Soncent

Soncent

quarta-feira, 20 de julho de 2016

A gente da Praia - extrato de A Artista

 
A gente que a recebeu a Artista era boa – o Anacleto era sobrinho do Honório e vivera uns tempos em casa dele, daí sentir que tinha a obrigação de velar pela Imelda. Era um homem sóbrio, careca e bastante queimado pelo sol, com uma perna ligeiramente mais curta que a outra. A Santinha, a mulher dele, era uma santa. Muito protetora, muito decidida a pôr alguma carne nos ossos da priminha, coitadinha, que viera da Boa Vista carregada de queijos, mas estava tão magrinha. A Santinha era muito parecida com o marido, alta, escura, de ombros um pouco largos de mais e umas mãos enormes.

Eles tinham três filhos em casa e a Artista tinha que partilhar o quarto com as duas meninas da casa. Que  eram excelentes miúdas. Simpáticas e carinhosas. A Artista é que, até à data, não partilhara nada. Nem quarto, nem sono – acordava por qualquer motivo, muito assustada – não estava acostumada ao barulho todo em casa, não estava acostumada sequer ao suave ressonar da prima Babinha, que sofria de alergias. O susto maior vinha da Roselma, a prima mais velha, que rangia os dentes nos dias das vésperas dos testes na escola. Também estranhava ter que esperar para poder ir à casa de banho, a mesa numerosa, ter que comer o que estivesse na mesa ou ficava com fome. 

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Minha campa

Minha campa,
um túmulo sem asa,
vagando sem flor
num mar de jasmins
e outros querubins
caídos
e vaiados por mim. 
 
Minha campa,
má memória de capim,
meu céu fortuito e carmim. 

quinta-feira, 30 de junho de 2016

My great influences in Literature


 
My work has had a number of great influences, the first of which was my mother. She used to read silently every night before sleeping. I slept with her and watched with envy, wondering how she could understand what was written on each page. I was intrigued and attracted by the written word. I remember, as a toddler, as my mother explained to me that each letter had a sound, each word a meaning. Some years later, when I started writing verses, she did not immediately believe they were mine. But as soon as she understood she had a small writer at home, she started motivating me and keeping my short poems.

Luís Fernando Veríssimo and Gabriel Garcia Marquez showed me that stories did not have to be real or even realistic; we can just let our imagination be the real thing. Finally, William Somerset Maugham may have been the greatest influence of all. I met his books at an earlier age and although he was the opposite of the other two authors who have influenced me, all too serious and formal, I loved how his writing allowed me to penetrate the soul of another human. For this exquisite voyeurism, I would repeatedly read his short stories and novels.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

De ouro

O copo cheirava a chá de hortelã, sem pimenta. Um copo tosco, vidro encardido. Uma garrafa ao lado, essa aparentemente de cristal, transparente e brilhante como se lavada para aparecer na TV. Mas chá, depois de três meses de a casa estar fechada? Não fazia sentido.
 
Rebolei no chão para escapar a uma bala perdida. Mas não houve estampido nem furo na parede. Em contrapartida, o meu macacão de bombeira ficou imundo de pó e cimento. Encontrei, enquanto me levantava de novo, o atacador de ouro de um brinco. Só o atacador. De ouro.

A pena que às vezes canta

 
Parecem ir bastante longe os tempos em que de manhã, vinha bloggar, sem assunto nem agenda, pelo simples prazer de escrever numa página em branco e também, às vezes, por algum sentido de dever para com os que, de manhã, como eu, vinham ler o que os bloggers haviam escrito.
 
Os tempos mais gloriosos terão sido enquanto estava na GDP, o meu primeiro trabalho, que coincidiu com a criação de Soncent. Depois foi quando estava na Irlanda, isolada numa ilha em inglês, em que as pessoas eram muito simpáticas mas incrivelmente frias e eu, animal tropical, deixava-me afectar pelos dias cinzentos, pela falta de amigos.
 

terça-feira, 14 de junho de 2016

Este cofre não!


Vou a um banco e está este cofre no gabinete da gerente. E penso, e penso, e censuro-me até mais não aguentar e digo-lhe:

- Desculpe o atrevimento, mas este cofre nem dá vontade de roubar! Um cofre que se preze deve ser brilhante, novo, impecável, para deixar a cidadã com água na boca! Este dá é pena!

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Sopa de artistas


 
O Chico Buarque olha para mim com aquela cara séria e eu também olho para ele, sem me poder desviar um segundo. Venho de um leilão onde por pouco, arrecadava o piano da Nina. A verdade é que não haveria jeito de o subir em casa, então teria que o doar para o Conservatório e depois ir lá todos os dias enxotar quem nele quisesse tocar. Algures, ao longe, soam as notas e se o vento está de feição, ouve-se... Geni...

O Caetano disse que passaria pelo café, mas deixou-se ficar com o Cohen em Silves, que é uma cidade muito bonita onde nunca pus os pés, porque para tal teria que ter dito à Ryahnna: não precisas de mostrar os seios dessa forma para venderes discos.