Soncent

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segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Durante o exame nacional



-          Chamaste-me? – Perguntou-me ele.

Só se for telepaticamente. Ah, sim! Estou a chamar-te há um bom bocado. Mas bater na tua cadeira, isso não bati. Olhei para o teu cabelo, repeti o teu nome cem vezes dentro de mim, fitei por uma data de minutos o lugar onde deves ter uma glândula que é conhecida como o terceiro olho. 

Vê lá se não sentiste. 

Admirei-te o desenho das costas, contei os pelos fininhos do teu pescoço, admirei a alvura da tua camisa e as tuas orelhas alinhadas. Mas a sério que não bati na tua cadeira, pelo menos por querer. Mas foi bom teres-te virado para mim porque tens uns olhos lindos de morrer e não me importava de me perder neles e ter que te pedir ajuda para me encontrar outra vez. E voltar a perder-me. Mas como estas verdades não se dizem assim, fiz um não com cabeça. E viraste-te de novo para a frente, certamente também empancado na pergunta oito. Exercício difícil, custou-me a resolver. Daqui a nada, a professora virá para perto de nós e hei-de lhe perguntar se é assim. Num exame como este, ela não se recusará a dar um help

terça-feira, 16 de setembro de 2014

O combate das letas C e K

Miraram-se silenciosamente. O ringue estava decorado com laços coloridos. 

A K estava toda ela pimpona. Ninguém podia negar a sua beleza e fotogenia. Tinha o apoio dos especialistas do crioulo, estava na moda. 

A C tinha anos e anos de existência entre os latinos. Os bébés começavam a lidar com ela assim que aprendiam a dizer mamã e papá. Diziam, cândidos e sorridentes: Côcó. Era a terceira do alfabeto. a Terceira!!
Aliás, nem só os humanos conseguem usar a C. Até as galinhas que quase não t~em cérebro, conseguem dominar e letra nos seus caracacá.

O sino soou finalmente. 

Embora a guerra existisse já há muitos anos, desta vez, elas iriam dar e apanhar pancada. E se havia coisa que a C queria fazer era bater, bater na K. com força! Calapadas e cabeçadas! Curtas e calientes! 

Lá, onde a areia se banha também


sábado, 2 de agosto de 2014

Fatal

Gritos de amor empenado


Não há silencio porque os teus grãos – serás areia - trepidam no chão à medida que te tento agarrar na mão. 

Não há amor que baste contra os muros que erguemos e agora não sabemos destruir.
Não há presente que dure nem um futuro para um casal sem verbo comum.
Vir à tua casa foi fatal, querer estar nos teus braços quando me queres tão longe é fatal.

Tudo é fatal.


Sentar-me aqui sozinha a escrever sem que me venhas buscar é fatal e deixar-te lá onde quer que estejas talvez também o seja, não te compreendo o suficiente para o saber. O que também virá a ser fatal. 

Rescaldos de vidas airadas

- Tiveste affairs intensos com metade desta ilha mas nunca comigo. 
Foi então que ele disse que tivemos um relacionamento aos nove. Que fomos precoces.
- Contigo fugia para mar Báltico. - Insisti com a minha voz mais cavernosa de sempre. 
- Para onde?
- Para o mar Báltico.
- Isso é onde?

- Esquece. - E vi-o sair da minha vida. 

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Da mesa redonda e outras redundâncias

Fui convidada para participar numa mesa redonda de escritores cabo-verdianos durante o Congresso Internacional da Associação de Lusitanistas, que decorreu em São Vicente, na semana passada (dia 22). Eu apareci lá de manhã, convocada de emergência quase, para vermos como seria a disposição de mesas e cadeiras. Estava a sair de uma sessão de fisioterapia pois faz hoje dois meses exatos, fui levantar uma bola de basket com os pés, feita jogadora de futebol e parti o meu pé esquerdo. 

(Ah, o pequeno ser humano e as suas pequenas descobertas acerca da vida. Não é enternecedor? Olha como ela descobriu a falta que faz um pé! E como ela começou um post para falar de uma mesa redonda de escritores e praticamente sem querer, já se prepara para contar tudo - T-U-D-O - sobre esse pezinho partido, quebrado, que ficou caído, debangado da perna e que tanto doeu mas que principalmente, tanto a prendeu em casa. Mas ela resiste! O ser humano é capaz de enormes resistências!)

quarta-feira, 21 de maio de 2014

A minusculidade do ser





Depois dizem que o tamanho não importa. Eu vinha a caminhar na rua, não exatamente pensando mas antes deambulando no meu cérebro, entre as dúzias de neurónios que me foram presenteados à nascença em vez de me abrirem uma conta poupança. Então, numa esquina, topei com a notícia das eleições na Índia. Fui ver melhor, através dos vidros da loja.

Vi, mas não processei, que havia  814.5 milhões de pessoas que podiam votar. Mas isso não é nada, dirão vocês. Afinal, havia 8.251 candidatos. Não sei, bateu uma pequenez, uma coisa, apeteceu-me esconder-me algures, vi uma poça de água na rua, fui ver se ela me cobria, afinal tinha lama e óleo, de maneira que me sentei na praia, de onde podia ver as outras 9 ilhas do meu minúsculo arquipélago onde as quinhentas e tal mil almas, fazendo pelas suas vidas, não enchem um bairro de uma cidade média algures no mundo.


Deu-me uma preguiça... se aqui é o que é, com as eleições, com as centralidades e queixas, com uma ilha do tamanho do Sal a querer duas câmaras municipais para dividirem os recursos já tão parcos, como é que será gerir aquela galáxia que é a Índia? 

Haja Via Láctea!

(Foto da Wikipedia)