Soncent

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segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Oportunismo

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Vinha ontem da casa de uma amiga, passando pelo Palmarejo quando vi um pequeno cortejo: uma senhora e duas meninas transportando um armário, uma mesa de cabeceira e uma mesinha de canto nas suas cabeças.

O armário era relativamente grande, ainda que feito de contraplacado e não de madeira maciça. Entrei pela rua do Suave atrás delas e perguntei à senhora se iam longe. Ofereci-me para as levar, dado que tenho uma carro de caixa aberta. (O famoso Portentoso, que esteve de baixa durante quase três meses).

Eu estava relativamente satisfeita com a minha generosidade espontânea quando a senhora me diz se não a posso ajudar. E eu pergunto "Com o quê?". Ela diz-me "Tenho um filho de dois anos que não fala." E eu pergunto-me "Será que ela pensa que sou médica? É verdade que não estou com um ar muito medicinal, de calções de desporto e um top despretensioso, mas talvez ela..."

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Férias

A sensação inebriante de vir da escola com a bata ou a farda aberta, um ar descabelado porque foi o último dia de aulas antes das férias... quando é que a volto a sentir? Aquela noção clara de que durante mais de três meses, não haveria obrigação maior do que escovar os dentes à noite.. que de resto, era ir à praia quando quisesse, dormir quando desse, brincar por toda a zona, andar de bicicleta por todo o sítio... ir à Praça todos os dias!
 
Agora, sorrio um sorriso interno de excitação contida porque tenho uns diazitos de férias, não é nada que dê para gargalhadas histéricas. Mas vá lá, sempre é sorriso de antecipação.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Espaçosa

Ela era como um porta-bagagens de uma mercedes - espaçosa. Muito pouco tempo depois de a conhecer, já ela queria aparecer na minha casa, ser convidada para entrar. O pior é que eu não resistia ao atrevimento dela, que nunca via nada de mal nas suas maneiras pouco contidas. Não lhe custava nada pedir boleia na rua ou meter conversa com quem estivesse ao seu lado no café. Dava opiniões não solicitadas onde quer que estivesse, nunca se dando conta das caras de pouca amizade que lhe faziam as pessoas.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Memórias dos trovões

Era a noite de 24 de dezembro de 1996. Como muitas vezes acontece, estava a chover, ainda que não copiosamente. Eu e a mamã passeávamos no seu Ford Escort vermelho, a ver o movimento das ruas.
Só valeria ir à ceia muito mais tarde, quando a minha avó, que tinha uma loja da Pracinha da Igreja, se despachasse das vendas tardias.
 
A calçada brilhante refletia as luzes das lojas em que as pessoas se atarefavam, embora já passasse das dez. Por muitas portas saíam as músicas do Jorge Cornetim, marcas obrigatórias da época natalícia. Estava longe de estar frio mas ambas trazíamos casacos.
 
Começaram os relâmpagos, seguidos de trovões. Um, dois, três. A mamã confessou-se com medo. Eu sorri. Ela conduziu mais um bocadinho. Os trovões não paravam. Ficou com mais medo ainda. Eu gargalhava. O que é que poderia acontecer?  Nada, claro.
 
Mas sabem o que fez?
 
Foi a correr para a loja da mãe, que na altura tinha os seus respeitáveis 79 anos. Não procurar agasalho, claro. Conforto, talvez.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Ato de rebeldia

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Num ato de pura rebeldia, deixei o casaco em casa. E para piorar as coisas, parco o carro na primeira vaga, ficando bastante longe da porta. Quando lá chego, estou transida de frio e caí duas vezes dos meus saltos agulha. Da primeira vez para a direita, da segunda vez, para a direita de novo, que posso ser rebelde mas sou coerente.

Joelhos esfolados, um fio de sangue canela abaixo, entro majestosa no pub/lounge/restaurante/escritório do Antunes, que parecia nunca tomar banho mas as camisas iam-se alternando entre vermelhas e pretas, certamente cores fortes para disfarçar as manchas. Mas o cheiro?

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Para o caso de alguém questionar...

Para o caso de alguém algum dia se questionar sobre estes assuntos, vejo toda a pertinência em, desde já, esclarecer que:
 
Se eu fosse para a área da medicina, iria dedicar-me aos dentes. Interessam-me profundamente.
Se não funcionasse, iria dedicar-me às epidemias.
 
Tendo deixado este ponto da minha singela existência devidamente esclarecido, creio que posso agora dedicar-me a esclarecer o seguinte:
 
Se fosse realizadora, nunca faria documentários, que são tendencialmente aborrecidos. Seria realizadora de curtas metragens macabras, creio. Mas com final feliz. Ou não.
 
Se fosse cozinheira, seria da nouvelle cuisine, dessa que depois nos deixa ainda com mais fome, pobres mas ricos de espírito. Ou talvez não. Talvez me dedicasse a cozinhar pratos de enfarta brutos, em panelas enormes em que os ingredientes vêm de carrinho por serem tão pesados.

Suidide Squad

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Há muito que não tinha visto um filme tão mau e tão disparatado como Suicide Squad, que por ter um trailer tão bonito e com uma música fantástica, me pôs na ponta da cadeira durante mais de um ano, à espreita da sua estreia.
 
Eu e o Will Smith vamos ter que ter uma conversinha... a não ser que ele queira dividir o cachet comigo, e mesmo assim, puxo-lhe pelas orelhas enquanto arrumo os dólares todos nos bolsos, no cinto, no sutien, dentro do sapato e nas tranças do meu mui longo cabelo.