Soncent

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segunda-feira, 21 de abril de 2014

Como editar um livro de contos - 1ª lição

É importantíssimo incluir um mau conto num livro de contos. Primeiro porque servirá de barómetro para as pessoas simpáticas mas pouco críticas que virão ter connosco a dizer que adoraram o livro. 

Poderemos então perguntar de qual gostaram mais – e a resposta dependerá, é claro, de cada pessoa, mas quando perguntarmos de qual gostaram menos… Terão que mencionar o tal do mau conto ou então perderão toda a credibilidade. É assim que funciona.

Uma outra razão para a participação deste conto infame é valorizar os outros contos, claro. Mostra que o autor poderia ter escrito coisas muito mais rascas mas que teve talento, teve mestria.

Uma terceira razão prende-se com o seguro do autor. Pode acontecer em determinadas situações que pessoas quererão elogiar ou cobrir de honras um autor mas este não se encontra para aí virado. Irão pedir-lhe uma leitura de um dos contos e é aí que ele se valerá da pequena artimanha que vai incluída no livro.


É claro que há regras para este conto. Não pode destoar demasiado dos outros, para não se correr o risco de se pensar que foi o editor ou a gráfica a cometer a façanha de incluir na coletânea um conto que não pertença ao autor. Também não pode estar nem no início do livro nem no seu final, porque os primeiros fazem a primeira impressão e os últimos é que deixam o sabor final na língua. Algures, depois do meio, seria bom local. Exatamente no meio também não dá jeito, porque há muito quem abra um livro pelo meio e comece a ler de lá. 

Farei depois considerações para leitores canhotos, que têm com o livro, uma experiência toda ela diferente. 

Comunicado de Imprensa


A escritora e poeta Eileen Almeida Barbosa, de 32 anos, foi uma dos 39 autores africanos a sul do Sahara selecionados para o projeto de antologia AFRICA39 e uma dos dois autores de língua portuguesa. 

O segundo foi Ondjaki. (Parabéns, meu. Ainda por cima, vives no Brasil e tal, logo, invejo-te bués!)
A antologia intitulada AFRICA39 de histórias ou extratos de novelas, escritos originalmente em Inglês, Francês, Português ou qualquer língua africana, de 39 escritores com menos de 40 anos da África subsaariana (ou diáspora), que têm o potencial e o talento para definirem as tendências que marcarão o desenvolvimento da literatura numa determinada língua ou região, para serem publicados em Inglês a tempo do Port Harcourt Hay Festival em Outubro de 2014. A mesma coisa foi feita em Bogotá e Beirute.


Como um dos melhores festivais de literatura do mundo, o Hay Festival esteve sempre interessado em destacar talentos e colaborou com o projeto da Unesco de Capital Mundial do Livro, projeto que já teve lugar em Bogotá e em Beirute. O título de Capital Mundial do Livro é atribuído a uma cidade diferente a cada ano para celebrar a qualidade e variedade de iniciativas para promover livros, a leitura e a indústria editora.

A seleção dos 39 escritores foi feita por um painel de júris bem conhecidos. Os escritores selecionados tinham de ter menos de 40 anos e serem da região ou da diáspora. Os autores selecionados tinham de ter pelo menos uma obra publicada e potencial para desenvolvimento. Os júris escolherem de entre mais de 200 submissões pesquisadas por Binyavanga Wainaina fundador da revista literária Kwani baseada em Nairobi.

Link para consulta:


terça-feira, 1 de abril de 2014

Insólito no cinema

Ontem decidi de uma hora para a outra, já até passava das oito e meia, que ia ao cinema. Fui de corrida, sem tomar banho ou pôr batom, e chegando lá, os bilhetes já se tinham esgotado. Mas por sorte, um casal tinha desistido e venderam-me um bilhete. 

Entrei na sala já com o filme razoavelmente avançado, a ponto de ter que me sentar nas escadas, pois não ficava bem ir incomodar as pessoas no meio de uma cena de tiros, para chegar à última cadeira que estava livre.

quarta-feira, 26 de março de 2014

Sleepbox


Por alguma razão, gosto de espaços pequenos quando bem pensados, do género dos apartamentos de 40m2 que a Ikea apresenta nas suas lojas.

 Gosto daquelas soluções inteligentes de se aproveitar todos os espaços, gosto da ideia de eficiência numa casa. Gosto, enfim, do conceito de minimalismo aplicado a espaços. 


Talvez por tudo isso, simpatizei desde o início com as Sleepboxs. São caixas de madeira de uns poucos metros quadrados equipados com camas, que podem ser instaladas em aeroportos, hospitais, estações de comboios, centros de conferência e todos os outros sítios onde haja conveniência de se encontrar um sítio acessível, confortável e limpo para umas horas de descanso, de trabalho, de privacidade

Não faço ideia de quanto custam por hora, apenas imagino que seja uma pequena porção do que custa pernoitar num hotel. Passei por elas num aeroporto europeu, Schiphol talvez, fiquei assim encantada a olhar como quem vê um palácio pela primeira vez. (só que no sentido inverso do tamanho, de uma forma transcendente, de uma insustentável grandeza do ser que se reencontra na pequenez dos espaços, dos objectos, certamente explicável, de alguma forma, com quanto tempo de peito eu tive quando bebé)

Imagino-me a entrar numa caixa dessas, com o seu cheirinho quente a madeira à mistura com bons detergentes, passar a mão pela suavidade dos lençóis, depois abrir o meu carry-on, tirar um necessáire, descalçar-me, pôr o despertador para daí a três horas, cobrir-me e dormir, sonhando com as pessoas que passam lá fora, cada uma com um destino, com os pés doridos e as suas preocupações enquanto eu, pequenina, dentro da caixa, feito um bichinho na sua toca, um bebé na sua alcova, quente, protegido, seguro das luzes frias do aeroporto, dos assentos duros, das lojas que querem todo o nosso dinheiro a troco de uma alegria demasiado breve. 

Pena a almofada ser demasiado grossa!

(Fotos do site, http://sleepbox.co.uk/)

Do baú dos escritos

Nós e o trabalho

Feitas as contas, passamos várias horas por dia a preparar-nos para o trabalho, a tentar lá chegar, e a fazer pausas, horas essas nas quais não produzimos e pelas quais também não somos pagos.

Agora que é possível fazer uma série de trabalhos em casa, as entidades empregadoras estão ainda amarradas ao medo de nos deixarmos amolecer no nosso sofá e preferem-nos pasmando frente ao computador, no escritório, que trabalhando uma hora e meia e fazendo uma pausa para fazer a cama, mais uma hora e meia e fazendo uma pausa para pôr a roupa na máquina. 

E nós, de olhos em bico no nosso salário no fim do mês, lá aceitamos tudo caladinhos. Quem dá um berro é logo visto como um louco, que não se preocupa se vai ter tutu no fim do mês para pagar a renda. Ou será que só eu penso assim e o resto da malta está muito feliz com semanas, meses, anos, décadas a ter que estar no local de trabalho 8 horas por dia?



13 de Julho de 2007

terça-feira, 18 de março de 2014

Biografias

 
Nunca tinha sido de ler biografias um bocado porque nunca me tinha encontrado com elas, eu que a maior parte da vida li assim meio à toa, li os livros que vieram ter comigo, que caíram das estantes quando lhes pus os olhos em cima. 

Uma que recentemente fez um barulhão para que a levasse foi a do Steve Jobs. Tanto insistiu que a levei comigo e se no começo, custou a arrancar, depois arrancou foi bem e andei a falar a todos do Jobs durante uns tempos até me chamarem a atenção. Vocês não precisam que o recomende, pois não? Está visto que é obrigatório de se ler, e ando há umas semanas a ver o filme. De cada vez vejo uns dez minutos, penso "isto no livro não era assim" e da próxima vez tenho que rebobinar até me lembrar de onde estava. 

Agora estou a ler o Longo Caminho para a Liberdade e o que mais me surpreendeu é a simplicidade da escrita de Nelson Mandela. Não sei se imaginei que ele cairia na tentação de uma escrita mais elaborada apenas por lhe ser mais fácil. Mas ele consegue contar a história com palavras que usamos no dia a dia e vejo-me imersa, de algum modo, naquelas dias escuros da África do Sul. Com o suspense de quem vivia nesses dias, que é um dos grandes indicadores de um bom romance, ficcional ou não. Ou de uma boa biografia. 


Sussuro não sussurrado

Traí-te de todas as vezes em que te cantei uma música que era minha e dele e não nossa.

De todas as vezes em que te fiz parte de uma historieta que inventámos, eu e ele. E fi-lo muitas vezes, porque era a minha forma de não morrer, de manter alguma coisa viva desse grande amor que tive, com ele, e o que nós temos não chega a ser uma pálida sombra.

Tantas vezes estive contigo com o olhar para o longe, sentido uma tristeza enorme oprimindo-me o peito porque quando estava com ele, o resto do mundo simplesmente não existia.

Mas contigo, não só o mundo todo existe e está presente, como o que há para ti são os restos de mim. Dizes-me que tenho que aceitar que as coisas acabaram com ele, mas… Bem vês que um amor assim, não acaba pura e simplesmente. Fazemo-lo dormir, embalamo-lo, mas ele às vezes abre um olho, chora… como um bebé de colo. Que nos é tão querido que temos que o apanhar, que o pôr entre os braços.


27 de Março de 2007