Soncent

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quarta-feira, 23 de maio de 2018

Auto-chuviscação ou como a chuva está no nosso ADN

Se agora não me levantar de onde estou e confiar apenas no barulho que vem da rua, está a chover. Não é de esperar que chova em maio, não é hábito, nem vi nuvens pairando no céu. E no entanto, parece que chove. Ouço o ruído suave de gotas caindo no asfalto, ouço o som de pingos na calçada. Ouço ainda a música da água nos mosaicos da varanda. Ouço isso tudo. E por nada me levantarei para ir confirmar se chove ou não. Desligo a luz, recosto-me na cadeira, fecho os olhos e durante instantes de longa meditação, sou uma cabo-verdiana abençoada pela chuva. 

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Mano, acreditas nisso?

Não sei como é que o Blogger apura as estatísticas, mas aparentemente, o país onde mais me lêem é a Rússia...

Menino dado

Nos anos em que me deixei ficar para trás, bolinando de avesso no transverso do perverso do Severo, percebi que dos amplexos só nos restará o convexo: nada mais que algum sexo, nada menos que nenhum nexo. 

Pior ainda: do sexo transviado cresceu-me um quiabo, nasceu-me um nado, dormiu sem nunca haver chorado. Nem sei se houvesse respirado, nem sei se o tivera amado. À terra foi dado, e espero que não lhe tivesse pesado, a esse menino dado. 

Tinha pensado gritar por ti

Eu tinha pensado gritar por ti da minha janela, acender uma fogueira no meu terraço e fazer-te sinais de fumo - os que nunca aprendi a fazer. Eu tinha pensado em estudar as marés para te enviar mensagens numa garrafa de vidro fosco e para tal bebi o vinho que ela trazia dentro e não consegui escrever a carta, deu-me foi para te ir bater à porta, cantando, desgrenhada, chorando, babada, te amando, desesperada. 


quinta-feira, 3 de maio de 2018

O poema

Que o poema surgisse nu e coberto de tinta, parido num instante de pura rotina, carregado do velho que era mais um dia, desvirtuado por olhares cansados de sempre, enlameado de tristezas quotidianas, que o poema surgisse no meio à imundice da mesmice do pó que paira sobre o sol que se põe além, sem ninguém notar ou apreciar. 

Que o poema viesse pronto e nem rimasse, que fosse tonto e nem esboçasse rires e choros de nula espécie. Que viesse o poema como se chega a dor, que se desse o poema como se dá o amor, que ele chovesse como cai a névoa, que nos cobrisse como nos mancha a fé, que nos fodesse como nos suga o IVA, que nos quisesse como se pede a deus, que nos amolgasse como nos odeia a besta. 

segunda-feira, 26 de março de 2018

Um ano de Eileenísticas na RCV


Fez este mês um ano que (quase) todas as quartas-feiras, antes das oito da manhã, e depois à tarde, passa a minha rubrica literária na RCV. Foi um convite do Humberto Santos que aceitei prontamente, achei uma ideia gira, fiquei contente e orgulhosa. 

Nem sempre fácil. Já gravei Eileenísticas no meu telemóvel, no aeroporto de escala entre Boston e São Francisco, com chamadas e avisos no altifalante e pessoas  a arrastar as suas malas por mim. Já as gravei na noite de terça-feira, em casa de gente, porque me tinha esquecido que no dia seguinte era quarta. Já gravei coisas divertidas e coisas mais sérias. E é um encanto encontrar pessoas que comentam comigo o que ouviram. 

Tem sido muito útil para mim porque ao escolher um texto e gravá-lo, sou como que uma editora estranha que o ouve pela primeira vez e o corrige, o repensa, refina. 

Então, obrigada, Humberto Santos! 

(Imagem da net)

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Boas vindas, 2018


Entrei em 2018 com uma flute de champanhe nas mãos, cortesia da Dominika Swolkien, que teve a feliz ideia de juntar pratos diversos num jantar agradável e informal no apartamento em que morei durante uns aninhos mas ao qual ela soube dar uma graça muito superior a qualquer decoração que lhe tivesse feito. Estava, estávamos, está mais que visto, em Soncent, minha ilha adorada. 

De manhã, após uma boa noite de sono, lá estava eu na Praça Nova, cumprimentando aquela malta toda que tinha vindo das festas, desta vez não desmazelados, com os sapatos nas mãos e fatos desfeitos, mas sim muito compostos, não exatamente perfumados mas bastante bem vestidos e pintados. Houve uma ou outra de sapatilhas discretas debaixo dos vestidos, mas de resto não vi manchas de bebidas, gravatas tortas nem ninguém podre de bêbado. Sinal dos tempos. Eu sim, tinha ainda as pálpebras inchadas porque entre a tosse terrível que me acompanhou nesses dias e os cães da Polícia de Intervenção que ladram durante toda a noite por nenhuma razão, não houve sono retemperador para mim. 

De resto, de assinalar a vivacidade da ilha, os preços que nos parecem baratos quando comparados com os da Praia, a minha família com quem é sempre muito bom estar. 

E este blog, que parecia zonzo de sono e agora vai voltar a florescer! 

Beijos e abraços!