Soncent

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quarta-feira, 26 de março de 2014

Sleepbox


Por alguma razão, gosto de espaços pequenos quando bem pensados, do género dos apartamentos de 40m2 que a Ikea apresenta nas suas lojas.

 Gosto daquelas soluções inteligentes de se aproveitar todos os espaços, gosto da ideia de eficiência numa casa. Gosto, enfim, do conceito de minimalismo aplicado a espaços. 


Talvez por tudo isso, simpatizei desde o início com as Sleepboxs. São caixas de madeira de uns poucos metros quadrados equipados com camas, que podem ser instaladas em aeroportos, hospitais, estações de comboios, centros de conferência e todos os outros sítios onde haja conveniência de se encontrar um sítio acessível, confortável e limpo para umas horas de descanso, de trabalho, de privacidade

Não faço ideia de quanto custam por hora, apenas imagino que seja uma pequena porção do que custa pernoitar num hotel. Passei por elas num aeroporto europeu, Schiphol talvez, fiquei assim encantada a olhar como quem vê um palácio pela primeira vez. (só que no sentido inverso do tamanho, de uma forma transcendente, de uma insustentável grandeza do ser que se reencontra na pequenez dos espaços, dos objectos, certamente explicável, de alguma forma, com quanto tempo de peito eu tive quando bebé)

Imagino-me a entrar numa caixa dessas, com o seu cheirinho quente a madeira à mistura com bons detergentes, passar a mão pela suavidade dos lençóis, depois abrir o meu carry-on, tirar um necessáire, descalçar-me, pôr o despertador para daí a três horas, cobrir-me e dormir, sonhando com as pessoas que passam lá fora, cada uma com um destino, com os pés doridos e as suas preocupações enquanto eu, pequenina, dentro da caixa, feito um bichinho na sua toca, um bebé na sua alcova, quente, protegido, seguro das luzes frias do aeroporto, dos assentos duros, das lojas que querem todo o nosso dinheiro a troco de uma alegria demasiado breve. 

Pena a almofada ser demasiado grossa!

(Fotos do site, http://sleepbox.co.uk/)

Do baú dos escritos

Nós e o trabalho

Feitas as contas, passamos várias horas por dia a preparar-nos para o trabalho, a tentar lá chegar, e a fazer pausas, horas essas nas quais não produzimos e pelas quais também não somos pagos.

Agora que é possível fazer uma série de trabalhos em casa, as entidades empregadoras estão ainda amarradas ao medo de nos deixarmos amolecer no nosso sofá e preferem-nos pasmando frente ao computador, no escritório, que trabalhando uma hora e meia e fazendo uma pausa para fazer a cama, mais uma hora e meia e fazendo uma pausa para pôr a roupa na máquina. 

E nós, de olhos em bico no nosso salário no fim do mês, lá aceitamos tudo caladinhos. Quem dá um berro é logo visto como um louco, que não se preocupa se vai ter tutu no fim do mês para pagar a renda. Ou será que só eu penso assim e o resto da malta está muito feliz com semanas, meses, anos, décadas a ter que estar no local de trabalho 8 horas por dia?



13 de Julho de 2007

terça-feira, 18 de março de 2014

Biografias

 
Nunca tinha sido de ler biografias um bocado porque nunca me tinha encontrado com elas, eu que a maior parte da vida li assim meio à toa, li os livros que vieram ter comigo, que caíram das estantes quando lhes pus os olhos em cima. 

Uma que recentemente fez um barulhão para que a levasse foi a do Steve Jobs. Tanto insistiu que a levei comigo e se no começo, custou a arrancar, depois arrancou foi bem e andei a falar a todos do Jobs durante uns tempos até me chamarem a atenção. Vocês não precisam que o recomende, pois não? Está visto que é obrigatório de se ler, e ando há umas semanas a ver o filme. De cada vez vejo uns dez minutos, penso "isto no livro não era assim" e da próxima vez tenho que rebobinar até me lembrar de onde estava. 

Agora estou a ler o Longo Caminho para a Liberdade e o que mais me surpreendeu é a simplicidade da escrita de Nelson Mandela. Não sei se imaginei que ele cairia na tentação de uma escrita mais elaborada apenas por lhe ser mais fácil. Mas ele consegue contar a história com palavras que usamos no dia a dia e vejo-me imersa, de algum modo, naquelas dias escuros da África do Sul. Com o suspense de quem vivia nesses dias, que é um dos grandes indicadores de um bom romance, ficcional ou não. Ou de uma boa biografia. 


Sussuro não sussurrado

Traí-te de todas as vezes em que te cantei uma música que era minha e dele e não nossa.

De todas as vezes em que te fiz parte de uma historieta que inventámos, eu e ele. E fi-lo muitas vezes, porque era a minha forma de não morrer, de manter alguma coisa viva desse grande amor que tive, com ele, e o que nós temos não chega a ser uma pálida sombra.

Tantas vezes estive contigo com o olhar para o longe, sentido uma tristeza enorme oprimindo-me o peito porque quando estava com ele, o resto do mundo simplesmente não existia.

Mas contigo, não só o mundo todo existe e está presente, como o que há para ti são os restos de mim. Dizes-me que tenho que aceitar que as coisas acabaram com ele, mas… Bem vês que um amor assim, não acaba pura e simplesmente. Fazemo-lo dormir, embalamo-lo, mas ele às vezes abre um olho, chora… como um bebé de colo. Que nos é tão querido que temos que o apanhar, que o pôr entre os braços.


27 de Março de 2007

terça-feira, 11 de março de 2014

Chefes I



Contando com os estágios e descontado a escola, já tive, entre chefes e subchefes, mais de 10 pessoas a liderar-me. Ou a mandar em mim, como alguns deles terão pensado. 

Com 10 chefias, já devo algumas historias para contar, algumas lições aprendidas e queixas para fazer!

Dois dos meus chefes conseguiram verdadeiramente, liderar-me, sem nunca me pesarem. Davam instruções como quem dá sugestões. Um deles então estava quase sempre longe e envia-me e-mails onde me dizia "podias fazer isto e depois fazer aquilo..." Era o Tom. Sem Dr. nem Sr. 

Tive um chefe, o Victor, que era o pesadelo em cabelos pretos. Começou por entrar na minha sala sem bater, como que a querer apanhar-me a fazer alguma coisa de muito horrorosa, sei lá, quem sabe, uma posição de yoga, no chão, ou a limpar o nariz, ou, pior ainda, a falar ao telefone. 

Depois passou a ostracizar-me. De vez em quando dizia-me que não sabia quais eram as minhas funções quando eu me dera ao trabalho, poucos dias depois de ele chegar, de lhe apresentar todo o meu plano de trabalho, com prazos e objetivos. 

Depois dispensou-me de assistir a qualquer reunião. Obrigou-me a prestar contas sempre que me ausentava da minha sala, fosse para ir tomar um café ou à casa de banho. Finalmente, pôs-me numa mesa, na recepção, a atender pessoas. Este homem era tão terrível que passei a acordar e pensar "Que chatice, tenho que ir trabalhar!" 

Para relaxar um pouco dele e porque os seus chefes tardavam em tomar alguma medida mesmo quando viram que ele começara por mim mas já se tinha incompatibilizado com quase toda a gente, fui passar um fim de semana à Boa Vista. Cheguei, desci do avião e quem é que estava lá no aeroporto, a olhar para mim? Uma mulher de lenço na cabeça que eu julguei ser o Victor e já ia subindo de novo para o avião! 

Lições aprendidas? Não confies mais num profissional só por ser estrangeiro. E é com chefes assim que descobrimos se somos o capuchinho... ou o lobo mau. 


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Um furo, dois furos, três furos

Alguém, dando-se conta da minha eterna seriedade do ser, aconselhou-me a viver a minha adolescência. Sem as considerações todas que possamos fazer sobre o tema, saí, passei numa loja de jóias para consertar uns brincos e saí de lá não só de brincos novos, mas com mais um furo numa orelha, exactamente 10 anos depois de ter feito os primeiros furos.

E decidi que de dez em dez anos, farei um novo furinho. É verdade que vai para dois meses e este ainda não sarou, mas daqui a dez anos, quem se lembrará deste pormenor? É também verdade que entre o que as videntes me dizem - que tenho a vida longa - e o que a natureza me deu - orelhas pequenas - posso vir a ter ligeiros constrangimentos de espaço se continuar com esta determinação.

E depois, daqui a algumas dezenas de anos, parecerei alguém que, em vez de não ter vivido a sua adolescência, a vive todos os dias: com brinquinhos multicolores ao longo de ambas as orelhas, olha aquela senhora louca! 

Paleio a meio da manhã.

Às pessoas que torcem o nariz quando lhes digo que o meu segundo e terceiro livros serão de contos, digo-lhes que estes são tão literários como os romances. Enfim, defendo o conto como uma contista. Enfim, não confesso que não tenho fôlego para um romance. 

Mas já tive um romance quase que escrito. Alinhavado. A quatro mãos. 

Tudo aconteceu quando estava em Faro, a licenciar-me e correspondia-me com um mestrando ou doutorando - já nem sei - que se encontrava em Lisboa. Não nos escrevíamos todos os dias, havia alguma espera, mas escrevíamos sobre tudo - amores e desamores, a escola, a vida, a filosofia, a política, a poesia. Ele era a voz do mais velho, que me aconselhava, que me ouvia, mas era também aquele que vivia através das minhas palavras: deleitava-se com a minha vida, com as descrições que eu fazia do ambiente de estudantes, de uma cidade diferente, dos meus casos. Beijava com a minha boca, via com os meus olhos, tinha a experiência de uma estudante universitária em Portugal que ele nunca poderia ter tido. 

De maneira que quando peguei em quatro anos de e-mails trocados, pensei em fazer mais um livro de Cartas-trocadas-entre-fulano-e-sicrana, mas... os conteúdos eram tão reveladores, tão íntimos e pessoais e sinceros que eu lhe daria cabo pelo menos do casamento, se não fosse da sua reputação e sei lá do quê mais. 

Este paleio todo porque de um certo ponto de vista enviesado, só não sou romancista para proteger terceiros, o que é sempre uma forma muito honrada de não se ser autor.