Polimento requerido

Polimento requerido

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Mentes parecidas

O título deste post pode-vos parecer uma tradução literal do Inglês, isso porque eu também me tornei numa dessas pessoas enfadonhas, medonhas e arrogantes e pobres de espírito que ficam a introduzir palavras de outras línguas quando falam a Língua Cabo-verdiana ou o Português, como se estas não tivessem vocábulos suficientes para nos expressarmos apenas com elas. Até o João Ubaldo Ribeiro, em Os Budas Ditosos, meteu falas em Inglês na narradora. Se não fosse por ele já não estar entre nós, eu iria falar muito mal dele! 

Devo dizer em nossa defesa, minha e do João Ubaldo, (a quem, por decisão régia da Rainha do Reino Reinante de Palmarejus Baixus e Arredoris Oceânus Atlanticus,   de agora em diante  posso tratar por Tu, tradução literal de You), que, às vezes, somente às vezes, há coisas que são expressas de uma forma um tantinho melhor numa outra língua. Discussão para uma outra hora, de qualquer forma. 

Vinha contar-vos do meu feriado, que tinha toda a cara de vir a ser uma desgraça mas que por uma inspiração vinda de vários dias a chocar uma tristeza com poucos paralelos, acabou por ser uma maravilha de dia, praticamente pela simples razão de ter encontrado alguém com uma mente tão parecida com a minha que alinhou em tudo o que lhe propus: ir nadar a São Francisco quando nenhum de nós dormira grande coisa na noite anterior. Estar em São Francisco, sentir fome, e pensar que não era mal avisado ir comer uns pastéis de milho a São Domingos. 

Estando em São Domingos, olhar para o alto e decidir, às seis da tarde, que o melhor mesmo era ir fazer uma caminhada até o Monte Tchota. E assim, às seis e tal, deixávamos o meu portentoso carro na Quinta da Montanha e rumávamos, de chinelos e sal na pele, montanha acima, a pé. Mas o melhor nem foi isso. O melhor foi termos ambos cantado, com toda a força dos nossos pulmões, famosas óperas que devíamos estar a estragar de todas as formas mas o que é que tem, se sabe tão bem cantar? 

E depois descer no escuro, com o cheiro dos eucaliptos no nariz, cruzando-nos com um ou burro acompanhado do seu parasita.

Nota: Gostava de agradecer esta oportunidade para voltar a mencionar o meu portentoso carro. É que até hoje não está muito claro na minha cabeça como é que posso possuir uma montada tão esbelta e forte, tão cinzenta e grande. É daquelas coisas, uma pessoa nasce para ser ciclista e escritora e de repente vê-se, por força e arte das circunstâncias, a conduzir um 4x4. Sobe na cabeça de qualquer um! Ou pelo menos, sobe na cabeça da ciclista. Obrigada mais uma vez! 

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Letra de rock

Uma vez fiz um rock para o Jon Bon Jovi mas nunca calhou de lho enviar... era assim:

Show me the sky again
Cause I see no blue
I only see dark colours

Between me and you

Reli, outra vez.


As tripas do Rei

As tripas do Rei foram estendidas ao sol da Praça dos Irmãos, regadas com vinagre e polvilhadas com sal e pimenta.

Pouco passava das oito quando veio a Rainha atear o lume, vestida que estava com veludos e seda vermelhos, naquele calor todo que já se fazia. Por pouco as chamas não lhe lamberam as saias do vestido, tão decotado que os reais mamilos ficavam meio à vista da populaça que se reunira na praça, ainda incrédula, ainda silenciosa, ainda mal acordada depois de ter acordado para as terríveis notícias.
A Rainha pegou nas tripas com as próprias mãos, as unhas escarlates confundindo-se com pingos de sangue e atirou-as ao lume.

Os assistentes contiveram todos o fôlego e quase que faltou ar à soberana no momento em que ia a descer do palco.

Do outro lado da praça surgira a princesa Clotilde Maria Cristina, a primeira filha do Rei, despenteada e mal vestida, chorando ainda, com as mãos sujas de sangue ainda, e correndo em direção à Rainha, sua madrasta. Conseguiu chegar ao pé dela sem que os seguranças interviessem e agarrou-se aos longos cabelos da outra mulher, pouco mais velha do que ela mesma. Puxou, estrebucharam ambas, rolaram ambas pelo chão de calçada, sem que ninguém se atrevesse a chegar perto, até que as duas outras filhas do rei surgiram também, indo separar a irmã da madrasta.


Dentro do Palácio, o Rei, dizia-se, vivia ainda, desfazendo-se aos poucos pela barriga, de onde a Rainha lhe tirara as entranhas. 

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Fotos a despropósito

 De um Carnaval de 2006, estas fotos sorriem para nós.


O Carlos e o Kelly esmeraram-se nas indumentárias.


A Nádia tinha trazido as fatiotas dos EUA. Eu passei depois anos a vestir-me de zorra. 


A Suzana na altura estava em São Vicente.




O Mick Lima é sempre o homem do Carnaval!


E depois há aquele homem que está em todas as festas... ao mesmo tempo!

Marie entre as Marias

Maria, descobriu Marie, uns tempos depois de chegar às ilhas de Cabo verde, é o nome das empregadas domésticas e da maior parte das mulheres com mais de cinquenta anos no país. Marie começou por querer impor às pessoas a pronúncia francesa do seu nome. Depois desistiu e tentou, sem grande sucesso, ser chamada pelo apelido. Era Hensel. Marie Hensel, alemã de Colónia, que tinha vivido em França e no Burundi e vinha agora trabalhar para o gabinete de desenvolvimento das Nações Unidas em Cabo Verde. Mas essa não foi a sua única dificuldade.

A sua primeira impressão do país foi-lhe causada pelo ar. Tinha voado durante cinco horas e tal. A sua canseira estava mascarada por uma excitação comum, a que sentia sempre quando visitava um país pela primeira vez. Quando se aproximou da porta do avião para descer, respirou aquele ar pela primeira vez. Pesado. Quase físico. Comparado com o ar rarefeito do avião, este do aeroporto era húmido, ligeiramente perfumado. Sabia que tinha chegado a um país seco. Tinha lido tudo o que havia para ler sobre as 9 ilhas habitadas por meio milhão de mestiços, e mais uma ilha deserta e uns quantos ilhéus que lhe despertavam a imaginação. Sabia da pobreza, da boa governação, da grande evolução que o país tivera desde a sa independência. Sabia que a estação das chuvas estava ainda distante.


Desceu as escadas do avião segurando a mala Louis Vuitton numa mão e a pastinha do tablet na outra. Marie sabia ser alemã no porte atlético, nos longos cabelos louros, nos olhos ora cinzentos ora azuis. Mas tinha o gosto refinado por roupas e acessórios das francesas. O passaporte diplomático de pouco lhe serviu. Esteve uns quantos minutos na fila de passageiros à espera de passar a fronteira. O polícia não a cumprimentou mas sorriu quando ela lhe falou em português com um certo sotaque brasileiro, culpa do seu professor de português. Ela tinha noção de que não soava como a Marisia, a sua cantora de fado preferida, mas cujas palavras ela mal entendia. 

... 

terça-feira, 7 de abril de 2015

Mentirinhas de 1 de abril

Eu não sei o que vocês pensam e vai até soar mal, mas eu gosto das minhas mentirinhas de 1 de abril. É uma espécie de tradição neste blog, sou capaz de vir a pé para vir escrever uma mentira, como se se tratasse de uma responsabilidade ou compromisso. E relendo algumas, redescobri o bom que era naquele tempo em que as pessoas faziam comentários. 

Elas tanto acreditavam que eu tinha encontrado um cordão de ouro, como que eu tinha mantido uma alta conversa com um candidato à presidência. Também lhes parecia verosímil que uma pomba me tivesse olhado dentro dos olhos e depois, feito adeus. E o que dizer deste pedido de namoro

A última mentirinha também recebeu comentários, coitadinha... no Facebook! 

Arrancar com as próprias mãos

O que a pátria amantíssima se recusou a dar-te, tu quiseste arrancar com as tuas mãos.


Arrancar com as mãos parece ser a única forma de arrancar, pelo que aí não podes ser pesadamente censurado, mas que a pátria te negue e tu na mesma queiras é um erro de julgamento, certamente. 

Não que eu queira julgar, eu que tenho dúvidas acerca do que faria, tendo sido sempre uma pessoa com ideias progressistas demais, independente demais nas minhas decisões e posturas e em geral, um ser à parte. Mas dentro da lei. 

Terão os velhos morrido?

Terão os velhos morrido? 
Das suas casas não se ouvem
Outros ruídos que o silêncio pesado 
Que soa entre retratos descorados.

Terão os velhos morrido? 
Queria perguntar pelas tuas gentes 
Mas não sei se ainda vivem estes dias. 
Terão os teus avós perecido? 

Não sei se ainda te abraçam
E te pesam nas horas 
Ou se apenas os recordas.
Não sei se jazem prostrados Num leito 
Ou jazem prostrados 
Num prédio invertido no chão.

Taska

Se me virem na rua a chorar 
Com uma cadela pela trela
Essa cadela já foi marca de pilha
Tanta era a sua energia

Essa cadela foi desejada
Bem-criada, bem educada 
Essa cadela foi, de todas
A mais esperta

Essa que nunca usou trela
Antes
Pois soube fazer tudo
Dantes

Hoje lá vai ela, cega
Com medo até de andar
Essa é a Taska, a superstar. 

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Taska e MC


Da primeira vez que a Taska pariu, nasceu o MC e mais 3 irmãos. Hoje, ela está velhota, cega e diabética mas continua doce e educada. Ele é um brutamontes que quer sempre mais mimos, que sabe o que é correto ou não mas nem sempre cumpre, que gosta de correr e parece ser gay. Gosto imenso dos dois.

Esta foto maravilhosa foi tirada pela Catalina Lamey.

Creio que eram polícias

Ontem a minha mãe fez anos. Resolvi que ia celebrar mesmo estando cá na Praia e ela em São Vicente e fui ao Quebra Canela, na hora do almoço, beber um gin tónico. Foi uma grande exceção pois já por duas vezes, tive episódios de vertigens após beber gin. Mas fazia sol, era o último dia do mês das mulheres e havia aquela energia das manifestações, aquela expetativa do jogo contra Portugal, enfim, uma energia pulsante no ar e nas pedras de gelo dos meus três gins. 

Quando fui pagar ao balcão, senti as pernas um pouco bambas. Decidi que o melhor era deixar lá o carro e apanhar um táxi para casa. Visto que nenhum passava a essa hora, fui andando a pé, curtindo o sol na cara. Devia estar pior do que pensava pois às tantas, um carro do Piquete parou ao pé de mim e o agente que vinha à boleia perguntou-me se estava bem. Disse-lhe que muito bem, obrigada e continuei o meu caminho. 

Passados mais uns metros, um carro da Polícia Nacional parou ao meu lado e mais uma vez, o polícia no banco dos passageiros me perguntou se estava bem. Disse-lhe que talvez um pouco tonta mas que estava à procura de um táxi. Eles foram-se embora. 

Dei mais uns passos e parou um carro sem matrícula, cheio de ferros na janela e um encapuçado perguntou-me para onde ia. Disse-lhe que para casa. Ele perguntou onde ficava a minha casa. Aqui perto, disse-lhe eu, sem querer revelar a zona. Ele disse-me que entrasse e que me levariam a casa. Eu não quis. Vai daí, um homem da grossura de um guarda-fatos mas mais alto sai do banco de trás e agarra-me num braço e mete-me dentro do carro, que zarpa imediatamente. Dentro da viatura, um rádio de baixa frequência estava ligado e não se passou um minuto antes de ouvirmos uma voz feminina a dar conta de um cassubody em Tira Chapéu. 

Arrancaram em alta velocidade, fazendo chiar os pneus no chão e o meu estômago veio parar à minha garganta. Chegamos a Tira Chapéu em menos de três minutos, pararam o carro de tal forma depressa que a minha testa bateu na cadeira da frente. Depois dois encapuçados saíram à desfilada e vinte minutos depois, estavam de volta, um deles com um puto de t-shirt vermelha agarrado pelo pescoço. 

Puseram-no dentro do carro comigo, e sentaram-se de novo. Voltaram a arrancar naquela velocidade, certamente esquecendo-se de mim, pois percebi que iam para uma esquadra na Achada. O rapazinho esfregava o pescoço e acusava-os de agressão e de excesso de zelo. Às tantas eu não aguentei mais e vomitei. Vomitei em cima do agente à minha direita, em cima do rapaz da t-shirt, em cima dos assentos, em cima de mim. Os encapuçados enfureceram-se na hora. O rapaz gritou como se se tratasse de água a ferver. Reclamou mais ainda de agressão. 

Pararam o carro ao pé do Di Nôs, desceram-nos a ambos e arrancaram de novo. 

Creio que eram polícias.


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Arrenda-se um coração

Arrenda-se um coração
Está livre, completamente vazio
Talvez não esteja limpo

Talvez tenha restos 
Sobras de amores
Que deixaram alegrias
E também muitas dores

Arrenda-se este espaço 
Grande, amplo, luminoso
Para nele caber
Algo que encha
O que está assim tão vago 

Dos pagamentos não falaremos
Das frestas também não.

Arrenda-se um coração. 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Lavas de grande envergadura

Todos os donativos que nos derem
Todas as dádivas e doações
Cairão pesadamente
Nos nossos corações

Estamos de estendidas mãos
Estamos de ondulantes ânsias
Enquanto dos nossos olhos
Jorram as lavas

De grande envergadura 

9 de dezembro de 2014 

Festa sonhada


Na noite de anteontem para ontem, sonhei que estava em São Vicente. Ia haver uma festa de arromba, uma festa louca, com música ao vivo, mas meio secretista, em que era preciso isto e aquilo para se conseguir um bilhete e eram caros. Lembro-me de estar no Salão Gia (que já nem existe) a convencer as funcionárias que eu merecia comprar um bilhete.

 A festa em si acedia-se através de uns corredores mafiosos perto do Stopper, aquela pastelaria que fica perto do Palácio do Povo. A festa estava muito boa e por alguma razão, o mote era que o homem que agarrasse na mão de uma mulher podia beijá-la e se quisessem ir mais longe, pois, porque não, de maneira que os homens andavam que nem loucos a agarrar nas mãos de uma, para depois a soltarem e irem agarrar na mão de outra e as mulheres punham-se a jeito para este ou para aquele, e havia-os bonitos, um em particular de cabelos pretos luzidios e olhos azuis... 

Às tantas já havia vários casais pelos cantos e por alguma razão, nós os dois demos de nos beijar e não imaginas o bom que foi, beijámo-nos imenso e a tua boca nem sabia a cigarro nem nada, fresca como uma nascente de água com um toque de mentol.

Andámos a festa toda de mãos dadas, divertidos, olhando para o que mais acontecia, espreitando através de umas cortinas absolutamente barrocas, aliás, a mobília era toda ela palaciana, muito rica em brocados, havia salas de tectos altíssimos, pintadas de azul, e havia dois terraços, a noite, fresquinha, a música, diferente, berrada mas estranhamente insinuante. As bebidas serviam-se em copos altos, brilhavam as suas cores vermelhas, verdes e azuis, mas tu mantinhas uma cerveja na mão e eu, acho que nem bebi.


 E pronto, lá acordei e passei o dia a pensar em ti.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Anfiteatro

Fomos muitos os que não compreendemos o discurso. Mas lá ficámos especados, como cabras a olhar para um palácio.

O próprio orador falou depois num desfasamento gritante entre a ideia que ele queria passar e o que nós depreendemos da sua enervada oratória, rica em perdigotos que vieram pousar na primeira fila de cadeiras. Felizmente, nós não lá estávamos, essas são as cadeiras reservadas aos doutores. E nós limitávamo-nos a ser estudantes universitários, que desembolsaram vinte e cinco euros para ir ver e ouvir uma série de engravatados ler uns quantos papéis, de cima do estrado.

Uma ou duas vezes por mês, o mesmo ritual de entrar para o anfiteatro e escolher as cadeiras. Eu e a Zoraima, procurando ficar perto do palco, para podermos ler as projecções. Os rapazes de Gestão Hoteleira sentavam-se atrás das raparigas do primeiro ano. As suculentas caloiras.

Desta vez, o orador também reparou nessa suculência, pois durante o primeiro intervalo, foi meter conversa com as miúdas. Foi triste, eu e a Zoraima comentámos, o modo como ele tentava compor o seu melhor sorriso e adoptava uma postura mais jovem, uma mão no bolso, a outra a passar repetidamente pelo cabelo, como quem dizia “Sou de meia-idade, mas reparem-me nesta farta cabeleira!”. E elas, enrubescidas, balbuciando asneiras do género de estarem a adorar o seminário e de ser muito elucidativo e ser uma honra recebê-lo na nossa escola…
No segundo intervalo, já eles se sentavam todos juntos, o orador e cinco caloirinhas, nenhuma delas com mais de vinte anos.
À hora do almoço, toda a gente abandonando o anfiteatro à pressa, elas a atrasarem-se e eu e a Zoraima, espertas que somos, atrasávamo-nos também. Bem queríamos ver em que era que aquilo iria dar. Quando ele deu por arrumados todos os papéis sobre a mesa e até o arranjo de flores, dando tempo a que todos se retirassem, estávamos eu, a Zoraima, ele e as caloiras. Nós fingíamos estar à procura de um brinco, as outras estavam todas entretidas com os telemóveis de cores vivas. Ele aproximou-se-lhes e indagou num tom paternal:

- Então, moças, ainda não vão almoçar? – Ficou lá parado à espera e depois olhou para nós. A Zoraima encontrara por fim o brinco virtual. – E vocês, também ainda cá estão? – Sempre detestei esse tipo de perguntas, vê-se alguém com um livro na mão e pergunta-se “Que estás a fazer?” ou chega-se a casa, e alguém diz-nos logo “Já chegaste?”. De maneira que olhei para ele com a dita cara da cabra a olhar para o palácio e disse-lhe:

- Sabe, deve ser culpa minha, mas não alcancei todo o sentido da sua intervenção. Perguntava-me se não quereria acompanhar-nos durante o almoço e elucidar-nos melhor… – fiz o meu sorrisinho angélico com que geralmente cumprimento a minha senhoria.

Ele então, com um sorriso pesaroso:
- Não queria maçar-vos com isso…

- Não maça nada, será um prazer! – A Zoraima entrara no meu jogo. As caloiras é que pareciam estar a detestar o rumo das coisas. Lá acabámos por nos encaminhar para a cantina da escola mas o pobre homem era alérgico a marisco e não poderia lá almoçar. Fizemo-nos tão desapontadas que ele se viu obrigado a convidar-nos, às sete, para almoçar com ele num restaurante ao pé da escola. Tentámos pedir pratos baratos e meias doses, mas resolvi não o poupar e pedi vinho. Bem merecia, o pedófilo!

Não valeu de grande coisa, afinal. Ao fim da tarde, quando o seminário acabou, dei-me conta de que acabara mesmo por lá deixar esquecido o casaco. Quando entrei, distingui, lá em cima do palco, o orador, agarrado à mais bonita das caloiras. Que se ria feito uma pomba, a inocente. Saí discretamente, morrendo de raiva. De facto, havia um grande desfasamento entre a figura de um orador responsável e a do homem sob essa lustrosa capa. A do homem a quem, a ser realmente conhecido, ninguém passaria diplomas ou daria um canudo.


Abril 2003



Vidas paralelas



Tinha lá em casa dela uma escova de dentes, num copo improvisado. E uns boxers.
E de resto eram livros que emprestara à Daniela quando ambos ainda não sabiam que se envolveriam. É bem mentira, isto. Ele já sonhava com ela todas as noites e ela achava-se e sabia-se nas redes de uma conspiração maldita da vida: seria escolhida por quem a amasse, ficaria com quem a quisesse. Não sentiria a completa posse do ser amado e olharia sempre para o lado. Não haveria um momento em que não medisse ou pesasse o relacionamento com ele, pela simples razão de que ele tinha sobrado para ela, mas não fora nunca a primeira escolha.

O copo das escovas de dentes era um pacote de sumo de fruta cortado ao meio. Daniela guardara-o desde o tempo em que fora morar sozinha, numa outra ilha, para uma outra vida. A casa estivera praticamente vazia e ela foi preenchendo-a sobretudo de improvisos. E depois, de risos. Só muito depois, de siso. Quando, de repente, viu que o destino parecera ter-lhe desenhado um caminho seguro, mesmo que não pleno. Pleno de aventura e paixão, como sonhara.

Na casa dele, ele preferia sempre sentar-se numa malona para se encostar a espreitá-la, enquanto ela se punha à-vontade. Era nesses momentos que Daniela ganhava coragem para arrumar as roupas lançadas para cima da cadeira e da estante e da cama. Havia lá em casa uma almofada especial, que guardara o cheiro do seu próprio perfume. Guardava as esperanças de que Daniela, à noite, se abraçasse a ela.

Semedo seria pois o marido da Daniela, se levasse as coisas a jeito. Sabia que ela era do género de tomar banho e sair à procura de um príncipe qualquer. E sabia que não era príncipe nenhum. Conhecera-a numa fase em que ela encarava qualquer trintão bem-sucedido profissionalmente como bom partido. Achava-os particularmente cultos, interessantes, maduros, ainda em boa forma. E ele era mais ou menos isso. Mais ou menos, porque havia um universo perverso a que ele pertencia. Mas que ela não precisava, nem quereria conhecer. Vidas paralelas, há-as por todo o lado. Porque não, então, manter também secretas, as outras coisas da vida dele? Ela era bem mais nova, bem mais inexperiente, fariam o casal mais histórico que existe: o homem sabido, vivido, que se resolve finalmente a assentar e providenciar a prole, para o que escolhe uma mulher mais nova, doce, bonita. E com outros encantos, como os tinha, de sobra, Daniela.

Semedo e Daniela casariam um dia, era uma certeza que ambos tinham. Até surgirem mil e uma crises. Bom, mesmo depois de mil crises, ambos continuavam com essa ideia fixa, como se tratasse de um postulado solene. Como se fosse no teatro em que, sem que se compreenda como, tudo dá certo no final.

Algumas histórias querem-se paralelas. Outras, que fiquem num eterno giro, cruzando-se em anéis cada vez mais pequenos e próximos. Até passarem a estarem sobrepostas, numa única recta. Era o que queriam. Daniela, apesar de nova, estava desencantada com a vida, não ao ponto de perder a vivacidade, mas o suficiente para não ter esperança em apaixonar-se perdidamente por alguém. Acostumara-se a Semedo, adaptara-se a ele e a sua curiosidade não a espicaçava a saber mais da vida dele do que ele mostrava.

Até que a informação veio de fora, entrou-lhe pela porta adentro. Não uma, não duas, mas três mulheres estavam grávidas do Semedo. Grávidas, com dois ou três meses de diferença entre si. Ou menos, que sabia ela? Foi sabendo devagar, hoje, ao encontrar um velho conhecido, que, ao falar de Semedo, e sem saber que estavam juntos desde há um ano, lhe diz “Então, o homem tem grávidas duas comadres!”.

Quem? O Semedo? Qual Semedo? “O Semedo do Banco, ora, quem mais?” Daniela afoba-se, fogem-lhe as cores da cara, a garganta seca-se. Grávidas? Como poderá ser? Deixa o amigo a falar sozinho, socorre-se do móvel e os dedos discam o número que mais conhece. Semedo atende ao terceiro toque e Daniela descobre que está sem voz e não poderá falar com ele. Semedo sente, mais do que adivinha, que os seus dias não serão mais iguais. Lambe os beiços, num tique antigo enquanto pensa na melhor estratégia. Olha para o computador à sua frente e sabe, imediatamente, que já a perdeu. 

Sabe que ficarão juntos, porque ela perdoará, tem o feitio para perdoar. Mas nada será mais igual, a confiança ilimitada que ela lhe teve sofrerá um rombo. Desliga silenciosamente o móvel, deixando-a irrequieta do outro lado e por escassos momentos, sente que perde a coragem e relanceia as estantes do banco, as secretárias com os trabalhadores no computador, à procura de um buraco onde se esconder. Mas imediatamente recupera o controlo e a segurança. Tem Daniela nas mãos e este é somente mais um pequeno contratempo. 

2004

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Pastora de rimas

(Alguém devia debruçar-se sobre a minha relação com a poesia. É tão estranha... a maior parte dos meus poemas fala sobre eu não gostar de ser poeta!) 

Fui pastora de rimas
Amamentei choros
Mugi sonetos até secar.

Já não gosto de poesia. 

Regresso às vírgulas

Lá onde os dias escorrem, lá onde alumia ainda o sol, pode sempre haver regressos aos sítios onde fomos felizes. Um dia como hoje, onde, no meio de muita coisa me vim acolher ao Soncent e lendo um ou outro post, me deu uma saudade de escrever, tal como costumava, com liberdade, de improviso, com alegria! 

Porquê tanta ausência? Ele é o trabalho, ele é o sentir que já ninguém lê, ele é ter que sair do Gmail para fazer log in no Blogger. Que canseira! Deve ser, principalmente, sentir que ninguém lê. 

Porque quando suspeito que alguém vai ler, quando imagino essa pessoa a levantar-se de manhãzinha e a ir, precariamente porque morta de sono, sem nem enfiar as pantufas, em direção à casa de banho e alguma coisa no seu reflexo do espelho lhe sussurra que hoje, por uns minutos, em vez de ver posts dos almoços de cada um, das publicidades disfarçadas, dos artigos de opinião mal amanhados, hoje, por uns minutos, se vai sentir tentada a ler um blog, um lugar onde ela também foi feliz... Então venho eu a correr, sem nem me ver bem ao espelho para pentear a minha cabeleira mediana, que cai pelos ombros, sedosa, macia, encaracolada e crespa, venho, dizia, correndo, sem amarrar as sapatilhas, sentar-me, escrever uma coisa fresquinha, sem nem pôr os óculos, inventar umas rimas, sorrir numas frases compridas, sem nem meter as vírgulas. 

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Durante o exame nacional



-          Chamaste-me? – Perguntou-me ele.

Só se for telepaticamente. Ah, sim! Estou a chamar-te há um bom bocado. Mas bater na tua cadeira, isso não bati. Olhei para o teu cabelo, repeti o teu nome cem vezes dentro de mim, fitei por uma data de minutos o lugar onde deves ter uma glândula que é conhecida como o terceiro olho. 

Vê lá se não sentiste. 

Admirei-te o desenho das costas, contei os pelos fininhos do teu pescoço, admirei a alvura da tua camisa e as tuas orelhas alinhadas. Mas a sério que não bati na tua cadeira, pelo menos por querer. Mas foi bom teres-te virado para mim porque tens uns olhos lindos de morrer e não me importava de me perder neles e ter que te pedir ajuda para me encontrar outra vez. E voltar a perder-me. Mas como estas verdades não se dizem assim, fiz um não com cabeça. E viraste-te de novo para a frente, certamente também empancado na pergunta oito. Exercício difícil, custou-me a resolver. Daqui a nada, a professora virá para perto de nós e hei-de lhe perguntar se é assim. Num exame como este, ela não se recusará a dar um help

terça-feira, 16 de setembro de 2014

O combate das letas C e K

Miraram-se silenciosamente. O ringue estava decorado com laços coloridos. 

A K estava toda ela pimpona. Ninguém podia negar a sua beleza e fotogenia. Tinha o apoio dos especialistas do crioulo, estava na moda. 

A C tinha anos e anos de existência entre os latinos. Os bébés começavam a lidar com ela assim que aprendiam a dizer mamã e papá. Diziam, cândidos e sorridentes: Côcó. Era a terceira do alfabeto. a Terceira!!
Aliás, nem só os humanos conseguem usar a C. Até as galinhas que quase não t~em cérebro, conseguem dominar e letra nos seus caracacá.

O sino soou finalmente. 

Embora a guerra existisse já há muitos anos, desta vez, elas iriam dar e apanhar pancada. E se havia coisa que a C queria fazer era bater, bater na K. com força! Calapadas e cabeçadas! Curtas e calientes! 

Lá, onde a areia se banha também


sábado, 2 de agosto de 2014

Fatal

Gritos de amor empenado


Não há silencio porque os teus grãos – serás areia - trepidam no chão à medida que te tento agarrar na mão. 

Não há amor que baste contra os muros que erguemos e agora não sabemos destruir.
Não há presente que dure nem um futuro para um casal sem verbo comum.
Vir à tua casa foi fatal, querer estar nos teus braços quando me queres tão longe é fatal.

Tudo é fatal.


Sentar-me aqui sozinha a escrever sem que me venhas buscar é fatal e deixar-te lá onde quer que estejas talvez também o seja, não te compreendo o suficiente para o saber. O que também virá a ser fatal. 

Rescaldos de vidas airadas

- Tiveste affairs intensos com metade desta ilha mas nunca comigo. 
Foi então que ele disse que tivemos um relacionamento aos nove. Que fomos precoces.
- Contigo fugia para mar Báltico. - Insisti com a minha voz mais cavernosa de sempre. 
- Para onde?
- Para o mar Báltico.
- Isso é onde?

- Esquece. - E vi-o sair da minha vida. 

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Da mesa redonda e outras redundâncias

Fui convidada para participar numa mesa redonda de escritores cabo-verdianos durante o Congresso Internacional da Associação de Lusitanistas, que decorreu em São Vicente, na semana passada (dia 22). Eu apareci lá de manhã, convocada de emergência quase, para vermos como seria a disposição de mesas e cadeiras. Estava a sair de uma sessão de fisioterapia pois faz hoje dois meses exatos, fui levantar uma bola de basket com os pés, feita jogadora de futebol e parti o meu pé esquerdo. 

(Ah, o pequeno ser humano e as suas pequenas descobertas acerca da vida. Não é enternecedor? Olha como ela descobriu a falta que faz um pé! E como ela começou um post para falar de uma mesa redonda de escritores e praticamente sem querer, já se prepara para contar tudo - T-U-D-O - sobre esse pezinho partido, quebrado, que ficou caído, debangado da perna e que tanto doeu mas que principalmente, tanto a prendeu em casa. Mas ela resiste! O ser humano é capaz de enormes resistências!)

Estavam lá uma quarentena de (eu ia agora dizer brancos, que é uma forma carinhosa de nos distinguirmos dos estrangeiros, mas essas considerações são sempre tão, tão complicadas...) estudiosos e escritores (coisa que eu não tinha forma de avaliar, claro, mas digamos que a narradora teve acesso a esta informação a posteriori ou por pura dedução). Fico sempre encantada com a simpatia dos brasileiros mas estando a coxear (ai, aquela tentação!), recebi a simpatia foi de toda a gente. 

Dá-me um prazer especial ser convidada porque é um ato de fé. Uma jovem que publicou um livrinho de contos lá para os idos de 2007 e em 2014 é lembrada ainda é um incentivo forte a fazer sair os dois outros livrinhos que se encontram prontinhos, apenas à espera de um ultimato de alguém.

Por favor, ultimem-me!

Foram meus colegas caras e letras muito conhecidas - Vera Duarte, Germano Almeida e Fátima Bettencourt. Foi uma conversa  mas sempre curta que pesou mais sobre os desafios de se ser escritor num país falsamente bilíngue (o falso é meu).  Se se interessarem, eis o link da notícia aqui: 

                       






quarta-feira, 21 de maio de 2014

A minusculidade do ser





Depois dizem que o tamanho não importa. Eu vinha a caminhar na rua, não exatamente pensando mas antes deambulando no meu cérebro, entre as dúzias de neurónios que me foram presenteados à nascença em vez de me abrirem uma conta poupança. Então, numa esquina, topei com a notícia das eleições na Índia. Fui ver melhor, através dos vidros da loja.

Vi, mas não processei, que havia  814.5 milhões de pessoas que podiam votar. Mas isso não é nada, dirão vocês. Afinal, havia 8.251 candidatos. Não sei, bateu uma pequenez, uma coisa, apeteceu-me esconder-me algures, vi uma poça de água na rua, fui ver se ela me cobria, afinal tinha lama e óleo, de maneira que me sentei na praia, de onde podia ver as outras 9 ilhas do meu minúsculo arquipélago onde as quinhentas e tal mil almas, fazendo pelas suas vidas, não enchem um bairro de uma cidade média algures no mundo.


Deu-me uma preguiça... se aqui é o que é, com as eleições, com as centralidades e queixas, com uma ilha do tamanho do Sal a querer duas câmaras municipais para dividirem os recursos já tão parcos, como é que será gerir aquela galáxia que é a Índia? 

Haja Via Láctea!

(Foto da Wikipedia)