente, esteticamente, regressantemente, inventando palavras, o que irrita solenemente os puritanos da língua e a mãezinha?

Atira sal café adentro

A minha poesia seria divertida se não fosse escrita a chorar.

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Romances vs espionagem


Li, na vida, muitos mais livros de espionagem que romances de amor e o engraçado é que, sendo ambos bom entretenimento e tendo todos algum suspense, aventura e romance, está assente que nos romances, os casos de amor vão ter que durar a vida toda enquanto os espiões não se podem agarrar aos personagens deste livro, porque no próximo, têm que estar solteiros e disponíveis para as próximas aventuras… Já imaginaram o Bond, casado?  
 
Uma das minhas personagens favoritas de espionagem era uma tal de Baby, uma loura escultural que tanto poderia aparecer também morena ou ruiva sem que o cabelo dela ressecasse ou a peruca fosse evidente. A Baby era daquelas espiãs que sabe fazer tudo, desde guiar helicópteros, barcos, motas de água a falar russo, espanhol e francês e conseguia sempre escapar das armadilhas, geralmente sem muitas cicatrizes.
 
 
Já um dos meus romances favoritos foi um cujos personagens de conhecem batendo com o carro um no outro, numa tempestade de neve e implicam imediatamente um com o outro. No entanto, como o tempo não está para brincadeiras, têm que ir para um casarão abandonado lá perto e tentar acender uma fogueira para se manterem aquecidos... ai, os romances! Sempre nas cenas de mais angústia, eu sentia uma dorzinha aguda algures no peito mas quando era o caso da minha mãe, já eu agia com muita frieza: trazia o livro para casa, lia-o e ela depois tomava para ler.

A meio da leitura, eu resolvia que tinha que devolver o livro para tomar outro, então ela ficava sem ler o fim e quando me admoestava, eu respondia logo:
 
 
- Não te preocupes: eles ficaram juntos no final!