Soncent

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segunda-feira, 15 de junho de 2026

Crónica do empate


 

O problema às vezes é a véspera. Aquela vitória da Alemanha não foi apenas expressiva, foi uma chacina. E a vítima foi um país quase tão pequeno como nós, que também pela primeira vez, ousou estar numa copa do mundo. Daí que quando saio de casa para ir ver o jogo à Kitanda, vou com os pés firmemente no chão. Sem ilusões, sem grandes esperanças. 

 

Mas bastou lá chegar e ver toda a gente de pé a começar a cantar o hino de Cabo Verde que uma centelha de esperança se acendeu, não porque ganhámos mais um jogador, mas porque os que lá estão teriam que estar a sentir tanta energia positiva de tantos corações a bater e a torcer em uníssono. A Liza Vaz tinha os olhos cheios de água, a Cláudia Spencer trazia a energia concentrada de centenas de pilhas Duracell e a Landa gritava “Catchupa” como uma portadora de síndrome de Tourette. Éramos dezenas aí a torcer, a cantar, a dar claque e a gritar que era hoje que iríamos pegar o boi pelos cornos. 

 

Quando aparecia o treinador da Espanha, toda a gente lia nervosismo na sua expressão contida. A na bancada, nem se fala. Cada espanhol era a imagem de quem foi à matança dos bois mas só vieram os touros. 

 

E o Vozinha fez uma defesa, e mais outra, uma terceira, o César a contar os minutos que ainda faltava para aguentarmos o forte e não cairmos. Eu também ia pensado: a esta altura, sete a zero é impossível. A esta altura, seis a zero já não dá. Vá lá que ainda nos marcam um golo. Quando já só faltavam os cinco minutos desconto, toda a gente celebrou. Menos de cinco minutos e estávamos safos! 

 

 Mais para os últimos instantes, começamos a subir mais, a atacar e eu já pensava “Vá lá que ainda lhes marcamos um golo!”

 

Se ao menos tivéssemos tido mais cinco minutos! 

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Como se constrói a história

Quando era adolescente e li sobre os campos de concentração e os judeus a serem mortos, chateei-me. Perguntei: porque foi que eles não se rebelaram? Porque foi que não atacaram os guardas alemães? Certamente alguns teriam morrido, mas a maioria conseguiria sair pelos portões e salvar-se. Já não me lembro de quem me esclareceu que os judeus não foram enviados para os campos de um dia para o outro. Foram-lhes tirando um direito hoje, outro depois. Uma ofensa aqui, uma indignidade além. Quando finalmente foram deportados para os campos, eles eram farrapos de quem tinham sido. Sem dignidade, sem espírito de luta. 

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

O erro do músico é apresentado na Praia

 Foi na passada sexta-feira que a Livraria Pedro Cardoso, na pessoa do Dr. Mário Silva, nos acolheu para a apresentação de O Erro do Músico, o meu quarto livro. O Jeff Hessney fez a apresentação, a Carmelinda Gonçalves leu o conto Diário de Bordo e os meus filhos andaram à solta a atazanar toda a gente. Fazer o quê?


quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Ameaça velada

Quando me faltar a ficção, que eu conte a minha vida tal como aconteceu e que o maior floreado seja a escolha de uma palavra inesperada, mas nunca mal empregue ou desmerecida. E quando contar a minha vida tal como foi, que ninguém se venha queixar por se achar feio na descrição. Não guardei todas as facadas que recebi, mas levo as minhas cicatrizes a sério e não tenho culpa se muitos as assinaram sem pudor. 

terça-feira, 19 de agosto de 2025

Mais uma antologia

 Participei numa antologia que será apresentada a 27 de agosto em Maputo! Pois é, lá porque não tenho escrito neste blog velhinho não significa que eu mesma esteja velhinha, sentada algures com uma manta sobre as minhas pernonas! Nada disso. Ando é deitada a ver Netflix! 

De todas as formas, escrevi tanto quando era mais nova que posso perfeitamente chegar as 50 e participar em antologias - quem sabe até lançar um livro novo em outubro - sem escrever nada novo sob o sol, bastando para isso que não se incendiem os meus discos duros. 

Donde, este livro com um título tão bonito - Construir amanhã com barro de dentro - vozes do pós-independência - que reúne trabalhos de escritor@s de Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. 


Passeio pelas ilhas

 Fui de férias à Boa Vista e pareceu ser um bom motivo para andar a publicar fotos, estando ela na minha cimeira pessoal de ilhas preferidas e mais lindas cá do sítio - Boa Vista e Santo Antão - as duas empoleiradas lá no cimo, Santo Antão com uma grande sobrancelha levantada, olhando para as planícies e dizendo "Como? Como? Com esses pontinhos castanhos que são os teus montes, nem uma montanha para fazer bonito?" Mas a Boa Vista sorri preguiçosa e responde "E onde estão as tuas praias de areia branca e o teu mar tranquilo, e onde, entre tantos pinheiros, se vê uma palmeira arqueada?" 

Depois foi o que foi em São Vicente e todas as publicações pareceram-me insensíveis e fúteis. O que me aqueceu o coração foi ver tanta solidariedade para com a minha ilha. Eu estava lá nessa noite de domingo para segunda. Era para ter ido a Santo Antão com a minha mãe mas ela lera algures que havia um mau tempo a caminho e parece que fui a única a acreditar. Foi assim que conseguimos andar a pôr tapetes no chão e toalhas nas janelas para impedir a entrada de água durante a noite. Mas nenhuma de nós podia imaginar o que se passava mais abaixo na cidades e nos arredores. Os dramas, eu vi foi na televisão, junto com todos os outros de nós, estarrecidos e de coração partido. 



quinta-feira, 4 de maio de 2023

Pesadelos disfarçados

 Minha gente! 


Saibam que a minha ausência tem pouco de ingratidão e muito de tecnológica: não andava a conseguir entrar no blog.  Entrando, pode parecer que agora vão chover posts, mas já sabem, a era da chuva de posts passou com o Facebook, é assim mesmo. Talvez quando esse morrer, visto que tem vindo a esmorecer a olhos vistos. Mas aí, pode ser que a Inteligência Artificial tenha tomado conta de todas as nossas comunicações e o ato de ler se torne fútil ou mesmo perigoso... que sei eu? 

O meu colchão está mole. Mole de ambos os lados, mas com uma faixa de alguma firmeza ainda no meio, uns 20 centímetros, para onde me arrasto durante a noite, para ter algum conforto. Às vezes não consigo lá caber, e fico deitada num declive. Nesses momentos, tenho a tendência para ter pesadelos disfarçados de sonhos, que é quando o sonho parece a estar a correr muito bem, está até entretido, quando de repente dá uma volta e estamos face a uma situação muito cabeluda, como a desta noite, em que estava num sítio com uma amiga, parecia uma feira, um lugar animado e cheio de gente. 

A minha filha tinha dormido em casa de terceiros e trouxeram-na com a mesma roupa do dia anterior para eu a levar assim para a escola. Portanto, o drama era: ai, estás com a roupa de ontem e despenteada! Pois, nisso, ela vai a cumprimentar outras pessoas, eu e a minha amiga, não me lembro por que razão, somos apreendidas pela autoridade lá do sítio que nos explica que o que tínhamos andado a fazer era crime punível com a morte e chama uma senhora que até tinha um bom ar que entra com uma palmatória com uns enfeites vermelhos. O homem da autoridade diz-nos: Vocês irão apanhar 3 pancadas na cabeça. 

segunda-feira, 7 de junho de 2021

As minhas participações em colectâneas de ensaios

                        2019                                                                                2021


 

As minhas publicações em prosa

2007                                                                            2014



 2017

As minhas participações em livros de poesia





 2008, 2008, 2010, 2011, 2016. 

terça-feira, 4 de maio de 2021

Arte, cultura e património africanos

Amanhã estou convidada a participar no Webinar: Arte, cultura e património: alavancas para construir a África que queremos. O debate visa marcar o dia do Património Mundial de África e irá reunir 200 participantes da África e diáspora, sobretudo jovens, e é organizado pelo Presidente do Fundo do Património Mundial de África. Tem como parceiros a UNESCO e a ICCROM. O webinar consistirá em apresentações orais interativas de jovens participantes e especialistas de diferentes áreas (por exemplo, negócios, liderança, património, etc.) combinadas com discussões dos participantes. Podem assistir aqui:

Vou entrar lá no finalzinho e o chato é que amanhã também tenho de ir fazer análises ao Hospital, pelo que se calhar vou entrar de seringa no braço e muito pálida, porque a mim, o jejum não me faz bem.

segunda-feira, 26 de abril de 2021

A poesia está em tudo


 O Pelouro da Cultura da Câmara Municipal da Praia organizou uma tertúlia literária na passada sexta feira, ao final da tarde e foi super interessante. Tive a honra de ser convidada mas sobretudo, tive o prazer de ouvir a Augusta Évora - que eu não conhecia, infelizmente - e o Eddyoung Lennon numa troca sobre o slam, o rap urbano, o uso da língua cabo-verdeana, o espaço da poesia quando nos recusamos a seguir regras, métricas e rimas. Já eu estive no mesmo painel que o Dany Spínola e falamos também sobre poesia, erotismo, a exposição de nós mesmos enquanto artistas.
A vereadora Chissana Magalhães voltou a vestir a pele de jornalista, moderando os dois painéis e foi simplesmente uma delícia!

It takes two to tango

 Há um novo agregador de notícias em Cabo Verde, o Balai.cv, criado por uma equipa de profissionais capazes e de quem gosto muito (pelos menos das que conheço!)

Para o Balai foi este texto abaixo, que aqui publico para "arquivo", por assim dizer. 


Uma vez fui passar férias a Barcelona. Aluguei um quarto numa casa de estudantes, na cidade vizinha de Badalona. A dona da casa apresentou-me a alguns amigos, um dos quais participava de uma coisa que não era bem dança, nem teatro, não exatamente expressão corporal nem nada que eu conhecesse antes, razão pela qual ele conseguiu convencer-me e ir experimentar. A primeira dificuldade que tive foi que a aula era dada em catalão. Eu pensei que iria perceber, mas não captava quase nada. De qualquer forma, não era muito complicado: íamos fazer uns exercícios que consistiam em formarmos grupos de 5 pessoas. Iriamos experimentar as diferentes estações do ano: uma pessoa ficaria no meio, as outras quatro à volta e seguindo as indicações da instrutora, tocaríamos em quem estava no meio como se fôssemos o sol a aquecer-lhe a pele no verão, depois sopraríamos sobre ela como o vento do outono, com as pontas dos dedos imitaríamos as gotas de chuva do inverno e por assim em diante. Eu até estava a gostar um bocadinho, não era tão divertido como as aulas de teatro que já tinha tido, mas era algo diferente e as pessoas eram simpáticas.

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Nomes nobres

Não sei se sabem, mas os nomes dos cães devem ter apenas uma sílaba, ou duas, no máximo, para que eles tenham facilidade em se identificarem com o nome. Eu sei disto há uns anos, e sigo fielmente.
Agora, uma coisa é o nome que o cão sabe que tem, outra, é o nome que dou ao cão. Aos meus machos, dou nomes curtos, como o Onu ou Simba. Mas as cadelas, quanto mais rafeiras, mais capricho na nomenclatura, para lhes dar, por assim dizer, uma certa nobreza, sabem?
Assim, a Taska era Taska Txukelindra Buruntumas Barbosa. E a Tigra, Tigra Cristina Simone Almeida Barbosa.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

O meu parto

A minha menina fez 9 meses hoje. Tem sido uma alegria. É a bebé mais bem-disposta que já conheci. Sorri a toda a hora, sorri com toda a gente. 

Foram meses de muito amor e aprendizagem. Mas também nove meses a pensar se haveria ou não de escrever sobre o meu parto. Tive hipóteses de ir ter a bebé a São Vicente, a Portugal, nos Estados Unidos. Mas optei pela Praia porque é onde moro, porque queria parir e vir para a minha casa, onde tudo estava preparado para ela. Tinha sido avisada que as enfermeiras não eram particularmente carinhosas, mas imaginei que compensaria poder regressar logo a casa. 

Fiz aulas de preparação de parto. Aprendi a usar a bola medicinal durante as contrações. Foi-me dito que deveria levar duas malas ao hospital: uma para mim, outra para a bebé. 

terça-feira, 2 de junho de 2020

Benjaminice Clementina - cuidado que pode pegar

Benjamin Clementine | Athens | May 25 | What's On | ekathimerini.com


Repescado do Facebook:

Estou com um caso gravíssimo de Benjaminice Clementina. Este rapaz parece filho da Nina Simone e do Damien Rice. Eu sou a madrinha e vou andar com ele ao colo; o piano, puxá-lo-ei por um cabo de aço. Mantê-lo-ei acordado à noite, coitado, para me embalar. E quando ninguém estiver a ver, vou cantar junto com ele.

(Imagem da internet, net, para os amigos.)

quarta-feira, 6 de maio de 2020

A fada do lar


A minha vida em tempos de COVID-19 tem sido exatamente aquela que sempre desprezei: a mulher que não sai de casa, que passa os dias todos iguais, a cuidar da criança, a varrer, a limpar, a dar banho e a “ver novela”: séries de água com açúcar porque desde que pari, toda a violência me choca; em contrapartida, basta que apareça um bebé na tela para que eu me derreta.

A minha bebé celebrou seis meses sob o signo do confinamento: houve um bolo comido apenas por dois; houve um vestido que apenas serviu para a foto. Mas ela riu-se toda e pousou orgulhosa. Suponho que ela nunca foi mais feliz, na sua curta vida: tem a sua mamã o tempo todo ao seu lado. E tem a novidade de ter um papá muito próximo, a brincar com ela todos os dias, a deixá-la explorar-lhe a barba farta, que ela adora! Para ela, ele é o parque das diversões. Para mim, é quem cozinha e lava a loiça. As coisas funcionam muito bem.

Tempos de confinamento

Dior Addict Eau de Parfum (2014) Christian Dior perfume - a ...



Tempos de confinamento, oitava semana. Noto que passei praticamente todos os dias vestida da mesma forma – calções e t-shirt, tudo amachucado, claro, quem é que anda a passar a ferro? O meu cabelo também é uma sombra do que foi: invariavelmente, está preso num rabo de cavalo feito à pressa, porque há-que limpar e varrer e lavar o chão e a bebé fica sempre a interromper.

Não sei quando foi que pus batom pela última vez, quanto mais outras coisas. Nas duas primeiras semanas pintei as unhas dos pés, depois achei que o importante era estarem limpas e pus apenas um verniz transparente. Nas mãos, mantenho as unhas curtas para não magoar a criança. Refletindo nisso tudo, resolvo, ontem, tomar um banho antes do almoço, pentear-me e escolho o meu perfume mais caro: Addict, de Christian Dior. Como sei que é forte, esguichei apenas atrás do pescoço e depois, com os dedos, toquei aí e pus atrás das orelhas e nos pulsos. Estamos ainda no início do almoço quando ele me diz, uma expressão de incómodo no rosto:

- Estás a usar um desodorizante diferente?
- É perfume! Não gostas?
E ele, responde logo:
- Não, não é isso. É bom. – A seguir levanta-se da mesa e oiço-o dizer, a voz de quem está a pensar alto:
- Ainda bem que não perguntei se era flit.

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Coerência ateísta

É assim: aceito trocar prendas e ir aos jantares mas não posso desejar “Feliz Natal” porque sou ateísta e tem que haver coerência. Por outro lado, aos imensos postais virtuais que me enviam juntamente com mais 672 pessoas, não respondo, porque ainda sou do tempo de pegar no telefone e telefonar às pessoas muitos próximas e mandar SMS às um pouco mais distante e às mais distantes ainda não vejo o interesse em ser mais uma.

Por outro lado, lá porque tive uma bebé não significa que a época ganhou outro brilho mas pode ser que ganhe outra dor de cabeça quando ela for maior.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Bate coração - ou bem-vinda ao medo de todas as mães

Vejo toda a gente a andar por aí com relógios que lhes medem as batidas do coração e o exercício que fazem e as horas de sono... eu para mim, não preciso de nada disso.  Do meu coração eu sei dar conta sozinha. Queria era ter um monitor que andasse a medir o coração e a respiração da minha filha. É com cada suspiro dela que me preocupo.