Soncent

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quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Ode e cornos a Soncent

Muita gente conhece a minha paixão por Soncent; os mais próximos sabem que escolhi viver cá, trabalhar cá, nem que para isso tenha que ganhar menos dinheiro, não ter cinema, e estar na periferia de um certo mundo. Tenho um outro mundo aqui. Gosto da familiaridade que sinto quando ando nas ruas, gosto de conhecer as pessoas pelos carros que conduzem, gosto de chegar a qualquer sítio e ver caras familiares, mesmo que não lhes saiba os nomes. Sei ao menos dizer que são pais de fulano, ou vizinhos de Sicrano, ou que trabalham na empresa X.CV, Lda.




Dizem que vivendo cá, dá-se para trás; que não há desenvolvimento, emprego, que não se avança, que as pessoas não se preocupam com o trabalho, que é só paródia e conversas fáceis. Que tão cedo, a ilha não irá desembarcar, que o aeroporto internacional tão cedo não descolará. Pois. Muito disto é verdade. E sim, há alturas do ano em que faz muito vento. Mas...




Se saio de casa à noite e entro no MindelHotel, o ambiente é tão caloroso quanto é boa a música. Vou à discoteca depois e estou lá à-vontade, o mais perigoso que me pode acontecer é uma moça de salto alto pisar-me um dedo.

Saio, vou a pé para casa, sozinha, e chego inteira. Não preciso de sair com casaco, porque está quente. De manhã, vou à Laginha e está o máximo. Caras sorridentes por todo o lado, alguns jogam na areia, muita gente desfruta da água limpa. Sentar-se na Caravela para beber algo? Claro, porque não? Apanhar um carro mais logo para o Calhau? Venga! São Pedro? Se não há vento, é a melhor das praias.

Etc, etc.




Ainda assim, confesso, sim, bem que fantasiei com um verão inteiro passado em Barcelona...

5 comentários:

Anónimo disse...

É verdade. Com tanto desleixo ainda Cabo Verde, com todo este potencial, gente inteligentíssima, vai ficar-se pelo Pims e pelos outros bares. Há um mundo desenvolvido fora dalí, sabem? De cientistas, de progresso, de nojo a ignorância. Na minha opinião, o Cabo-verdiano está a tornar-se o animal mais preguiçoso do universo e, não tarda nada que cosmopolitas que vivam na vanguarda da tecnologia e desenvolvimento humano se apoderem do sítio como casa de férias. Um sonho, um paraíso! E eu adoro. Se os africanos não conseguem contribuir de onde estão para o desenvolvimento humano, que se extingam e dêem lugar aos mais aptos. Que criaturas ingénuas! Tomara que isto aconteça. Talvez tenham razão: passa sabe morre ca nada. Mas eu prefiro morrer a ter de morrer um nada a ter de ser um nada.

Eileen disse...

Há de tudo por cá, assim como os há noutros sítios. Há ignorantes preguiçosos aqui, na Áustria, no Zimbabwé, passando pelo Brasil, pela Dinamarca... heheh
Levantas uma questão complicada com essa de os africanos não contribuírem para o desenvolvimento humano... dava uma grande discussão, mas eu ia apenas lembrar-te que no mundo ocidental, temos vivido pela bitola dos países europeus, considerando ser essa a forma correcta de organização social, etc. Os africanos têm sido obrigados a mudar para acompanhar o desenvolvimento, e essa mudança não se dá de um dia para o outro. Gostava de te ver um dia a reconciliar-te com o teu torrão natal... ou a vir trabalhar para o melhorar. Criticar de longe é bem mais fácil...

Anónimo disse...

Não estou assim tão longe quanto possa parecer. Todavia, confesso que muitas vezes tenho esses surtos de raiva contra tanta gente que, em lhes dando o devido tempo, perigam em tornar essa terra tão bonita e da qual tanto gostas e para a qual acabas de sacrificar, talvez, a tua juventude, num desterro de ignorância. Esforço-me por não entrar em contacto muito por causa disto e porque a contenção não é uma virtude que eu, infelizmente, desenvolvi (vou tentando). Também não quero ferir susceptibilidades. No final de contas, a minha vontade é entregar-lhes tudo nas mãos. Uma coisa é certa: o capital não precisa de autorização de permanência nem de se nacionalizar no nosso país, para arregatá-lo de vez e por dois tostões. Quanto a reconciliação e a voltar, se tivesse pensado assim, não estaria a fazer o que faço. Não haverá oferta de emprego para a minha formação profissional. Talvez os meus sobrinhos não tenham de sair como tu ou como eu. Afinal de contas, de CV para PT, um salto para baixo e para o país mais mediocre e piroso deste planeta. É tão depressivo andar aqui que tenho de me conter para não gritar a todo o momento para essa ralé, motivo de troça, de todo o universo (falo de PT). Vou sair daqui quando terminar isto, claro. Só não sei para onde vou.
Espero que da maneira como escrevo, vocês notem que, apesar do meu azedume, fazem-me muita falta.

Kuskas disse...

Oi Eileen
Não sei quem é esse anonimo, mas ele ou ela DECIDIDAMENTE NÃO CONHECE A AFRICA. Não conhece o continente Africano e pelos vistos deve aceitar numa boa quando um "branco" lhe diz que não é capaz de fazer tal coisa~só porque é negro.

Eu sou da opinião que os Cabo-verdianos precisam parar de pensar que já atingimos o nosso maximo( afinal das contas somos PDM) pois no dia e que isso acontecer podemos morrer. Ainda há muito a se fazer por este pais e admiro pessoas como tu Eileen que se recusam a sair do seu berço para ir trabalhar para outros sitios só para ganhar mais dinheiro, mais prestigio, mais conhecimento e o bla bla que costumam dizer.

Há muito boa gente que está aqui na capital Praia ou então em Lisboa, onde há MUITAS oportunidades, mas continuam sendo o que sempre foram: UMAS PORTAS...

Beijinhos

Anónimo disse...

Compreenderam agora porque é que prefiro não fazer contactos deste tipo. Kuskas, conheço muito bem CV (mais do que tu imaginas). Mas não ouvirás falar de gente como eu. Não penso que fosse servir os teus propósitos. Afinal de contas, tens um grilo contra o Conhecimento, a Ciência, a Razão. O prestígio pode nunca chegar, mas este caminho não é trilhado por um qualquer. A Eileen é um daqueles que poderia estar aqui, a doutorar-se por exemplo (quem sabe se um dia ela não o fará). Ela prefere estar alí convosco porque é passional demais com Soncent e com todos os seus amores. Eu, por exemplo, tento domar todas as minhas afinidades emotivas em favor do Conhecimento. É a única forma.