Segunda-feira, 13 de Maio de 2013

Saudades a despropósito VI

O meu jardim de infância tinha um pátio em cujo centro, uma amendoeira...

... Coitada.

Era pequena - do tamanho de um adulto, talvez? As suas amêndoas eram o fruto mais doce, cobiçado, fruto de guerras, de declarações de posse. Lutávamos com dentes e unhas sujas e puxões de cabelo para obter o troféu que na verdade era amargo...

... Porque sempre verde.

Segunda-feira, 11 de Março de 2013

A arrumação segundo Eileen Barbosa

Deixem-me começar por vos dizer que descendo de famílias que datam desde a origem dos tempos e que nenhum de nós, na minha linha directa, foi alguma vez abortado nem morto antes de se reproduzir. Isto é sem dúvida um grande feito (comum aliás, a todos nós que estamos vivos).
 Para além deste facto curioso e de poderosas consequências, de ambos os lados, herdei os famosos genes de arrumação. Os do meu pai, de um impressionante pragmatismo e metodologia. Os da minha mãe, menos pragmáticos mas muito eficientes.
 Assim, seria de esperar que eu fosse a verdadeira fada da arrumação.
 Não digo que não seja, mas os meus genes estão dormentes desde há coisa de trinta anos. Quando adolescente, havia dias em que decidia que o meu guarda-fatos estava por demais desarrumado e que era imperioso pôr ordem àquilo tudo. Voluntariosamente, abria as portas à coisa, agarrava em todos os cabides e depunha as roupas em cima da cama, para poder escolher as que ficavam e as que iam à vida.
 
Mas eis que se dava sempre um fenómeno a modos que curioso: olhando para a montanha de roupas em cima da cama, dava-me um profundo desgosto, uma sensação muito próxima do pânico e uma total incapacidade de mexer numa única peça. Assim, fugia do quarto e à noite, afastava as roupas todas para o lado à meia luz e dormia na nesga de colchão que sobrava. As roupas ficariam lá durante alguns dias, até que a minha mãe me desse três gritos, ordenando que as fosse arrumar imediatamente. Eu não conseguia e depois de mais alguns dias e algumas discussões, lá a pobre da empregada voltava a meter as roupas no maldito guarda-fatos.
 É claro que melhorei ao longo dos anos: aprendi a nunca tirar as coisas do guarda-fatos de uma só vez.
 
Mas continuo com uma metodologia para lá de distorcida:
Mudo-me para uma casa nova. Há vários cômodos que precisam de ser arrumados. Começo pela casa-de-banho. Encho umas coisas nas prateleiras e dentro do saco, encontro uma peça que pertence à cozinha. Vou levá-la à cozinha e lá, topo com várias latas em cima do balcão. Começo a arrumar as latas na dispensa e fico com as mãos sujas de pó. Vou lavá-las à casa-de-banho e vou à procura de uma toalha algures no quarto. Aproveito que estou aí e penduro algumas roupas. Depois, decido que devo pôr uns enfeites algures. E no final do dia, a casa está igualmente caótica, porque não em concentrei em nenhuma das divisões.
 
Mas estou super cansada e diverti-me imenso!

Coisas

Sinto-me uma fraude.

Há vários meses que entretenho ideiais minimalistas. Possuir apenas o que necessito. Livrar-me dos pesos mortos. Leio blogs acerca disso, dou aulas magnas à minha mãe.

 Criei fórmulas para obter o exacto número de camisas, calças e cordões que devo possuir. Livrei-me de cadeiras, de mesas, dei e vendi peças de roupa. Mas na semana passada, estando a organizar mais uma mudança de casa, era tanta a tralha que me encarava com olhos de peixe morto, que jazia pelo chão e nem pedia pela sua vida, nem implorava por ir comigo… Mas que eu lá ia enfiando nos caixotes, metendo nas malas, desesperada, pensando que sim, vou deitá-la fora mas preciso de tempo, tempo para escolher, tempo para me despedir, e sei traçar as origens de cada objecto e conheço a cor de toda a peça, o seu cheiro e peso e textura. Porque é que nos agarramos tanto às coisas?
 Ou serão as coisas que nos agarram a nós?
 Saí há mais de um ano da CI mas até há semanas, ainda guardava o caderno em que tomava as minhas notas, para o caso de vir a ser necessário. Depois, um dia assim, de sol, convenci-me: isto já não vai ser necessário para nada. Enchi uma tina de água na banheira, afoguei o caderno, depois cortei-o em postas, amachuquei-as todas e para o lixo é que vocês vão. E não, não aconteceu que no dia seguinte, me ligaram a pedir a data daquela reunião. Não aconteceu absolutamente nada.
 Já fiz isso com umas poltronas que, se não me viram nascer, estiverem presentes quando andei a ouvir cassetes da Joana e a pedir para faltar ao Jardim de Infância. Não as afoguei, limitei-me a pô-las na rua e horas depois, já aí não estavam e nunca mais perdi uns segundos a pensar nelas, nem lhes senti a falta.
 É na verdade, libertador libertar-nos dessas libertinices de ter tanta coisa metida em guarda-fatos, debaixo das camas, a encher as prateleiras e a apanhar pó.
 
E depois acontecem acasos felizes de no mesmo dia, encontrar-me com duas amigas vestidas com roupas que já foram minhas. Mas que fico muito contente por já não serem.

Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2013

Eu brinco, tu brincas?


E assim, enquanto faço coisas mil que não postar em Soncent, este mesmo Soncent aniversaria - a 27 de Janeiro, completando 7 anos.
 
Depois, vou eu à ilha mãe, que estava bonita de se ver: as rotundas em flor, a baía jubilosa, uns prédios do Casa para Todos de dar água na boca e um mar, um monte de caras conhecidas e sorrisos queridos.
 
Não houve Laginha para mim, não houve Calhau nem nada parecido - fui em serviço - mas houve uma das actividades que mais aprecio ultimamente - brincar. Abro as portas dos guarda-fatos. Identifico imediatamente as peças novas. Retiro-as do cabide, visto-as, vou ver-me ao espelho. Ponho-as de novo no lugar.
 
Experimento todos os sapatos. Ando com eles um bocadinho, é sempre uma decepção nova redescobrir que são demasiado grandes. Volto a arrumá-los. Depois vou à casa de banho, mexo e remexo nas caixas que revelam os seus segredos: cremes de rosto, cremes de corpo, cremes de mão, cremes de pé; maquilhagem sortida; frascos de géis de banho, máscaras hidratantes, pequenas amostras de perfumes, óleos de cabelo. Necessaires com bijutarias, com apliques de cabelo, bugigangas.
 
Depois vou às minhas gavetas, onde estão depositados as cartas dos idos anos 90 do século passado. Os meus cadernos do liceu, as roupinhas que já não me vestem, um estojo com peças soltas de sei lá o quê. Um estojo que usei no jardim de infância, uma carteira que a Tia Mercedes me fez na primária. Os originais de alguns dos meus contos, escritos na minha letra muito feia, num pedacinho de papel qualquer. Fotos.
 
E rejubilo-me, e sinto-me em paz, e sinto-me em casa.

Já não há Vô Tina

Fui a Soncent há dias e pela primeira vez nos meus 31 anos de vida, não havia a visita costumeira à  minha Avó. Ela deixou-nos no mês passado, depois de, aos meus olhos, ter vindo a perder a saúde de uma forma rápida e surpreendente, ela que fora sempre um pouco frágil mas ao mesmo tempo, rija e sempre muito lúcida.
 
Pois, em Agosto do ano passado, quando estive lá à sua frente e ela me perguntou pela Eileen e lhe respondi que estava aí e ela continuou a perguntar por mim...

Sei lá, dei-me conta de que já a tinha perdido e vim-me embora a chorar pela rua abaixo, lembrando-me dos momentos muitos que passei com ela, desde os tempos em que ainda ia à Loja a pé, apoiando-se no meu braço e cumprimentando toda a gente, enquanto eu sentia aquela mão enorme bem agarrada a mim, debaixo do sol das três da tarde.

Ou de estar a passar uns dias em casa dela, dizer-lhe que queria sair e visitar algum amiguinho, e ela dizer-me que ligasse à minha mãe na Enapor a perguntar se podia. Ou ainda, ela a oferecer-me bolachas, bananas, rebuçados, o que fosse, porque afligia-a receber uma visista e não lhe poder oferecer alguma coisa.
 
 

Neste amplexo de fibra sintética


Subo as escadas arrastando-me pelas paredes. Galgo sem energia estes degraus que me afastam. Faço um pedido chorado.



 - Que me ponhas ao colo…

 
Mas não há colo para mim, então escondo-me debaixo dos mais pesados cobertores e peço-lhes que se façam de útero. Há neste amplexo de fibra sintética, neste calor falso, algum conforto? Deve haver, pois enfim adormeço.
 
Depois de me levantar, sou atraída pela luz da manhã. Encosto a testa na janela, olho o mar. Penso em ti. A minha vida é um pensar em ti que nunca mais acaba.

Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2013

Beleza interior ou interna?

Quando dizes que bem lá no fundo não és feio, queres dizer que tens umas belas vísceras? Um estômago brilhante, uma bexiga enxuta, quiçá, veias e artérias uniformes e que maravilhosa que é a tua vesícula?

Na canela


Por cá, uns morrem, outros contradizem-se.

Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2013

Exportações domésticas

Leio no A Semana que os agricultores de Santo Antão já exportam para o Sal e Boa Vista e vem-me um sorriso de satisfação ao rosto.
 
A minha visão do turismo em Cabo Verde tem sempre sido a de que não há problema em haver concentração em 2 ou 3 ilhas, desde que as outras também beneficiem, enviando para lá os seus produtos, sejam agrícolas, sejam outros.
 
O que não impede que haja turismo em muito menor escala nessas outras ilhas. A concentração é mais viável, pois as infra-estruturas turísticas não têm que ser multiplicadas e rentabilizam-se as existentes. Basta pensar nos aeroportos internacionais que, se dependesse da vontade de alguns autarcas, nasceriam feitos cogumelos em cada cutelo do país.

Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2013

Os insones da noite


Como é que, a meio da noite, quando todos dormem, nós apelamos aos que estão acordados? Como é que bradamos pelos despertos sem despertar os dormintes? Nós, os insones da noite, como é que nos juntamos uns aos outros e damos as mãos em meio ao silêncio que nos cobre? Teria que ser um silêncio tosco para o quebrarmos com os nossos suspiros. Teria que ser um silêncio morto, quando os acordássemos com os nossos ruídos.

Três anos


Três anos trancada nesta ilha. Mas hoje eu fujo a nado, hoje galgo num navio, hoje, saio pela porta dos fundos e mais ninguém me vê.

Os farrapos da Interbase


Para o W, que mo inspirou, sem saber
 
TRAZIA OS murmúrios na ponta da língua, como alguém que se tivesse queimado de saudades.

Gostava dele assim, cansado e enojado da vida, que era como chegava, arrastando atrás dele um saco de melões a sangrar ou um frango roubado e já depenado. Fugiam logo para o armazém, que era onde ela escondera o colchão de todas as dores, as minúsculas posses, poupanças de uma vida.

Parece que numa outra vida ela tinha sido alguém, mas ele nunca fora ninguém e sinceramente, que interessava isso agora, no estado em que ambos estavam já eram restos de outras coisas, pesadelos ambulantes nos quais o amor errara de lugar tantas vezes que quando os encontrou, foi necessário um único sopro para os tornar inseparáveis.

Encaixavam-se em tudo e nos poucos desentendimentos, cada um cedia sem um queixume, sem nenhum azedume. Ela gostava de ficar acordada à noite ouvindo-o ressonar, porque nunca antes tinha tido assim, alguém que dormisse de forma tão profunda ao seu lado, alguém que não tivesse medo de se perder no seu braço. Depois das primeiras horas da madrugada, levantava-se, vestia-se silenciosamente e partia para a faina. Recolhia os sacos de lixo de três barcos num carrinho de rodas e trazia-os de novo para a gare, onde judiciosamente examinava os despojos. Já não lhe cheirava a nada, esse lixo fresquinho, acabado de colher. Nem lhe sabiam a azedas as sobras que encontrava e que jeito lhe davam as bugigangas atiradas fora.

Ele tinha uma faina toda ela diferente mas era terrivelmente preguiçoso. Talvez não tão preguiçoso e apenas mordido pelo álcool, arranhado pelo trabalho duro, atingido na cara pela falta de proteínas, pelo excesso de nada. E roído de ressentimentos.

Foi neste cenário que numa quinta-feira à tardinha, a Interbase começou a arder, do nada, mais rápido que fogo posto, mais depressa que um fósforo. No tempo em que se leva para se dizer “Ardeu-se a minha vida” tinham perdido o colchão, os seus outros parcos haveres, a sua poupança e o seu orgulho. Voltaram a ser farrapos, veio o vento e levou-os, sabe-se lá para onde.

 

28 de Dezembro de 2012

2013


É como um pato sai da água, sacudindo, arrepiado, as gotas geladas de Janeiro que entrou em boa companhia, que venho escrever este post à inauguração de 2013 neste blog velhinho, que caminha para os 7 anos, uma idade bonita e que me cai muito bem porque entre mim e o número 7 há uma relação de mútua afeição.

Dizia, venho com pele de galinha ao Soncent, venho de peito aberto e patas de urso dar-vos um abraço caloroso e muito peludo, depois de uma hibernação de um mês que aproveitei para rabiscar umas coisas cada vez mais esquisitas – que irei partilhar, claro – e atravessar fronteiras, ir apanhar frio a Lisboa, por motivos também eles românticos, não fosse eu um coala afectuoso, uma gata de colo, enfim, um mamífero a quem o leite deixou de bastar.

Por estes dias vocês terão sido já bafejados com muitos votos de muitas coisas boas, ele é bom ano, ele é boas entradas, ele é tudo de bom, ele é muita saúde, muito sucesso, muita alegria e amor, há mesmo quem deseje muito sexo, o que não deixa de ser bem avisado.

Eu, na senda de ser original, queria evitar repetir-vos a mesma coisa, embora desejando, do fundo do meu coraçãozinho, que os leitores de Soncent, os seus parentes e aderentes tenham, sim, um excelente ano de 2013, que sirva de referência para os anos vindouros como o ano em que nos divertimos mesmo que com coisas pequeninas, o ano em que decidimos olhar com atenção à nossa saúde, o ano em que nos aproximámos mais da nossa gente – ele é tios, ele é avós, ele é amigos e vizinhos, ele é os mais pobres que nós.

E o ano em que passamos a celebrar mais a alegria de estarmos vivos, em que vimos menos televisão mas nos rimos mais, em que nos sentámos uma vez por outra na soleira da nossa porta com os nossos filhos e lhes contámos histórias do tempo em que nós também erámos crianças.  

Então, sem medo de ser repetitiva porque é na repetição que assentamos a mensagem: Bom ano 2013 para vocês!

Terça-feira, 4 de Dezembro de 2012

SMS III

A tua proposta soa-me como alpista a cair do céu, o sonho de um piriquito roufenho como eu.

SMS II

"A Universidade Tácita é uma eminência (parda) em termos de homenagens latas a capacidades natas", dizia, no outro dia, o reitor daquela instituição de ensino. Um reitor claramente sui generis, de grande sapiência e capacidades comunicatórias e comunicativas que, como toda a gente sabe, não são a mesma coisa.

Cuidem da minha vida... Uma visão enviesada sobre o lado profissional

Fui uma aluna de vintes, de dezanoves, de dezoitos mas à primeira negativa, perguntaram-me se o que queria era ficar em Cabo Verde a atrabalhar atrás de um balcão.
 
Não ficaram satisfeitos, que desperdício - disseram - quando optei por estudar Turismo e Marketing. Era tão pouco para mim, que fora tão boa aluna e estudara Matemática e Física e agora ia estudar Turismo!!?
 
E quando regressei do curso, sem nenhuma reprovação, sem sequer ter posto os pés numa sala de exame, que pressão que me fizeram para arranjar logo trabalho, para não perder tempo nenhum a descansar, a aproveitar que só tinha 22 anos. Olha que o mercado não está fácil.
 
E quando, depois de ter trabalhado alguns aninhos, me vi numa empresa que não ia a lado nenhum, para onde eu ia sentar-me durante oito horas sem que me fosse pedido ou dado nada para fazer, me vim embora, as vozes que me disseram que não se abandona um emprego sem ter outro. Que ideia!
 
E durante esse período no desemprego, em que trabalhei como guia turístico, em que participei num concurso literário e o venci, em que fiz traduções e pensei na vida, mas enquanto o fazia, lá me sustentava sem pedir tostão a ninguém, na mesma me vieram perguntar qual era a minha ideia e se não pretendia arranjar um trabalho e até quando ia continuar nessa vidinha.
 
E quando depois de outras experiências válidas, me convidam para uma função que encaixava imensamente bem na escolha do curso, que era uma experiência interessantíssima, exigente, quantos se irritaram por eu estar a ganhar dinheiro.
 
E quando, ganhando muito menos dinheiro, ocupei uma posição de apoio ao Governo, eis que mais se incomodam, se revoltam, porque estou do lado mau, estou do lado dos que têm poder e já não posso mandar bocas e já não posso criticar.
 
Pois...

Quarta-feira, 28 de Novembro de 2012

Esta época mágica

Esta época mágica, em que não está frio mas também já não faz aquele calor obsceno; estas manhãs mais cinzentas, às vezes com pinguinhos de chuva, às vezes só com uma brisa que sentimos vir lá de longe, uma brisa que passou por montanhas verdes, por cumes cheios de neve, por planícies cheias de bezerras branquinhas, vacas malhadas, quiçá um ou outro suíno gordo e cor-de-rosa; uma brisa enfim, que veio desde lá onde mora o tal do Pai Natal, que, como toda a gente sabe, mora numa casa de madeira entre dois rios, numa zona de moinhos de vento e moinhos d'água, numa zona com relva pelos joelhos e onde as andorinhas fazem os seus ninhos.
E esta brisa sopra-nos na cara e lembra-nos que Dezembro vem vindo, um mês de alegrias e famílias e celebrações e memórias de outras alegrias, outros seres queridos, outras celebrações. Então esta época, por ser tão mágica e querida, preenche-nos assim o coração e contamos os dias para que cheguem os dias mais importantes, esquecendo-nos que estes até são melhores, tantas vezes é melhor a antecipação que a coisa em si
E porque sim, porque estou com o coração cheio de antecipação e alegria que vos mando a todos um beijo soprado, leve mas quente, não aquele que queima mas do calor do pão quando está fresco e tiramos da padaria com um suspiro de satisfação.

Segunda-feira, 26 de Novembro de 2012

O elogio às amigas


Como em qualquer vida bem vivida, a minha biografia é contraditória. Uns dizem que eu era muito extrovertida e fazia amigos no trajecto que levava do meio de Avenida Marginal até ao Passo. Outros acusaram-me de ser altamente anti-social, antipática, anti em geral. Enfim.
O que é certo é que tive sempre mais amigos que amigas, o que nem ficava mal se não fosse o azar de ter que completar as listas de convidados para as festas. Enchia-as rapidamente de rapazes mas depois era uma canseira lembrar-me de meninas.
Por que é que me dava melhor com eles do que com elas? Era mais fácil. Menos sensíveis e mais divertidos do que as colegas? Mais curiosos? Cultos? Muito provavelmente. Pode ser também que me aceitassem melhor. Pois muitas raparigas da minha idade viam-me como um ser diferente e eu era-o de facto: nunca tive instinto de manada, nunca fui de seguir modas ou dizer ámen à líder do grupo. Nem fui de grupos em geral. Tinha uma forma pouco ortodoxa de me vestir e de me comportar. Fui uma maria-rapaz, de certo modo. E tinha um certo olhar...
 
Ora, de repente, e fazendo uma revista às minhas tropas, dei por mim a achar mais piada às minhas actuais amigas. São ainda profissionais fortes, têm a vida organizada, são responsáveis. Dou-me com mulheres altamente inteligentes, cultas, divertidas, confiantes e bem formadas. Conversamos sobre tudo. Rimo-nos. Andamos de carro com música alta, vamos à praia, a bares ou passamos algumas horas umas em casa das outras, a ver filmes, a jogar, a conversar. Também se cozinha, também se seca o cabelo uma à outra. É giríssimo o que andei a perder!
 
 

Quarta-feira, 7 de Novembro de 2012

O burro vence o elefante

A Embaixada Americana organizou ontem um cocktail em que o prato forte era a votação presidencial em que todos os presentes tomaram parte, que resultou, é claro, numa vitória ribombante de Barack Obama. Mas só hoje de manhã é que vi confirmada a vitória também nos EUA, o que mostra que estamos antenados e em harmoniosa sintonia com o povo americano.
 
Entretanto, a vitória é também celebrada pelos 4 cantos do mundo, desde o Japão (onde toda a gente sabe, o mundo começa) passando pela China (que é o meio do mundo e um mundo em si mesma) até aos outros 2 cantos (quais serão?)

A nação crioula, lá no território ou cá, parece estar toda ela também contente com os resultados. Eu estou.

Segunda-feira, 5 de Novembro de 2012

Poema da confissão


Gosto tão pouco de ser

Coligada mais à poesia que à prosa

que sempre que me convidam

para um certame de rimas,

o meu primeiro reflexo

é negar-me.

Não gosto disso,

apetece-me dizer.

É verdade que comecei com quadras,

é certo que ainda escrevo uns versos,

mas do que gosto mesmo de ler,

e de escrever é texto corrido,

é conto,

Crónica, romance.

Bad boys on the bleach

Acabo de ler a crónica do Nardi Sousa "A cultura do bad boy". Nela, descreve as características dos tipos maus da fita, que andam de "cara runhu" e conquistam mais mulheres por terem traços mais associados à masKulinidade que podem advir exactamente do facto de muitos deles desconfiarem da própria dita cuja.
 
Ou seja, e em interpretação livre: os homens pelos quais as mulheres se sentem mais atraídas quando querem ter uma aventura parecem ser muito machos exactamente porque não o são tanto assim, donde, sentem que o devem fingir o tempo todo, enquanto que o homem pacato, simpático, pelo qual não nos interessamos a não ser para casar, esse sim, é o verdadeiro homem, que por o ser, não sente necessidade de o mostrar.

O chato é que descobri, na descrição, nas entrelinhas, no entremeio, que eu sou um verdadeiro Bad Boy e não um homem a sério... eu também duvido muito da minha masculinidade.

Quinta-feira, 18 de Outubro de 2012

Memórias copiadas

Eu nunca passei férias com os meus avós, em Portugal,  certamente por uma série de razões válidas que eu reduziria, por economia de tempo e espaço, a: tratamento diferenciado entre irmãs de pai e mãe.
 
Assim, nunca andei a queimar dinheiro em Portugal, comprando uma série de coisas coloridas de utilidade duvidosa, nem fui ao Pão de Açucar, nem convivi com a prima Djamila nem, certamente, comi os pastéis da minha Avó Elisa.
 
Muito menos passei uma tarde a ouvir músicas dos Dire Straits com o meu Avô José, ora essa. Mas a descrição que a Nádia me fez foi tão vívida (ela tem dessas) que sempre que oiço o grupo, penso em mim e no Avô, na sua casa em Benfica, ambos numa poltrona, a deliciar-nos com os acordes.
 
Mas só agora me dei conta do encanto dos títulos das canções: ele é Private Investigation, ele é Ticket to Heaven, ele é Cannibal. Dêem-me tempo e espaço, e escrevo um contito para cada.

Os benefícios da greve?

A minha rádio matinal é a RCV+ mas quando a música não está boa, oiço a Comercial. Hoje, como acordei para o lado esquerdo da cama, sentia uma certa vontadezinha de mudar a rotina de todos os dias pelo que escovei a Taska em vez de ir passear, tomei leite com café em vez de leite branco e liguei a RTC em vez das outras rádios.
 
Estava a tocar música clássica, que surpresa, que enlevo! Depois, música dos anos 60, depois, uma mulher com voz melodiosa a cantar versões de canções rock da minha adolescência.
 
Só ao sinal horário me lembraram que era por a RCV estar em greve que se ouvia músicas tão boas...

Comunicações

A Dra. Wanderleia era para o baixo, como um arbustinho, mas bem composta. Vinha sempre mediamente arranjada, discreta, e embora simpática, não se abria muito a comentários fora de horas.
 
Mas o Dr. Cubúculo era de tomar liberdades mesmo que não lhas dessem. Foi assim que, num dia em que viu a Dra. Wanderleia chegar toda pimpim, com 5 pulseiras numa mesma mão, mais um anel cor de rosa, mais um lenço na lapela e uma série de outras frescuras como unhas pintadas, maquilhagem nos olhos e perfume, não resistiu a perguntar:
 
- Com quem é que vai tomar café e pedir em casamento esta manhã?
- E porque pergunta o meu colega?
- Pois, você hoje traz mais enfeites e maquilhagem do que trouxe durante estes dois anos...
- Ah. Sabe que a roupa e os enfeites são formas de nos comunicarmos...
- Então a sua comunica que arranjou um namorado novo?
- Não, atrevido, comunica que tive imenso tempo hoje de manhã...

Quinta-feira, 11 de Outubro de 2012

Momento da verdade

Quanto mais gosto de mim, mais gosto de terceiros. E mais bonitos me parecem.

Momento auto-estima

Não que isto vos interesse para alguma coisa, mas...

Estou absolutamente apaixonada por mim mesma.

Segunda-feira, 8 de Outubro de 2012

A osga II

Osgalina, depois de perder Osgapreta, vagueeou pela casa sem direção e acabou por amanhecer dentro da jarra de sumo, por lavar, dentro do lava-loiça. Foi aí que a dona da casa a encontrou, primeiro fazendo-se de morta como a falecida, depois tentando sair pelos próprios meios da jarra.
A dona de casa pensou em telefonar a meio mundo para pedir uma opinião, mas sem telefone fixo +, optou por pegar da jarra e ir sacudi-la na varanda, pensando que se Osgalina tivesse sorte, chegava lá em baixo viva.
A Osgalina não teve sorte.
A dona da casa ficou com pena da Osgalina. Mas a Osgalina devia ter notado, pela morte de Osgapreta, pelo ausência de outra reptilência, que a casa não era propriamente amiga de osgas de grande porte.
No entanto, e para se redimir de tanta maldade contra "um bicho que não faz mal a ninguém" avisa a dona da casa que se se deparar com outras cidadãs da Osgalandia ilegais no seu território (cuja renda mantém actualizada), irá colocá-las cuidadosamente numa caixa e mandá-las entregar em casa dos que sentiram pena das falecidas. Inscrevam-se, fachavor!

Uff... tanta prosa para publicar uma foto...

A Taska foi à barragem.
Este post poderia começar com "A minha mãe foi à barragem."
Se começasse com essa afirmação, a foto seria da minha mãe  e não da Taska.
Se a foto fosse da minha mãe, ela iria reagir, queixar-se, quastionar o porquê que lhe ter cascado uma foto em que está de boné, óculos escuros e sem batom, num blog com uma projeção tal como Soncent.
Já a Taska diz-me que não se importa nada de aparecer sem coleira e com o traseiro em destaque.
É esta falta de vaidade e a simplicidade com que a Taska encara a sua vida que nos traz todos amantes dela.
E se em Soncent só houvesse posts assim sem interesse como este, não teria a tal projeção.
A Taska foi à barragem. E sim, a água desbordeava.
 
(Desculpem qualquer coisinha, mas o blog precisava de uma fotografia para alegrar...)

 


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