Soncent

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quinta-feira, 21 de junho de 2018

O aparelho - Desatualizado, que já tirei o bicho









Desde que pus o aparelho passei a gerir mal minha saliva. Meus dentes, minha língua, minhas bochechas e lábios estranham o ser estrangeiro que se entranha neles e contestam-no. Minha saliva se rebelou de tal forma que sai sempre que pode, foge de minhas cavidades, aterra em outras caves, às vezes nas mesas, nos pulsos de terceiros e em vácuos amargos. Minha saliva, que eu saiba, deu de fugir chovendo por aí.

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Auto-chuviscação ou como a chuva está no nosso ADN

Se agora não me levantar de onde estou e confiar apenas no barulho que vem da rua, está a chover. Não é de esperar que chova em maio, não é hábito, nem vi nuvens pairando no céu. E no entanto, parece que chove. Ouço o ruído suave de gotas caindo no asfalto, ouço o som de pingos na calçada. Ouço ainda a música da água nos mosaicos da varanda. Ouço isso tudo. E por nada me levantarei para ir confirmar se chove ou não. Desligo a luz, recosto-me na cadeira, fecho os olhos e durante instantes de longa meditação, sou uma cabo-verdiana abençoada pela chuva. 

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Mano, acreditas nisso?

Não sei como é que o Blogger apura as estatísticas, mas aparentemente, o país onde mais me lêem é a Rússia...

Menino dado

Nos anos em que me deixei ficar para trás, bolinando de avesso no transverso do perverso do Severo, percebi que dos amplexos só nos restará o convexo: nada mais que algum sexo, nada menos que nenhum nexo. 

Pior ainda: do sexo transviado cresceu-me um quiabo, nasceu-me um nado, dormiu sem nunca haver chorado. Nem sei se houvesse respirado, nem sei se o tivera amado. À terra foi dado, e espero que não lhe tivesse pesado, a esse menino dado. 

Tinha pensado gritar por ti

Eu tinha pensado gritar por ti da minha janela, acender uma fogueira no meu terraço e fazer-te sinais de fumo - os que nunca aprendi a fazer. Eu tinha pensado em estudar as marés para te enviar mensagens numa garrafa de vidro fosco e para tal bebi o vinho que ela trazia dentro e não consegui escrever a carta, deu-me foi para te ir bater à porta, cantando, desgrenhada, chorando, babada, te amando, desesperada. 


quinta-feira, 3 de maio de 2018

O poema

Que o poema surgisse nu e coberto de tinta, parido num instante de pura rotina, carregado do velho que era mais um dia, desvirtuado por olhares cansados de sempre, enlameado de tristezas quotidianas, que o poema surgisse no meio à imundice da mesmice do pó que paira sobre o sol que se põe além, sem ninguém notar ou apreciar. 

Que o poema viesse pronto e nem rimasse, que fosse tonto e nem esboçasse rires e choros de nula espécie. Que viesse o poema como se chega a dor, que se desse o poema como se dá o amor, que ele chovesse como cai a névoa, que nos cobrisse como nos mancha a fé, que nos fodesse como nos suga o IVA, que nos quisesse como se pede a deus, que nos amolgasse como nos odeia a besta. 

segunda-feira, 26 de março de 2018

Um ano de Eileenísticas na RCV


Fez este mês um ano que (quase) todas as quartas-feiras, antes das oito da manhã, e depois à tarde, passa a minha rubrica literária na RCV. Foi um convite do Humberto Santos que aceitei prontamente, achei uma ideia gira, fiquei contente e orgulhosa. 

Nem sempre fácil. Já gravei Eileenísticas no meu telemóvel, no aeroporto de escala entre Boston e São Francisco, com chamadas e avisos no altifalante e pessoas  a arrastar as suas malas por mim. Já as gravei na noite de terça-feira, em casa de gente, porque me tinha esquecido que no dia seguinte era quarta. Já gravei coisas divertidas e coisas mais sérias. E é um encanto encontrar pessoas que comentam comigo o que ouviram. 

Tem sido muito útil para mim porque ao escolher um texto e gravá-lo, sou como que uma editora estranha que o ouve pela primeira vez e o corrige, o repensa, refina. 

Então, obrigada, Humberto Santos! 

(Imagem da net)