Soncent

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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Regresso às vírgulas

Lá onde os dias escorrem, lá onde alumia ainda o sol, pode sempre haver regressos aos sítios onde fomos felizes. Um dia como hoje, onde, no meio de muita coisa me vim acolher ao Soncent e lendo um ou outro post, me deu uma saudade de escrever, tal como costumava, com liberdade, de improviso, com alegria! 

Porquê tanta ausência? Ele é o trabalho, ele é o sentir que já ninguém lê, ele é ter que sair do Gmail para fazer log in no Blogger. Que canseira! Deve ser, principalmente, sentir que ninguém lê. 

Porque quando suspeito que alguém vai ler, quando imagino essa pessoa a levantar-se de manhãzinha e a ir, precariamente porque morta de sono, sem nem enfiar as pantufas, em direção à casa de banho e alguma coisa no seu reflexo do espelho lhe sussurra que hoje, por uns minutos, em vez de ver posts dos almoços de cada um, das publicidades disfarçadas, dos artigos de opinião mal amanhados, hoje, por uns minutos, se vai sentir tentada a ler um blog, um lugar onde ela também foi feliz... Então venho eu a correr, sem nem me ver bem ao espelho para pentear a minha cabeleira mediana, que cai pelos ombros, sedosa, macia, encaracolada e crespa, venho, dizia, correndo, sem amarrar as sapatilhas, sentar-me, escrever uma coisa fresquinha, sem nem pôr os óculos, inventar umas rimas, sorrir numas frases compridas, sem nem meter as vírgulas. 

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Durante o exame nacional



-          Chamaste-me? – Perguntou-me ele.

Só se for telepaticamente. Ah, sim! Estou a chamar-te há um bom bocado. Mas bater na tua cadeira, isso não bati. Olhei para o teu cabelo, repeti o teu nome cem vezes dentro de mim, fitei por uma data de minutos o lugar onde deves ter uma glândula que é conhecida como o terceiro olho. 

Vê lá se não sentiste. 

Admirei-te o desenho das costas, contei os pelos fininhos do teu pescoço, admirei a alvura da tua camisa e as tuas orelhas alinhadas. Mas a sério que não bati na tua cadeira, pelo menos por querer. Mas foi bom teres-te virado para mim porque tens uns olhos lindos de morrer e não me importava de me perder neles e ter que te pedir ajuda para me encontrar outra vez. E voltar a perder-me. Mas como estas verdades não se dizem assim, fiz um não com cabeça. E viraste-te de novo para a frente, certamente também empancado na pergunta oito. Exercício difícil, custou-me a resolver. Daqui a nada, a professora virá para perto de nós e hei-de lhe perguntar se é assim. Num exame como este, ela não se recusará a dar um help

terça-feira, 16 de setembro de 2014

O combate das letas C e K

Miraram-se silenciosamente. O ringue estava decorado com laços coloridos. 

A K estava toda ela pimpona. Ninguém podia negar a sua beleza e fotogenia. Tinha o apoio dos especialistas do crioulo, estava na moda. 

A C tinha anos e anos de existência entre os latinos. Os bébés começavam a lidar com ela assim que aprendiam a dizer mamã e papá. Diziam, cândidos e sorridentes: Côcó. Era a terceira do alfabeto. a Terceira!!
Aliás, nem só os humanos conseguem usar a C. Até as galinhas que quase não t~em cérebro, conseguem dominar e letra nos seus caracacá.

O sino soou finalmente. 

Embora a guerra existisse já há muitos anos, desta vez, elas iriam dar e apanhar pancada. E se havia coisa que a C queria fazer era bater, bater na K. com força! Calapadas e cabeçadas! Curtas e calientes! 

Lá, onde a areia se banha também


sábado, 2 de agosto de 2014

Fatal

Gritos de amor empenado


Não há silencio porque os teus grãos – serás areia - trepidam no chão à medida que te tento agarrar na mão. 

Não há amor que baste contra os muros que erguemos e agora não sabemos destruir.
Não há presente que dure nem um futuro para um casal sem verbo comum.
Vir à tua casa foi fatal, querer estar nos teus braços quando me queres tão longe é fatal.

Tudo é fatal.


Sentar-me aqui sozinha a escrever sem que me venhas buscar é fatal e deixar-te lá onde quer que estejas talvez também o seja, não te compreendo o suficiente para o saber. O que também virá a ser fatal. 

Rescaldos de vidas airadas

- Tiveste affairs intensos com metade desta ilha mas nunca comigo. 
Foi então que ele disse que tivemos um relacionamento aos nove. Que fomos precoces.
- Contigo fugia para mar Báltico. - Insisti com a minha voz mais cavernosa de sempre. 
- Para onde?
- Para o mar Báltico.
- Isso é onde?

- Esquece. - E vi-o sair da minha vida. 

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Da mesa redonda e outras redundâncias

Fui convidada para participar numa mesa redonda de escritores cabo-verdianos durante o Congresso Internacional da Associação de Lusitanistas, que decorreu em São Vicente, na semana passada (dia 22). Eu apareci lá de manhã, convocada de emergência quase, para vermos como seria a disposição de mesas e cadeiras. Estava a sair de uma sessão de fisioterapia pois faz hoje dois meses exatos, fui levantar uma bola de basket com os pés, feita jogadora de futebol e parti o meu pé esquerdo. 

(Ah, o pequeno ser humano e as suas pequenas descobertas acerca da vida. Não é enternecedor? Olha como ela descobriu a falta que faz um pé! E como ela começou um post para falar de uma mesa redonda de escritores e praticamente sem querer, já se prepara para contar tudo - T-U-D-O - sobre esse pezinho partido, quebrado, que ficou caído, debangado da perna e que tanto doeu mas que principalmente, tanto a prendeu em casa. Mas ela resiste! O ser humano é capaz de enormes resistências!)