
Fui criança na década de oitenta. Aos fins de semana ia ao cinema e saía
sempre entusiasmada. Se fosse um filme de karaté, eu vinha pelo caminho a
imaginar-me karateca. Já tinha estado numa escola de artes marciais, mas tinha considerado
o ensino muito lento para quem queria, como eu, ser ninja. Igualmente, se via
um filme de dança, não conseguia evitar ir para casa dançando pelas ruas. O mal
é que na manhã seguinte, misteriosamente, já estes entusiasmos tinham
desaparecido.
Andei no Liceu na década de noventa. Era o tempo dos empréstimos. Lia
livros emprestados, via filmes emprestados. Lá em casa, tínhamos apenas três
filmes nossos: Carmen, um musical operático que nunca consegui ver até ao fim,
de tão aborrecido que era; A Missão, que sempre me fazia chorar no final, e África Minha, um filme muito bonito, mas
sem legendas. À falta de mais para fazer, via e revia estes últimos dois.