Polimento requerido

Polimento requerido

terça-feira, 1 de Abril de 2014

Insólito no cinema

Ontem decidi de uma hora para a outra, já até passava das oito e meia, que ia ao cinema. Fui de corrida, sem tomar banho ou pôr batom, e chegando lá, os bilhetes já se tinham esgotado. Mas por sorte, um casal tinha desistido e venderam-me um bilhete. 

Entrei na sala já com o filme razoavelmente avançado, a ponto de ter que me sentar nas escadas, pois não ficava bem ir incomodar as pessoas no meio de uma cena de tiros, para chegar à última cadeira que estava livre. 

Lá comecei a adivinhar o que teria acontecido desde o início do filme, com base no que estava a acontecer e no que já tinha visto no trailer. 

No intervalo, muitas pessoas levantaram-se, e eu também me levantei, pronta para ir ocupar uma cadeira vaga quando me apercebi que, em vez de as pessoas saírem para irem comprar bebidas ou pipocas, elas se estavam amontoando junto à tela. Vinte e tal rapazes e raparigas ficaram lá de pé, viradas para nós, depois rapidamente arrumaram-se, formando um triângulo que podia ser percebido como um coração e começaram a cantar "Bo ê cosa mais linda". 

Eu pus-me a olhar à volta, a tentar descobrir a quem era dirigida esta homenagem. Depois de um bocado de música, um dos rapazes, vestido com uma camisola de gola alta lilás e uns jeans, saiu do meio do grupo, pôs-se de joelhos e com uma mão estendida em direcção a uma menina pequenina de afro, disse-lhe "Bo ta ranjá ma mim?" 

Toda a gente dentro do cinema lotado começou a dar palmas mas antes que a moça respondesse, o filme começou a dar outra vez e os rapazes e raparigas tiveram de correr para os seus lugares porque não nos deixavam ver as legendas

quarta-feira, 26 de Março de 2014

Sleepbox


Por alguma razão, gosto de espaços pequenos quando bem pensados, do género dos apartamentos de 40m2 que a Ikea apresenta nas suas lojas.

 Gosto daquelas soluções inteligentes de se aproveitar todos os espaços, gosto da ideia de eficiência numa casa. Gosto, enfim, do conceito de minimalismo aplicado a espaços. 


Talvez por tudo isso, simpatizei desde o início com as Sleepboxs. São caixas de madeira de uns poucos metros quadrados equipados com camas, que podem ser instaladas em aeroportos, hospitais, estações de comboios, centros de conferência e todos os outros sítios onde haja conveniência de se encontrar um sítio acessível, confortável e limpo para umas horas de descanso, de trabalho, de privacidade

Não faço ideia de quanto custam por hora, apenas imagino que seja uma pequena porção do que custa pernoitar num hotel. Passei por elas num aeroporto europeu, Schiphol talvez, fiquei assim encantada a olhar como quem vê um palácio pela primeira vez. (só que no sentido inverso do tamanho, de uma forma transcendente, de uma insustentável grandeza do ser que se reencontra na pequenez dos espaços, dos objectos, certamente explicável, de alguma forma, com quanto tempo de peito eu tive quando bebé)

Imagino-me a entrar numa caixa dessas, com o seu cheirinho quente a madeira à mistura com bons detergentes, passar a mão pela suavidade dos lençóis, depois abrir o meu carry-on, tirar um necessáire, descalçar-me, pôr o despertador para daí a três horas, cobrir-me e dormir, sonhando com as pessoas que passam lá fora, cada uma com um destino, com os pés doridos e as suas preocupações enquanto eu, pequenina, dentro da caixa, feito um bichinho na sua toca, um bebé na sua alcova, quente, protegido, seguro das luzes frias do aeroporto, dos assentos duros, das lojas que querem todo o nosso dinheiro a troco de uma alegria demasiado breve. 

Pena a almofada ser demasiado grossa!

(Fotos do site, http://sleepbox.co.uk/)

Do baú dos escritos

Nós e o trabalho

Feitas as contas, passamos várias horas por dia a preparar-nos para o trabalho, a tentar lá chegar, e a fazer pausas, horas essas nas quais não produzimos e pelas quais também não somos pagos.

Agora que é possível fazer uma série de trabalhos em casa, as entidades empregadoras estão ainda amarradas ao medo de nos deixarmos amolecer no nosso sofá e preferem-nos pasmando frente ao computador, no escritório, que trabalhando uma hora e meia e fazendo uma pausa para fazer a cama, mais uma hora e meia e fazendo uma pausa para pôr a roupa na máquina. 

E nós, de olhos em bico no nosso salário no fim do mês, lá aceitamos tudo caladinhos. Quem dá um berro é logo visto como um louco, que não se preocupa se vai ter tutu no fim do mês para pagar a renda. Ou será que só eu penso assim e o resto da malta está muito feliz com semanas, meses, anos, décadas a ter que estar no local de trabalho 8 horas por dia?



13 de Julho de 2007

terça-feira, 18 de Março de 2014

Biografias

Nunca tinha sido de ler biografias um bocado porque nunca me tinha encontrado com elas, eu que a maior parte da vida li assim meio à toa, li os livros que vieram ter comigo, que caíram das estantes quando lhes pus os olhos em cima. 

Uma que recentemente fez um barulhão para que a levasse foi a do Steve Jobs. Tanto insistiu que a levei comigo e se no começo, custou a arrancar, depois arrancou foi bem e andei a falar a todos do Jobs durante uns tempos até me chamarem a atenção. Vocês não precisam que o recomende, pois não? Está visto que é obrigatório de se ler, e ando há umas semanas a ver o filme. De cada vez vejo uns dez minutos, penso "isto no livro não era assim" e da próxima vez tenho que rebobinar até me lembrar de onde estava. 

Agora estou a ler o Longo Caminho para a Liberdade e o que mais me surpreendeu é a simplicidade da escrita de Nelson Mandela. Não sei se imaginei que ele cairia na tentação de uma escrita mais elaborada apenas por lhe ser mais fácil. Mas ele consegue contar a história com palavras que usamos no dia a dia e vejo-me imersa, de algum modo, naquelas dias escuros da África do Sul. Com o suspense de quem vivia nesses dias, que é um dos grandes indicadores de um bom romance, ficcional ou não. Ou de uma boa biografia. 


Sussuro não sussurrado

Traí-te de todas as vezes em que te cantei uma música que era minha e dele e não nossa.

De todas as vezes em que te fiz parte de uma historieta que inventámos, eu e ele. E fi-lo muitas vezes, porque era a minha forma de não morrer, de manter alguma coisa viva desse grande amor que tive, com ele, e o que nós temos não chega a ser uma pálida sombra.

Tantas vezes estive contigo com o olhar para o longe, sentido uma tristeza enorme oprimindo-me o peito porque quando estava com ele, o resto do mundo simplesmente não existia.

Mas contigo, não só o mundo todo existe e está presente, como o que há para ti são os restos de mim. Dizes-me que tenho que aceitar que as coisas acabaram com ele, mas… Bem vês que um amor assim, não acaba pura e simplesmente. Fazemo-lo dormir, embalamo-lo, mas ele às vezes abre um olho, chora… como um bebé de colo. Que nos é tão querido que temos que o apanhar, que o pôr entre os braços.


27 de Março de 2007

terça-feira, 11 de Março de 2014

Chefes I

Contando com os estágios e descontado a escola, já tive, entre chefes e subchefes, mais de 10 pessoas a liderar-me. Ou a mandar em mim, como alguns deles terão pensado. 

Com 10 chefias, já devo algumas historias para contar, algumas lições aprendidas e queixas para fazer!

Dois dos meus chefes conseguiram verdadeiramente, liderar-me, sem nunca me pesarem. Davam instruções como quem dá sugestões. Um deles então estava quase sempre longe e envia-me e-mails onde me dizia "podias fazer isto e depois fazer aquilo..." Era o Tom. Sem Dr. nem Sr. 

Tive um chefe, o Victor, que era o pesadelo em cabelos pretos. Começou por entrar na minha sala sem bater, como que a querer apanhar-me a fazer alguma coisa de muito horrorosa, sei lá, quem sabe, uma posição de yoga, no chão, ou a limpar o nariz, ou, pior ainda, a falar ao telefone. 

Depois passou a ostracizar-me. De vez em quando dizia-me que não sabia quais eram as minhas funções quando eu me dera ao trabalho, poucos dias depois de ele chegar, de lhe apresentar todo o meu plano de trabalho, com prazos e objetivos. 

Depois dispensou-me de assistir a qualquer reunião. Obrigou-me a prestar contas sempre que me ausentava da minha sala, fosse para ir tomar um café ou à casa de banho. Finalmente, pôs-me numa mesa, na recepção, a atender pessoas. Este homem era tão terrível que passei a acordar e pensar "Que chatice, tenho que ir trabalhar!" 

Para relaxar um pouco dele e porque os seus chefes tardavam em tomar alguma medida mesmo quando viram que ele começara por mim mas já se tinha incompatibilizado com quase toda a gente, fui passar um fim de semana à Boa Vista. Cheguei, desci do avião e quem é que estava lá no aeroporto, a olhar para mim? Uma mulher de lenço na cabeça que eu julguei ser o Victor e já ia subindo de novo para o avião! 

Lições aprendidas? Não confies mais num profissional só por ser estrangeiro. E é com chefes assim que descobrimos se somos o capuchinho... ou o lobo mau. 


quinta-feira, 20 de Fevereiro de 2014

Um furo, dois furos, três furos

Alguém, dando-se conta da minha eterna seriedade do ser, aconselhou-me a viver a minha adolescência. Sem as considerações todas que possamos fazer sobre o tema, saí, passei numa loja de jóias para consertar uns brincos e saí de lá não só de brincos novos, mas com mais um furo numa orelha, exactamente 10 anos depois de ter feito os primeiros furos.

E decidi que de dez em dez anos, farei um novo furinho. É verdade que vai para dois meses e este ainda não sarou, mas daqui a dez anos, quem se lembrará deste pormenor? É também verdade que entre o que as videntes me dizem - que tenho a vida longa - e o que a natureza me deu - orelhas pequenas - posso vir a ter ligeiros constrangimentos de espaço se continuar com esta determinação.

E depois, daqui a algumas dezenas de anos, parecerei alguém que, em vez de não ter vivido a sua adolescência, a vive todos os dias: com brinquinhos multicolores ao longo de ambas as orelhas, olha aquela senhora louca! 

Paleio a meio da manhã.

Às pessoas que torcem o nariz quando lhes digo que o meu segundo e terceiro livros serão de contos, digo-lhes que estes são tão literários como os romances. Enfim, defendo o conto como uma contista. Enfim, não confesso que não tenho fôlego para um romance. 

Mas já tive um romance quase que escrito. Alinhavado. A quatro mãos. 

Tudo aconteceu quando estava em Faro, a licenciar-me e correspondia-me com um mestrando ou doutorando - já nem sei - que se encontrava em Lisboa. Não nos escrevíamos todos os dias, havia alguma espera, mas escrevíamos sobre tudo - amores e desamores, a escola, a vida, a filosofia, a política, a poesia. Ele era a voz do mais velho, que me aconselhava, que me ouvia, mas era também aquele que vivia através das minhas palavras: deleitava-se com a minha vida, com as descrições que eu fazia do ambiente de estudantes, de uma cidade diferente, dos meus casos. Beijava com a minha boca, via com os meus olhos, tinha a experiência de uma estudante universitária em Portugal que ele nunca poderia ter tido. 

De maneira que quando peguei em quatro anos de e-mails trocados, pensei em fazer mais um livro de Cartas-trocadas-entre-fulano-e-sicrana, mas... os conteúdos eram tão reveladores, tão íntimos e pessoais e sinceros que eu lhe daria cabo pelo menos do casamento, se não fosse da sua reputação e sei lá do quê mais. 

Este paleio todo porque de um certo ponto de vista enviesado, só não sou romancista para proteger terceiros, o que é sempre uma forma muito honrada de não se ser autor. 

Aves amarradas

Os coqueiros são as girafas da flora? São um tipo de aves que se amarraram ao chão e criam plumas mais duras e os testículos lhes nascem, pesam e caem? São, sim, as minhas árvores preferidas.

segunda-feira, 17 de Fevereiro de 2014

Uma mais um


O primogénito da Taska diferenciou-se dos irmãos por ser de longe o mais bonito, esperto, o primeiro a abrir os olhos e a comer sólidos. Quis ficar com ele, quiseram ficar com ele, e eu, num raro acesso de generosidade, ofereci-o ao Ten, que, ainda bem, ficou a morar na cave da casa da minha mãe. Assim, sempre que ia a Soncent, brincava com este meu neto. Agora, ele vive comigo na Praia. É mal-educado, brutalhão mas super cheio de energia e muito carinhoso.

A adverbial declaração do ser

Musicalmente, sou pessoa de piano e violino, embora o meu maior fraco seja a voz melódica. Esteticamente, sou de cores fortes, masculinamente, sou de pernas fortes, minusculamente, de miniaturas de perfumes, financeiramente, de poupanças, metaforicamente, sou uma gata, geograficamente, sou de ilhas, climatericamente, de calor, eletricamente, sou positiva, negativamente, sou do contra, geometricamente, sou uma recta, dubiamente, sou um pouco louca. Adverbialmente, sou de regressos.


Viram que regressei, musicalmente, esteticamente, regressantemente, inventando palavras, o que irrita solenemente os puritanos da língua e a mãezinha?

Atira sal café adentro

A minha poesia seria divertida se não fosse escrita a chorar.

quarta-feira, 16 de Outubro de 2013

Romances vs espionagem


Li, na vida, muitos mais livros de espionagem que romances de amor e o engraçado é que, sendo ambos bom entretenimento e tendo todos algum suspense, aventura e romance, está assente que nos romances, os casos de amor vão ter que durar a vida toda enquanto os espiões não se podem agarrar aos personagens deste livro, porque no próximo, têm que estar solteiros e disponíveis para as próximas aventuras… Já imaginaram o Bond, casado?  
 
Uma das minhas personagens favoritas de espionagem era uma tal de Baby, uma loura escultural que tanto poderia aparecer também morena ou ruiva sem que o cabelo dela ressecasse ou a peruca fosse evidente. A Baby era daquelas espiãs que sabe fazer tudo, desde guiar helicópteros, barcos, motas de água a falar russo, espanhol e francês e conseguia sempre escapar das armadilhas, geralmente sem muitas cicatrizes.
 
 
Já um dos meus romances favoritos foi um cujos personagens de conhecem batendo com o carro um no outro, numa tempestade de neve e implicam imediatamente um com o outro. No entanto, como o tempo não está para brincadeiras, têm que ir para um casarão abandonado lá perto e tentar acender uma fogueira para se manterem aquecidos... ai, os romances! Sempre nas cenas de mais angústia, eu sentia uma dorzinha aguda algures no peito mas quando era o caso da minha mãe, já eu agia com muita frieza: trazia o livro para casa, lia-o e ela depois tomava para ler.

A meio da leitura, eu resolvia que tinha que devolver o livro para tomar outro, então ela ficava sem ler o fim e quando me admoestava, eu respondia logo:
 
 
- Não te preocupes: eles ficaram juntos no final!

quinta-feira, 6 de Junho de 2013

Saudades a despropósito VII


O culminar de um dia de trabalho era a novela, que dava às nove da noite. Creio que era o momento em que elas se esqueciam das suas vidas de empregadas domésticas, em que elas encarnavam nas heroínas brasileiras, em que elas choravam junto com as escravas ou rejubilavam com os sucessos da menina pobre que casou com o mocinho.
 Do que me lembro é de estarmos na Praça Nova, com as nossas bicicletas reluzentes e a certa hora, a Da Cruz e a Ma Bia começarem a dizer-nos para darmos a nossa última volta, porque já está na hora de irmos para casa.
 
Mas a Praça era o paraíso para crianças como nós, então íamos ficando, íamos fugindo delas e os minutos escorriam até que elas, desesperadas e chateadas, nos pegavam por um braço, pegavam nas bicicletas com a outra mão e voavam calçada acima até o Alto de São Nicolau, onde, esbaforidas, suadas pelo esforço, subiam mais umas escadas para as casas vizinhas onde trabalhavam. Atiravam a bicicleta para alguma varanda e entravam na sala, onde a patroa já estava sentada no sofá a ver a novela.
 
A Da Cruz, a nossa, sentava-se então na alcatifa, pernas estendidas, e embarcava na trama. Todas nós na casa, e praticamente toda a gente na zona, na ilha, no país, atentos ao ecrã durante uma hora, sabendo os nomes de todos os personagens, amando uns e odiando outros, rindo-nos às claras e chorando às escondidas.

segunda-feira, 13 de Maio de 2013

Saudades a despropósito VI

O meu jardim de infância tinha um pátio em cujo centro, uma amendoeira...

... Coitada.

Era pequena - do tamanho de um adulto, talvez? As suas amêndoas eram o fruto mais doce, cobiçado, fruto de guerras, de declarações de posse. Lutávamos com dentes e unhas sujas e puxões de cabelo para obter o troféu que na verdade era amargo...

... Porque sempre verde.

segunda-feira, 11 de Março de 2013

A arrumação segundo Eileen Barbosa

Deixem-me começar por vos dizer que descendo de famílias que datam desde a origem dos tempos e que nenhum de nós, na minha linha directa, foi alguma vez abortado nem morto antes de se reproduzir. Isto é sem dúvida um grande feito (comum aliás, a todos nós que estamos vivos).
 Para além deste facto curioso e de poderosas consequências, de ambos os lados, herdei os famosos genes de arrumação. Os do meu pai, de um impressionante pragmatismo e metodologia. Os da minha mãe, menos pragmáticos mas muito eficientes.
 Assim, seria de esperar que eu fosse a verdadeira fada da arrumação.
 Não digo que não seja, mas os meus genes estão dormentes desde há coisa de trinta anos. Quando adolescente, havia dias em que decidia que o meu guarda-fatos estava por demais desarrumado e que era imperioso pôr ordem àquilo tudo. Voluntariosamente, abria as portas à coisa, agarrava em todos os cabides e depunha as roupas em cima da cama, para poder escolher as que ficavam e as que iam à vida.
 
Mas eis que se dava sempre um fenómeno a modos que curioso: olhando para a montanha de roupas em cima da cama, dava-me um profundo desgosto, uma sensação muito próxima do pânico e uma total incapacidade de mexer numa única peça. Assim, fugia do quarto e à noite, afastava as roupas todas para o lado à meia luz e dormia na nesga de colchão que sobrava. As roupas ficariam lá durante alguns dias, até que a minha mãe me desse três gritos, ordenando que as fosse arrumar imediatamente. Eu não conseguia e depois de mais alguns dias e algumas discussões, lá a pobre da empregada voltava a meter as roupas no maldito guarda-fatos.
 É claro que melhorei ao longo dos anos: aprendi a nunca tirar as coisas do guarda-fatos de uma só vez.
 
Mas continuo com uma metodologia para lá de distorcida:
Mudo-me para uma casa nova. Há vários cômodos que precisam de ser arrumados. Começo pela casa-de-banho. Encho umas coisas nas prateleiras e dentro do saco, encontro uma peça que pertence à cozinha. Vou levá-la à cozinha e lá, topo com várias latas em cima do balcão. Começo a arrumar as latas na dispensa e fico com as mãos sujas de pó. Vou lavá-las à casa-de-banho e vou à procura de uma toalha algures no quarto. Aproveito que estou aí e penduro algumas roupas. Depois, decido que devo pôr uns enfeites algures. E no final do dia, a casa está igualmente caótica, porque não em concentrei em nenhuma das divisões.
 
Mas estou super cansada e diverti-me imenso!

Coisas

Sinto-me uma fraude.

Há vários meses que entretenho ideiais minimalistas. Possuir apenas o que necessito. Livrar-me dos pesos mortos. Leio blogs acerca disso, dou aulas magnas à minha mãe.
 Criei fórmulas para obter o exacto número de camisas, calças e cordões que devo possuir. Livrei-me de cadeiras, de mesas, dei e vendi peças de roupa. Mas na semana passada, estando a organizar mais uma mudança de casa, era tanta a tralha que me encarava com olhos de peixe morto, que jazia pelo chão e nem pedia pela sua vida, nem implorava por ir comigo… Mas que eu lá ia enfiando nos caixotes, metendo nas malas, desesperada, pensando que sim, vou deitá-la fora mas preciso de tempo, tempo para escolher, tempo para me despedir, e sei traçar as origens de cada objecto e conheço a cor de toda a peça, o seu cheiro e peso e textura. Porque é que nos agarramos tanto às coisas?
 Ou serão as coisas que nos agarram a nós?
 Saí há mais de um ano da CI mas até há semanas, ainda guardava o caderno em que tomava as minhas notas, para o caso de vir a ser necessário. Depois, um dia assim, de sol, convenci-me: isto já não vai ser necessário para nada. Enchi uma tina de água na banheira, afoguei o caderno, depois cortei-o em postas, amachuquei-as todas e para o lixo é que vocês vão. E não, não aconteceu que no dia seguinte, me ligaram a pedir a data daquela reunião. Não aconteceu absolutamente nada.
 Já fiz isso com umas poltronas que, se não me viram nascer, estiverem presentes quando andei a ouvir cassetes da Joana e a pedir para faltar ao Jardim de Infância. Não as afoguei, limitei-me a pô-las na rua e horas depois, já aí não estavam e nunca mais perdi uns segundos a pensar nelas, nem lhes senti a falta.
 É na verdade, libertador libertar-nos dessas libertinices de ter tanta coisa metida em guarda-fatos, debaixo das camas, a encher as prateleiras e a apanhar pó.
 
E depois acontecem acasos felizes de no mesmo dia, encontrar-me com duas amigas vestidas com roupas que já foram minhas. Mas que fico muito contente por já não serem.

terça-feira, 26 de Fevereiro de 2013

Eu brinco, tu brincas?


E assim, enquanto faço coisas mil que não postar em Soncent, este mesmo Soncent aniversaria - a 27 de Janeiro, completando 7 anos.
 
Depois, vou eu à ilha mãe, que estava bonita de se ver: as rotundas em flor, a baía jubilosa, uns prédios do Casa para Todos de dar água na boca e um mar, um monte de caras conhecidas e sorrisos queridos.
 
Não houve Laginha para mim, não houve Calhau nem nada parecido - fui em serviço - mas houve uma das actividades que mais aprecio ultimamente - brincar. Abro as portas dos guarda-fatos. Identifico imediatamente as peças novas. Retiro-as do cabide, visto-as, vou ver-me ao espelho. Ponho-as de novo no lugar.
 
Experimento todos os sapatos. Ando com eles um bocadinho, é sempre uma decepção nova redescobrir que são demasiado grandes. Volto a arrumá-los. Depois vou à casa de banho, mexo e remexo nas caixas que revelam os seus segredos: cremes de rosto, cremes de corpo, cremes de mão, cremes de pé; maquilhagem sortida; frascos de géis de banho, máscaras hidratantes, pequenas amostras de perfumes, óleos de cabelo. Necessaires com bijutarias, com apliques de cabelo, bugigangas.
 
Depois vou às minhas gavetas, onde estão depositados as cartas dos idos anos 90 do século passado. Os meus cadernos do liceu, as roupinhas que já não me vestem, um estojo com peças soltas de sei lá o quê. Um estojo que usei no jardim de infância, uma carteira que a Tia Mercedes me fez na primária. Os originais de alguns dos meus contos, escritos na minha letra muito feia, num pedacinho de papel qualquer. Fotos.
 
E rejubilo-me, e sinto-me em paz, e sinto-me em casa.

Já não há Vô Tina

Fui a Soncent há dias e pela primeira vez nos meus 31 anos de vida, não havia a visita costumeira à  minha Avó. Ela deixou-nos no mês passado, depois de, aos meus olhos, ter vindo a perder a saúde de uma forma rápida e surpreendente, ela que fora sempre um pouco frágil mas ao mesmo tempo, rija e sempre muito lúcida.
 
Pois, em Agosto do ano passado, quando estive lá à sua frente e ela me perguntou pela Eileen e lhe respondi que estava aí e ela continuou a perguntar por mim...

Sei lá, dei-me conta de que já a tinha perdido e vim-me embora a chorar pela rua abaixo, lembrando-me dos momentos muitos que passei com ela, desde os tempos em que ainda ia à Loja a pé, apoiando-se no meu braço e cumprimentando toda a gente, enquanto eu sentia aquela mão enorme bem agarrada a mim, debaixo do sol das três da tarde.

Ou de estar a passar uns dias em casa dela, dizer-lhe que queria sair e visitar algum amiguinho, e ela dizer-me que ligasse à minha mãe na Enapor a perguntar se podia. Ou ainda, ela a oferecer-me bolachas, bananas, rebuçados, o que fosse, porque afligia-a receber uma visista e não lhe poder oferecer alguma coisa.
 
 

Neste amplexo de fibra sintética


Subo as escadas arrastando-me pelas paredes. Galgo sem energia estes degraus que me afastam. Faço um pedido chorado.



 - Que me ponhas ao colo…

 
Mas não há colo para mim, então escondo-me debaixo dos mais pesados cobertores e peço-lhes que se façam de útero. Há neste amplexo de fibra sintética, neste calor falso, algum conforto? Deve haver, pois enfim adormeço.
 
Depois de me levantar, sou atraída pela luz da manhã. Encosto a testa na janela, olho o mar. Penso em ti. A minha vida é um pensar em ti que nunca mais acaba.

segunda-feira, 21 de Janeiro de 2013

Beleza interior ou interna?

Quando dizes que bem lá no fundo não és feio, queres dizer que tens umas belas vísceras? Um estômago brilhante, uma bexiga enxuta, quiçá, veias e artérias uniformes e que maravilhosa que é a tua vesícula?

Na canela


Por cá, uns morrem, outros contradizem-se.

quarta-feira, 16 de Janeiro de 2013

Exportações domésticas

Leio no A Semana que os agricultores de Santo Antão já exportam para o Sal e Boa Vista e vem-me um sorriso de satisfação ao rosto.
 
A minha visão do turismo em Cabo Verde tem sempre sido a de que não há problema em haver concentração em 2 ou 3 ilhas, desde que as outras também beneficiem, enviando para lá os seus produtos, sejam agrícolas, sejam outros.
 
O que não impede que haja turismo em muito menor escala nessas outras ilhas. A concentração é mais viável, pois as infra-estruturas turísticas não têm que ser multiplicadas e rentabilizam-se as existentes. Basta pensar nos aeroportos internacionais que, se dependesse da vontade de alguns autarcas, nasceriam feitos cogumelos em cada cutelo do país.

quarta-feira, 9 de Janeiro de 2013

Os insones da noite


Como é que, a meio da noite, quando todos dormem, nós apelamos aos que estão acordados? Como é que bradamos pelos despertos sem despertar os dormintes? Nós, os insones da noite, como é que nos juntamos uns aos outros e damos as mãos em meio ao silêncio que nos cobre? Teria que ser um silêncio tosco para o quebrarmos com os nossos suspiros. Teria que ser um silêncio morto, quando os acordássemos com os nossos ruídos.

Três anos


Três anos trancada nesta ilha. Mas hoje eu fujo a nado, hoje galgo num navio, hoje, saio pela porta dos fundos e mais ninguém me vê.

Os farrapos da Interbase


Para o W, que mo inspirou, sem saber
 
TRAZIA OS murmúrios na ponta da língua, como alguém que se tivesse queimado de saudades.

Gostava dele assim, cansado e enojado da vida, que era como chegava, arrastando atrás dele um saco de melões a sangrar ou um frango roubado e já depenado. Fugiam logo para o armazém, que era onde ela escondera o colchão de todas as dores, as minúsculas posses, poupanças de uma vida.

Parece que numa outra vida ela tinha sido alguém, mas ele nunca fora ninguém e sinceramente, que interessava isso agora, no estado em que ambos estavam já eram restos de outras coisas, pesadelos ambulantes nos quais o amor errara de lugar tantas vezes que quando os encontrou, foi necessário um único sopro para os tornar inseparáveis.

Encaixavam-se em tudo e nos poucos desentendimentos, cada um cedia sem um queixume, sem nenhum azedume. Ela gostava de ficar acordada à noite ouvindo-o ressonar, porque nunca antes tinha tido assim, alguém que dormisse de forma tão profunda ao seu lado, alguém que não tivesse medo de se perder no seu braço. Depois das primeiras horas da madrugada, levantava-se, vestia-se silenciosamente e partia para a faina. Recolhia os sacos de lixo de três barcos num carrinho de rodas e trazia-os de novo para a gare, onde judiciosamente examinava os despojos. Já não lhe cheirava a nada, esse lixo fresquinho, acabado de colher. Nem lhe sabiam a azedas as sobras que encontrava e que jeito lhe davam as bugigangas atiradas fora.

Ele tinha uma faina toda ela diferente mas era terrivelmente preguiçoso. Talvez não tão preguiçoso e apenas mordido pelo álcool, arranhado pelo trabalho duro, atingido na cara pela falta de proteínas, pelo excesso de nada. E roído de ressentimentos.

Foi neste cenário que numa quinta-feira à tardinha, a Interbase começou a arder, do nada, mais rápido que fogo posto, mais depressa que um fósforo. No tempo em que se leva para se dizer “Ardeu-se a minha vida” tinham perdido o colchão, os seus outros parcos haveres, a sua poupança e o seu orgulho. Voltaram a ser farrapos, veio o vento e levou-os, sabe-se lá para onde.

 

28 de Dezembro de 2012

2013


É como um pato sai da água, sacudindo, arrepiado, as gotas geladas de Janeiro que entrou em boa companhia, que venho escrever este post à inauguração de 2013 neste blog velhinho, que caminha para os 7 anos, uma idade bonita e que me cai muito bem porque entre mim e o número 7 há uma relação de mútua afeição.

Dizia, venho com pele de galinha ao Soncent, venho de peito aberto e patas de urso dar-vos um abraço caloroso e muito peludo, depois de uma hibernação de um mês que aproveitei para rabiscar umas coisas cada vez mais esquisitas – que irei partilhar, claro – e atravessar fronteiras, ir apanhar frio a Lisboa, por motivos também eles românticos, não fosse eu um coala afectuoso, uma gata de colo, enfim, um mamífero a quem o leite deixou de bastar.

Por estes dias vocês terão sido já bafejados com muitos votos de muitas coisas boas, ele é bom ano, ele é boas entradas, ele é tudo de bom, ele é muita saúde, muito sucesso, muita alegria e amor, há mesmo quem deseje muito sexo, o que não deixa de ser bem avisado.

Eu, na senda de ser original, queria evitar repetir-vos a mesma coisa, embora desejando, do fundo do meu coraçãozinho, que os leitores de Soncent, os seus parentes e aderentes tenham, sim, um excelente ano de 2013, que sirva de referência para os anos vindouros como o ano em que nos divertimos mesmo que com coisas pequeninas, o ano em que decidimos olhar com atenção à nossa saúde, o ano em que nos aproximámos mais da nossa gente – ele é tios, ele é avós, ele é amigos e vizinhos, ele é os mais pobres que nós.

E o ano em que passamos a celebrar mais a alegria de estarmos vivos, em que vimos menos televisão mas nos rimos mais, em que nos sentámos uma vez por outra na soleira da nossa porta com os nossos filhos e lhes contámos histórias do tempo em que nós também erámos crianças.  

Então, sem medo de ser repetitiva porque é na repetição que assentamos a mensagem: Bom ano 2013 para vocês!