Soncent

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sábado, 2 de agosto de 2014

Fatal

Gritos de amor empenado


Não há silencio porque os teus grãos – serás areia - trepidam no chão à medida que te tento agarrar na mão. 

Não há amor que baste contra os muros que erguemos e agora não sabemos destruir.
Não há presente que dure nem um futuro para um casal sem verbo comum.
Vir à tua casa foi fatal, querer estar nos teus braços quando me queres tão longe é fatal.

Tudo é fatal.


Sentar-me aqui sozinha a escrever sem que me venhas buscar é fatal e deixar-te lá onde quer que estejas talvez também o seja, não te compreendo o suficiente para o saber. O que também virá a ser fatal. 

Rescaldos de vidas airadas

- Tiveste affairs intensos com metade desta ilha mas nunca comigo. 
Foi então que ele disse que tivemos um relacionamento aos nove. Que fomos precoces.
- Contigo fugia para mar Báltico. - Insisti com a minha voz mais cavernosa de sempre. 
- Para onde?
- Para o mar Báltico.
- Isso é onde?

- Esquece. - E vi-o sair da minha vida. 

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Da mesa redonda e outras redundâncias

Fui convidada para participar numa mesa redonda de escritores cabo-verdianos durante o Congresso Internacional da Associação de Lusitanistas, que decorreu em São Vicente, na semana passada (dia 22). Eu apareci lá de manhã, convocada de emergência quase, para vermos como seria a disposição de mesas e cadeiras. Estava a sair de uma sessão de fisioterapia pois faz hoje dois meses exatos, fui levantar uma bola de basket com os pés, feita jogadora de futebol e parti o meu pé esquerdo. 

(Ah, o pequeno ser humano e as suas pequenas descobertas acerca da vida. Não é enternecedor? Olha como ela descobriu a falta que faz um pé! E como ela começou um post para falar de uma mesa redonda de escritores e praticamente sem querer, já se prepara para contar tudo - T-U-D-O - sobre esse pezinho partido, quebrado, que ficou caído, debangado da perna e que tanto doeu mas que principalmente, tanto a prendeu em casa. Mas ela resiste! O ser humano é capaz de enormes resistências!)

quarta-feira, 21 de maio de 2014

A minusculidade do ser





Depois dizem que o tamanho não importa. Eu vinha a caminhar na rua, não exatamente pensando mas antes deambulando no meu cérebro, entre as dúzias de neurónios que me foram presenteados à nascença em vez de me abrirem uma conta poupança. Então, numa esquina, topei com a notícia das eleições na Índia. Fui ver melhor, através dos vidros da loja.

Vi, mas não processei, que havia  814.5 milhões de pessoas que podiam votar. Mas isso não é nada, dirão vocês. Afinal, havia 8.251 candidatos. Não sei, bateu uma pequenez, uma coisa, apeteceu-me esconder-me algures, vi uma poça de água na rua, fui ver se ela me cobria, afinal tinha lama e óleo, de maneira que me sentei na praia, de onde podia ver as outras 9 ilhas do meu minúsculo arquipélago onde as quinhentas e tal mil almas, fazendo pelas suas vidas, não enchem um bairro de uma cidade média algures no mundo.


Deu-me uma preguiça... se aqui é o que é, com as eleições, com as centralidades e queixas, com uma ilha do tamanho do Sal a querer duas câmaras municipais para dividirem os recursos já tão parcos, como é que será gerir aquela galáxia que é a Índia? 

Haja Via Láctea!

(Foto da Wikipedia)

terça-feira, 13 de maio de 2014

Brio. Brio Profissional.


Ultimamente, recebi dois trabalhos que me arrepiaram os pelos das ventas: Um ficheiro com informações à atenção superior, enviado por um técnico superior. Tratava-se de uma tabela com dados. Veio sem nome (diz apenas “Cópia de Livro”), sem título, sem data, sem apresentação, com erros de português, com uma péssima formatação. Onde é que nos passaria pela cabeça entregar um documento assim? 


Num outro dia, enviam um relatório de um evento. Este tem título e data. Não tem é conteúdo. As frases não têm verbos. Não se encontra, nesse relatório de 4 páginas, uma única informação que se pretendia ao se pedir a tarefa. E não foi por falta de explicação. É certo que outra pessoa vai ter que investir ainda mais tempo a fazer o trabalho que já tinha sido encarregue a outra técnica.

Num outro dia ainda, uma técnica recusou uma tarefa por estar “cansada” e não se coibiu de escrever isso mesmo num correio eletrónico: Não posso fazer tal coisa porque estou cansada. E depois, recusou mais tarefas porque não está disposta a “tapar buracos”. Ou aceita fazer alguma coisa e meia hora antes diz que afinal, “não vai dar”. Claro que alguém teve que ir tapar os tais buracos, ou quem é que ficava mal era a instituição. (Leia-se-se, o empregador: Aquele que nos paga os salários.) 

Vejam, há imensa coisa que se pode dizer mas que nunca devemos escrever. Um correio eletrónico pode ser reenviado, partilhado, guardado. Essa coisa de enviar piadinhas, filminhos, flirts, no e-mail do trabalho... Não se faz. Nunca, ok? Vá lá, se o nunca for muito forte, apaga depois, e pede ao destinatário que faça a mesma coisa. 

É preciso estarmos conscientes do que andamos a fazer no nosso local de trabalho. Algumas das coisas mais básicas, aprendemo-las na escola: começar as frases com letras maiúsculas. Vocês dirão que estou a exagerar. Quem me dera. Também aprendemos a assinar as nossas comunicações. O Outlook dá um jeito: sugere correções aos nossos textos. Porquê recusar essa ajuda e enviar textos cheios de erros de português? 


Cada comunicação que enviámos, cada carta, cada documento que vai com o nosso nome é um sinal. Um sinal de que estamos atentos, que revimos o nosso trabalho – que é, por sua vez, um sinal de brio profissional e de respeito pelo destinatário. E não me digam que é por falta de tempo. 

E por falar em falta de tempo: o Facebook é uma ferramenta de trabalho, sim. Permite-nos obter informações em segundos. Mas deixar a página do Face aberta quando vamos à tua sala, para descobrirmos que em vez de estares a trabalhar, estar a curtir as fotos do baptizado da Maria Alice... Ê pá!

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Sou do tipo de pessoa


Isto escrevi eu em 2007:

"Sou do tipo de pessoa que pisca os olhos às estrelas, e as torna cúmplices de uma vida feliz. Que olha para o céu e adivinha momentos alegres. Que fala com os cães na rua, com as ondas do mar, com o espelho e sozinha.

Que olha, vê e pergunta às coisas os seus nomes.

E acredito que o que de bom há na vida, está mais dentro de nós do que lá fora.

E, para ser diferente dos outros, penso muito, na vida, sobre os outros... Não deixo passar a vida como quem vê passar um barco num rio. Vou eu ao leme a maior parte das vezes. Um dia, serei a capitã permanente. Breve, espero."

Ora, 7 anos depois, umas quantas afirmações ficariam a modo que descabidas, o que implica uma pesada revisão das coisas. Pois ultimamente não perguntei o nome a coisa alguma e há umas escadas no Palácio onde trabalho há mais de dois anos que simplesmente nunca subi. É como se a minha curiosidade infantil foi finalmente adormecida. 


segunda-feira, 21 de abril de 2014

Como editar um livro de contos - 1ª lição

É importantíssimo incluir um mau conto num livro de contos. Primeiro porque servirá de barómetro para as pessoas simpáticas mas pouco críticas que virão ter connosco a dizer que adoraram o livro. 

Poderemos então perguntar de qual gostaram mais – e a resposta dependerá, é claro, de cada pessoa, mas quando perguntarmos de qual gostaram menos… Terão que mencionar o tal do mau conto ou então perderão toda a credibilidade. É assim que funciona.

Uma outra razão para a participação deste conto infame é valorizar os outros contos, claro. Mostra que o autor poderia ter escrito coisas muito mais rascas mas que teve talento, teve mestria.

Uma terceira razão prende-se com o seguro do autor. Pode acontecer em determinadas situações que pessoas quererão elogiar ou cobrir de honras um autor mas este não se encontra para aí virado. Irão pedir-lhe uma leitura de um dos contos e é aí que ele se valerá da pequena artimanha que vai incluída no livro.


É claro que há regras para este conto. Não pode destoar demasiado dos outros, para não se correr o risco de se pensar que foi o editor ou a gráfica a cometer a façanha de incluir na coletânea um conto que não pertença ao autor. Também não pode estar nem no início do livro nem no seu final, porque os primeiros fazem a primeira impressão e os últimos é que deixam o sabor final na língua. Algures, depois do meio, seria bom local. Exatamente no meio também não dá jeito, porque há muito quem abra um livro pelo meio e comece a ler de lá. 

Farei depois considerações para leitores canhotos, que têm com o livro, uma experiência toda ela diferente.