sexta-feira, 12 de agosto de 2016
Tombou?
Meu mundo, falaram, deu um tombo.
E eu, olhando, deixei meus lábios se afastarem suavemente de meu aparelho.
Mundo que dá tombos? Está tombado, então?
Tombou, sim. Ficou tombado.
Tinha uns arames, uns cabos que o seguravam no meio do éter, meu mundo que era rosa se desprendeu de um desses cabos, tombou, ficou de cabeça para baixo, daqui, parece tudo cinzento.
Meu medo é que os outros cabos se soltem, e meu mundo, feito bola de basquete, bata com força num chão que deve existir algures, abaixo ou acima.
Tenho medo porque eu enjoo.
(Imagem da net)
Memórias a propósito
Por essa razão, não havia hipótese nenhuma desse bendito carro ir à Praia Grande ou à Baía das Gatas durante o festival, de maneira que com sorte, ela dava-me uma boleia até à Rotunda da Ribeira Bote e aí, eu tinha que me acotovelar contra muito boa gente para conseguir entrar numa hiace rumo à Baía.
Apanhava de tudo nessas hiaces. Depois da entrada um bocado selvagem, nós que tínhamos vencido a disputa sentávamo-nos todos muito juntos e já nos permitíamos alguma camaradagem.
Uma vez, a meio do caminho, alguém acendeu a luz do tejadilho e disse "Bar aberto!" Circulou uma garrafa de grogue. Depois a mesma voz disse "Bar fechado" e apagou a luz. Mais um bocado, voltou a abrir o bar e de novo a garrafa circulou.
Passado um momento, ouvíamos já a primeira atuação do Festival: a viúva do Baltazar Lopes cantava "nha manel junquim nha manel do diach" e todos nós dentro da carrinha fazíamos coro "olé lé lé".
Não preciso de vos contar do meu sorriso no escuro.
(Foto da net)
quarta-feira, 10 de agosto de 2016
Sonhos e histórias
Hoje é dia de
escrever poemas tristes e sem glória.
Hoje é dia de choros, hoje levam-se a
enterrar sonhos e histórias.
quarta-feira, 3 de agosto de 2016
Parabéns, Andreia!
Quando há dois anos e tal parti o pé, pensei que fosse ser só desgraças mas graças a esse acidente ganhei duas grandes amigas e uma delas faz aninhos hoje. A Andreia Andrade foi-me visitar a casa, quando éramos praticamente só "conhecidas" e essa visita aqueceu-me o coração até hoje. Descobri uma pessoa imensamente generosa, carinhosa, confidente, divertida e bonita por dentro e por fora. E com a grande vantagem de fazer as vezes de minha irmã cá na Praia, puxando-me a orelha sempre que preciso.
Parabéns, Andreia, que contes muitos mais, com muita saúde e força para continuares a ser essa pessoa muito bonita que tu és!
segunda-feira, 1 de agosto de 2016
Agosto
O mês de agosto é para mim muito especial. Talvez por ser de Soncent, associo este mês às melhores atividades, às festas, festivais, praias, passeios, churrascos... Há já uns dias que a minha ilha me manda mensagens telepáticas. Estou cá na Praia, sinto-me bem na Praia mas este mês pede sempre que esteja no norte.
Tenho imensas saudades da Avenida Marginal, de casa, da minha mãe, da Ribeira do Julião - não sei porquê - da Tutu, da Lena, da Dominika. Sinto também saudades da minha adolescência, coisas que simplesmente já não voltam mais, como as grandes caminhadas que fazíamos para lugares mais ou menos recônditos ou apenas longe.
quarta-feira, 20 de julho de 2016
A gente da Praia - extrato de A Artista
A gente que a recebeu a Artista era boa – o Anacleto era sobrinho do Honório e vivera uns tempos em casa dele, daí sentir que tinha a obrigação de velar pela Imelda. Era um homem sóbrio, careca e bastante queimado pelo sol, com uma perna ligeiramente mais curta que a outra. A Santinha, a mulher dele, era uma santa. Muito protetora, muito decidida a pôr alguma carne nos ossos da priminha, coitadinha, que viera da Boa Vista carregada de queijos, mas estava tão magrinha. A Santinha era muito parecida com o marido, alta, escura, de ombros um pouco largos de mais e umas mãos enormes.
Eles tinham três filhos em casa e a Artista tinha que partilhar o quarto com as duas meninas da casa. Que eram excelentes miúdas. Simpáticas e carinhosas. A Artista é que, até à data, não partilhara nada. Nem quarto, nem sono – acordava por qualquer motivo, muito assustada – não estava acostumada ao barulho todo em casa, não estava acostumada sequer ao suave ressonar da prima Babinha, que sofria de alergias. O susto maior vinha da Roselma, a prima mais velha, que rangia os dentes nos dias das vésperas dos testes na escola. Também estranhava ter que esperar para poder ir à casa de banho, a mesa numerosa, ter que comer o que estivesse na mesa ou ficava com fome.
Eles tinham três filhos em casa e a Artista tinha que partilhar o quarto com as duas meninas da casa. Que eram excelentes miúdas. Simpáticas e carinhosas. A Artista é que, até à data, não partilhara nada. Nem quarto, nem sono – acordava por qualquer motivo, muito assustada – não estava acostumada ao barulho todo em casa, não estava acostumada sequer ao suave ressonar da prima Babinha, que sofria de alergias. O susto maior vinha da Roselma, a prima mais velha, que rangia os dentes nos dias das vésperas dos testes na escola. Também estranhava ter que esperar para poder ir à casa de banho, a mesa numerosa, ter que comer o que estivesse na mesa ou ficava com fome.
segunda-feira, 4 de julho de 2016
Minha campa
Minha campa,
um túmulo sem asa,
vagando sem flor
num mar de jasmins
e outros querubins
caídos
e vaiados por mim.
Minha campa,
má memória de capim,
meu céu fortuito e carmim.
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