Soncent

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quarta-feira, 20 de abril de 2016

Cabo Verde em 2030




Por alturas da organização do II Fórum da Transformação (maio de 2014) pediram-me que escrevesse a minha visão do que será o país em 2030. E escrevi isto:




2030 é celebrado por todos em Cabo Verde, até nas ilhas onde não havia muita tradição de apitos e barulho à meia-noite. Pudera! O país vira tanto desenvolvimento nas últimas décadas que parecia maior, como se as suas ilhas tivessem crescido.


Mas em tamanho, estava tudo igual. Até havia menos cidades e municípios, à medida que o crescimento levara à fusão de algumas cidades e algumas câmaras tinham conseguido chegar a acordo a fundirem-se, ganhando, desse modo, maior força e economia de escala. Fora o que acontecera em Santiago e no Fogo. O Governo tornara-se mais enxuto e dispersara-se pelas ilhas. Que se visse o efeito que a instalação de dois ministérios tinha tido na ilha da Brava! O Parlamento tinha também ficado mais leve e os deputados eram bem pagos mas tinham imensas exigências sobre eles.


sexta-feira, 15 de abril de 2016

Ama por inteiro

"Quando se ama, naquele exacto segundo em que se ama, tem de se acreditar que é para sempre. Mais: tem de se ter a certeza de que é para sempre. Amar, mesmo que por segundos, mesmo que por instantes, é para sempre. E é isso, essa sensação de segundos ou de minutos ou de dias ou de horas ou de anos ou meses, que é para sempre. Ama. Ama por inteiro. Ama sem nada pelo meio. Ama, ama, ama, ama. Ama. Porque é só por aquilo que te faz perder a respiração que vale a pena respirar."

Pedro Chagas Freitas

Tudo por ela - Rated R


- Cobres-me de elogios todos os dias, acaricias com penas imaginárias a minha face, lanças pequenos beijos em direção aos meus olhos. Imagino que se me encontrasses deitada numa maca, cravejada de pregos e pioneses, me fosses  besuntar o corpo com cremes parafinados perfumados, enquanto, com um paninho de turco egípcio, colherias as gotas de sangue do meu martírio.
- Tudo pela tua vagina, querida. Tudo pela tua vagina.
 

O inquilino da Madalena


 
 
Negesse Pina era o nome do inquilino da Madalena, um mulato escuro, largo em tudo. Nos ombros, no queixo, no rabo e na cintura. Tinha saídas giras. Disse à Madalena que não queria que ela lhe abrisse a porta. Queria era trepar até chegar às janelas dela e deitar-lhe a cabeça no colo. Mandava-lhe mensagens todos os dias e poemas e elogios e  enchia-a de promessas e de garantias; queria dormir com ela de conchinha, queria fazê-la sua mulher, dar-lhe todo o carinho e atenção.
 
Atenção limitada, ela haveria de descobrir, porque ele ainda estava casado com uma senhora em São Tomé, com quem tinha quatro filhos e um Fiat Uno.
 
 
 

terça-feira, 12 de abril de 2016

quinta-feira, 31 de março de 2016

De papel

- Sua solidez é de papel.
- Como assim, de papel?
- Papel! Esse que se queima, se dobra, que amolece e se desfaz em água.

Puslândia

Trazia, nos lábios, uma epidemia de fungos que me pôs em estado de sítio.
 Mandei-lhe com uma carga de pomada para cima, cimento cola a escorrer-lhe pelo promontório do queixo, fazendo bifurcação no pescoço, uma ondulação catastrófica na gola da camisa.
 
Seríamos todos salvos daquela boca opaca, dos dentes enxutos, da língua desabrida. Poupados da puslândia imunda que ele nos queria espirrar para cima.