Quando era adolescente e li sobre os campos de concentração e os judeus a serem mortos, chateei-me. Perguntei: porque foi que eles não se rebelaram? Porque foi que não atacaram os guardas alemães? Certamente alguns teriam morrido, mas a maioria conseguiria sair pelos portões e salvar-se. Já não me lembro de quem me esclareceu que os judeus não foram enviados para os campos de um dia para o outro. Foram-lhes tirando um direito hoje, outro depois. Uma ofensa aqui, uma indignidade além. Quando finalmente foram deportados para os campos, eles eram farrapos de quem tinham sido. Sem dignidade, sem espírito de luta.
Daqui a cinquenta ou cem anos, é possível que meninos na escola leiam sobre esta década. Sobre o fim da vida boa de que desfrutamos - pelo menos uma boa maioria dos países, desde o fim da segunda grande guerra. Um ou outro, de entre os mais rebeldes e inconformados, também há de se interrogar: porque foi que as pessoas não se manifestaram? Porque foi que permitiram que um homem, um homem apenas tivesse tanto poder sobre o mundo?
Quem ainda estiver vivo poderá contar: “Sabem, nós até nos demos conta do que estava acontecer. Comentámos uns com os outros. Ficamos indignados. Mas não fizemos nada. Os nossos governos também não. Ele desmandou nas universidades, despediu pessoas sem razões, deportou milhares de pessoas apenas por estarem à procura de uma vida melhor, cortou fundos, saiu de acordos. Comentámos… e deixámos passar. Depois ele entrou dentro de um país, raptou o seu presidente porque ele queria o petróleo e outras riquezas que esse país tinha… E nós, a olhar, incrédulos, sim, mas calados.
E depois foi o descalabro total e o fim da nossa vida tal como nós a conhecíamos.
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