Soncent

Soncent

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

As lágrimas saltam


Nesta segunda molhada
As lágrimas saltam
Dos olhos aos óculos,

E salgam os sulcos
Do rosto triste

 
Lá fora chove
E o cinzento condiz
Com os ânimos de quem perdeu
Tão jovem, o Dénis.

 
Que veio para tão pouco tempo
Estar entre nós
E ninguém nos disse.  

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Matar o PT


Às vezes há que matar o português. Para escreveres tal como ouves. Tal como te dita o grilo falante, tens que matar o português, dar-lhe com um pau na cabeça. Mata-o, afoga-o. Escreve o que queres, como queres.

Abandono


 
Votar-me-ei ao abandono dos teus lábios, suaves, nunca apaixonados.
Votar-me-ei ao abandono dos teus braços, cálidos, nunca quentes, ainda que válidos como aliados.
Votar-me-ei enfim aos teus sorrisos nunca rasgados, réus dos meus julgamentos nunca sábios.

Apresentação do livro Fantasmas e Fantasias do Brumário

 
 
 
 


Aqui há umas semanas, fui uma dos coapresentadores, na Assomada. Como sempre, falei pouco. Ufa, ainda bem, porque dos outros não se pode dizer a mesma coisa, à exceção do Arménio, que não falou de todo.
Foi assim:

 “Pois é, madame, este é o leite de cobra mais fresco que encontrará no mercado.” Cito de cabeça.

 Foi este o “poema” que Arménio Vieira enviou para a coletânea de poesia chamada Destino di Bai que reuniu, em 2009, poesia inédita de Cabo Verde. Eu já não sei que poemas publiquei nesse livro; mas desta frase do Arménio não me esqueci, por ser tão curta e ao mesmo tempo, tão plena de humor, de audácia, por ser tão inesperada num livro de poesia. Ora, extrapolem, multipliquem, elaborem.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Apagam-se as luzes


Apagam-se, uma a uma,
as luzes que nos alumiavam.
Vai descendo, devagar,
a bandeira,
pelo seu mastro menos reto.
 
 Antes que a última luz morra,
vemos por terra, a bandeira.

Morre o homem, fica a obra

Perdemos o Poeta Corsino Fortes. Ficamos com a sua memória gloriosa, de um homem garboso e elegante, com uma forma de ser tão agradável, tão educada, dono de uma pena brilhante. Brilhante!

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Maio incompleto

 
Geralmente os meus posts sobre viagens começam com "Fui ao Fogo" ou "Fui à China", fato consumado, agora vamos descrever, contar, e geralmente, também dizia um monte de coisas boas, isto era tão bonito e aquilo, tão interessante.

Então, o que foi que mudou?

Primeiro, de costume, vou de avião. Um meio de transporte decente, que não cheira a nada, que embora suba nas alturas, não balança, às vezes treme mas não faz ondas. Por oposição, um barco é um barco e a palavra já diz tudo: tresanda a gasóleo queimado, as cadeiras são de plástico, o chão brilha de gordura, a carga está à vista, e faz por nos tirar da nossa zona de conforto, nomeadamente, fazendo por nos tirar coisas do estômago.  Enfim, um barco. Vejam a forma como temos que abrir a boca para o pronunciar. Só isso é prenuncio de coisa má.

E foi de barco que arribei à ilha do Maio, numa sexta feira pouco depois do pôr do sol, vendo o cais ficar mais próximo e pensando que alguma forma haveria de desembarcar se toda a gente, toda a vida, tinha lá desembarcado. 

Ah, pois: esperam que uma onda aproxime o barco, agarram-te debaixo dos braços com um saco e atiram-te para os braços do outro tipo que nos espera em terra firme. E pronto. Não foi desta que caímos entre o barco e o cais e fomos feitos puré.