Soncent

Soncent

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Lavas de grande envergadura

Todos os donativos que nos derem
Todas as dádivas e doações
Cairão pesadamente
Nos nossos corações

Estamos de estendidas mãos
Estamos de ondulantes ânsias
Enquanto dos nossos olhos
Jorram as lavas

De grande envergadura 

9 de dezembro de 2014 

Festa sonhada


Na noite de anteontem para ontem, sonhei que estava em São Vicente. Ia haver uma festa de arromba, uma festa louca, com música ao vivo, mas meio secretista, em que era preciso isto e aquilo para se conseguir um bilhete e eram caros. Lembro-me de estar no Salão Gia (que já nem existe) a convencer as funcionárias que eu merecia comprar um bilhete.

 A festa em si acedia-se através de uns corredores mafiosos perto do Stopper, aquela pastelaria que fica perto do Palácio do Povo. Estava muito boa e por alguma razão, o mote era que o homem que agarrasse na mão de uma mulher podia beijá-la e se quisessem ir mais longe, pois, porque não, de maneira que os homens andavam que nem loucos a agarrar nas mãos de uma, para depois a soltarem e irem agarrar na mão de outra e as mulheres punham-se a jeito para este ou para aquele, e havia-os bonitos, um em particular de cabelos pretos luzidios e olhos azuis... 

Às tantas já havia vários casais pelos cantos e por alguma razão, nós os dois demos de nos beijar e não imaginas o bom que foi, beijámo-nos imenso e a tua boca nem sabia a cigarro nem nada, fresca como uma nascente de água com um toque de mentol.

Andámos a festa toda de mãos dadas, divertidos, olhando para o que mais acontecia, espreitando através de umas cortinas absolutamente barrocas, aliás, a mobília era toda ela palaciana, muito rica em brocados, havia salas de tectos altíssimos, pintadas de azul, e havia dois terraços, a noite, fresquinha, a música, diferente, berrada mas estranhamente insinuante. As bebidas serviam-se em copos altos, brilhavam as suas cores vermelhas, verdes e azuis, mas tu mantinhas uma cerveja na mão e eu, acho que nem bebi.


 E pronto, lá acordei e passei o dia a pensar em ti.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Anfiteatro


Fomos muitos os que não compreendemos o discurso. Mas lá ficámos especados, como cabras a olhar para um palácio.

O próprio orador falou depois num desfasamento gritante entre a ideia que ele queria passar e o que nós depreendemos da sua enervada oratória, rica em perdigotos que vieram pousar na primeira fila de cadeiras. Felizmente, nós não lá estávamos, essas são as cadeiras reservadas aos doutores. E nós limitávamo-nos a ser estudantes universitários, que desembolsaram vinte e cinco euros para ir ver e ouvir uma série de engravatados ler uns quantos papéis, de cima do estrado.

Uma ou duas vezes por mês, o mesmo ritual de entrar para o anfiteatro e escolher as cadeiras. Eu e a Zoraima, procurando ficar perto do palco, para podermos ler as projecções. Os rapazes de Gestão Hoteleira sentavam-se atrás das raparigas do primeiro ano. As suculentas caloiras.

Desta vez, o orador também reparou nessa suculência, pois durante o primeiro intervalo, foi meter conversa com as miúdas. Foi triste, eu e a Zoraima comentámos, o modo como ele tentava compor o seu melhor sorriso e adoptava uma postura mais jovem, uma mão no bolso, a outra a passar repetidamente pelo cabelo, como quem dizia “Sou de meia-idade, mas reparem-me nesta farta cabeleira!”. E elas, enrubescidas, balbuciando asneiras do género de estarem a adorar o seminário e de ser muito elucidativo e ser uma honra recebê-lo na nossa escola…
No segundo intervalo, já eles se sentavam todos juntos, o orador e cinco caloirinhas, nenhuma delas com mais de vinte anos.
À hora do almoço, toda a gente abandonando o anfiteatro à pressa, elas a atrasarem-se e eu e a Zoraima, espertas que somos, atrasávamo-nos também. Bem queríamos ver em que era que aquilo iria dar. Quando ele deu por arrumados todos os papéis sobre a mesa e até o arranjo de flores, dando tempo a que todos se retirassem, estávamos eu, a Zoraima, ele e as caloiras. Nós fingíamos estar à procura de um brinco, as outras estavam todas entretidas com os telemóveis de cores vivas. Ele aproximou-se-lhes e indagou num tom paternal:

- Então, moças, ainda não vão almoçar? – Ficou lá parado à espera e depois olhou para nós. A Zoraima encontrara por fim o brinco virtual. – E vocês, também ainda cá estão? – Sempre detestei esse tipo de perguntas, vê-se alguém com um livro na mão e pergunta-se “Que estás a fazer?” ou chega-se a casa, e alguém diz-nos logo “Já chegaste?”. De maneira que olhei para ele com a dita cara da cabra a olhar para o palácio e disse-lhe:

- Sabe, deve ser culpa minha, mas não alcancei todo o sentido da sua intervenção. Perguntava-me se não quereria acompanhar-nos durante o almoço e elucidar-nos melhor… – fiz o meu sorrisinho angélico com que geralmente cumprimento a minha senhoria.

Ele então, com um sorriso pesaroso:
- Não queria maçar-vos com isso…

- Não maça nada, será um prazer! – A Zoraima entrara no meu jogo. As caloiras é que pareciam estar a detestar o rumo das coisas. Lá acabámos por nos encaminhar para a cantina da escola mas o pobre homem era alérgico a marisco e não poderia lá almoçar. Fizemo-nos tão desapontadas que ele se viu obrigado a convidar-nos, às sete, para almoçar com ele num restaurante ao pé da escola. Tentámos pedir pratos baratos e meias doses, mas resolvi não o poupar e pedi vinho. Bem merecia, o pedófilo!

Não valeu de grande coisa, afinal. Ao fim da tarde, quando o seminário acabou, dei-me conta de que acabara mesmo por lá deixar esquecido o casaco. Quando entrei, distingui, lá em cima do palco, o orador, agarrado à mais bonita das caloiras. Que se ria feito uma pomba, a inocente. Saí discretamente, morrendo de raiva. De facto, havia um grande desfasamento entre a figura de um orador responsável e a do homem sob essa lustrosa capa. A do homem a quem, a ser realmente conhecido, ninguém passaria diplomas ou daria um canudo.


Abril 2003



quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Pastora de rimas

(Alguém devia debruçar-se sobre a minha relação com a poesia. É tão estranha... a maior parte dos meus poemas fala sobre eu não gostar de ser poeta!) 

Fui pastora de rimas
Amamentei choros
Mugi sonetos até secar.

Já não gosto de poesia. 

Regresso às vírgulas

Lá onde os dias escorrem, lá onde alumia ainda o sol, pode sempre haver regressos aos sítios onde fomos felizes. Um dia como hoje, onde, no meio de muita coisa me vim acolher ao Soncent e lendo um ou outro post, me deu uma saudade de escrever, tal como costumava, com liberdade, de improviso, com alegria! 

Porquê tanta ausência? Ele é o trabalho, ele é o sentir que já ninguém lê, ele é ter que sair do Gmail para fazer log in no Blogger. Que canseira! Deve ser, principalmente, sentir que ninguém lê. 

Porque quando suspeito que alguém vai ler, quando imagino essa pessoa a levantar-se de manhãzinha e a ir, precariamente porque morta de sono, sem nem enfiar as pantufas, em direção à casa de banho e alguma coisa no seu reflexo do espelho lhe sussurra que hoje, por uns minutos, em vez de ver posts dos almoços de cada um, das publicidades disfarçadas, dos artigos de opinião mal amanhados, hoje, por uns minutos, se vai sentir tentada a ler um blog, um lugar onde ela também foi feliz... Então venho eu a correr, sem nem me ver bem ao espelho para pentear a minha cabeleira mediana, que cai pelos ombros, sedosa, macia, encaracolada e crespa, venho, dizia, correndo, sem amarrar as sapatilhas, sentar-me, escrever uma coisa fresquinha, sem nem pôr os óculos, inventar umas rimas, sorrir numas frases compridas, sem nem meter as vírgulas. 

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Durante o exame nacional



-          Chamaste-me? – Perguntou-me ele.

Só se for telepaticamente. Ah, sim! Estou a chamar-te há um bom bocado. Mas bater na tua cadeira, isso não bati. Olhei para o teu cabelo, repeti o teu nome cem vezes dentro de mim, fitei por uma data de minutos o lugar onde deves ter uma glândula que é conhecida como o terceiro olho. 

Vê lá se não sentiste. 

Admirei-te o desenho das costas, contei os pelos fininhos do teu pescoço, admirei a alvura da tua camisa e as tuas orelhas alinhadas. Mas a sério que não bati na tua cadeira, pelo menos por querer. Mas foi bom teres-te virado para mim porque tens uns olhos lindos de morrer e não me importava de me perder neles e ter que te pedir ajuda para me encontrar outra vez. E voltar a perder-me. Mas como estas verdades não se dizem assim, fiz um não com cabeça. E viraste-te de novo para a frente, certamente também empancado na pergunta oito. Exercício difícil, custou-me a resolver. Daqui a nada, a professora virá para perto de nós e hei-de lhe perguntar se é assim. Num exame como este, ela não se recusará a dar um help

terça-feira, 16 de setembro de 2014

O combate das letas C e K

Miraram-se silenciosamente. O ringue estava decorado com laços coloridos. 

A K estava toda ela pimpona. Ninguém podia negar a sua beleza e fotogenia. Tinha o apoio dos especialistas do crioulo, estava na moda. 

A C tinha anos e anos de existência entre os latinos. Os bébés começavam a lidar com ela assim que aprendiam a dizer mamã e papá. Diziam, cândidos e sorridentes: Côcó. Era a terceira do alfabeto. a Terceira!!
Aliás, nem só os humanos conseguem usar a C. Até as galinhas que quase não t~em cérebro, conseguem dominar e letra nos seus caracacá.

O sino soou finalmente. 

Embora a guerra existisse já há muitos anos, desta vez, elas iriam dar e apanhar pancada. E se havia coisa que a C queria fazer era bater, bater na K. com força! Calapadas e cabeçadas! Curtas e calientes!