Polimento requerido

Polimento requerido

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Matar o PT


Às vezes há que matar o português. Para escreveres tal como ouves. Tal como te dita o grilo falante, tens que matar o português, dar-lhe com um pau na cabeça. Mata-o, afoga-o. Escreve o que queres, como queres.

Abandono


Votar-me-ei ao abandono dos teus lábios, suaves, nunca apaixonados.
Votar-me-ei ao abandono dos teus braços, cálidos, nunca quentes, ainda que válidos como aliados.
Votar-me-ei enfim aos teus sorrisos nunca rasgados, réus dos meus julgamentos nunca sábios.

Apresentação do livro Fantasmas e Fantasias do Brumário

 
 
 
 
 


Aqui há umas semanas, fui uma dos coapresentadores, na Assomada. Como sempre, falei pouco. Ufa, ainda bem, porque dos outros não se pode dizer a mesma coisa, à exceção do Arménio, que não falou de todo.
Foi assim:

 “Pois é, madame, este é o leite de cobra mais fresco que encontrará no mercado.” Cito de cabeça.

 Foi este o “poema” que Arménio Vieira enviou para a coletânea de poesia chamada Destino di Bai que reuniu, em 2009, poesia inédita de Cabo Verde. Eu já não sei que poemas publiquei nesse livro; mas desta frase do Arménio não me esqueci, por ser tão curta e ao mesmo tempo, tão plena de humor, de audácia, por ser tão inesperada num livro de poesia. Ora, extrapolem, multipliquem, elaborem.

 Arménio extrapolou, multiplicou, elaborou, escreveu. E é assim que nos surge este  Fantasmas e Fantasias do Brumário. Surge desconcertante, surpreendente, arménico. O Fantasmas e Fantasias do Brumário é um livro de diálogo, diálogo com autores, uns consagrados, outros menos; uma conversa com figuras históricas, reais e ficcionais. À primeira vista, parecem devaneios, histórias que surgiram na ponta da caneta quando por ele passou um guardanapo.


Mas! Ainda que sejam devaneios, que bons que são de se ler, divertidos, exóticos na sua frescura, uma obra literária que não se encaixa numa gaveta fácil.

 É um livro que questiona fatos históricos ou grandes ficções, porque sim. É documento da enorme cultura do seu autor, é uma enciclopédia de leves referências a figuras de peso da antiguidade, do passado mais recente, da literatura francesa, da inglesa, da portuguesa. Faz bem as perguntas, atira-as ao éter, à procura da resposta que a nós nos interpela. Nós, que lemos o livro em alguns pares de horas, que nos deixamos agarrar por ele, ainda que em alguns trechos franzamos a testa com estranheza, noutras nos ríamos deleitados. Nunca reagiremos com indiferença.

 Vieira conhece estes personagens tão bem que com eles fala na primeira pessoa, sejam deus ou Eça. Senta-os à sua mesa e nós assistimos, engalfinhados, de cotovelos apertados uns contra os outros, aos embates entre os grandes. Como um jogo de xadrez a grande velocidade. Não se detém nem frente a Shakespeare, nem frente a Jorge Luís Borges. Corrige Camões. Vai de espada em riste contra Descartes. Quer despir Nietzsche. Esmiúça, com lupa e pinça, Cervantes. Menciona a infeliz da Joana D’Arc, faz riola com a Papisa Joana. Descostura a bainha de Ludwig Wittgenstein. Só poupa quem ficou esquecido. É um duelo de ideias com estas pessoas, que, eu sei porque o ouvi dizer, ele considera estarem vivas porque a sua arte sobreviveu e está entre nós.

 O Poeta não nos deu, com este livro, poemas a ler. Mas é mais literatura do que parece caber nestas linhas.
 
 

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Apagam-se as luzes


Apagam-se, uma a uma,
as luzes que nos alumiavam.
Vai descendo, devagar,
a bandeira,
pelo seu mastro menos reto.
 
 Antes que a última luz morra,
vemos por terra, a bandeira.

Morre o homem, fica a obra

Perdemos o Poeta Corsino Fortes. Ficamos com a sua memória gloriosa, de um homem garboso e elegante, com uma forma de ser tão agradável, tão educada, dono de uma pena brilhante. Brilhante!

Lá, desejamos um depois


Lá onde agarramos a mão um do outro, desnecessariamente, fingindo que era porque a multidão nos impediria de chegar ao nosso destino, lá onde me estendeste a mão e eu a agarrei com um pouco mais de força do que seria necessário, sentindo-me pequenina e amparada ao teu lado, lá, também pensaste que podia ser qualquer coisa?

Mesmo que no olhar não tenha havido química, mesmo que na dança não tenha havido física? Lá, conseguiste sentir o que te quis dizer, com discrição, com medo mas com certeza de querer sem saber bem o quê?

Quando só foste simpático porque és simpático e não porque viste em mim o que vi em ti. E o que foi que vi? (Aqui, escrever um romance, descrever cada detalhe, alongar-me devagar, há muito que dizer).

 Quando há segundos contados para se conhecer e estar com alguém, o que é que faz sentido querer que não se sacie com a simples presença, com um toque leve e conversas que nos garantam que se fosse num outro tempo e num outro lugar, haveria tempo e espaço para nos conhecermos e desconhecermos depois, para nos entendermos e desentendermos depois.

Principalmente, desejamos um depois.

 

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Maio incompleto

Geralmente os meus posts sobre viagens começam com "Fui ao Fogo" ou "Fui à China", fato consumado, agora vamos descrever, contar, e geralmente, também dizia um monte de coisas boas, isto era tão bonito e aquilo, tão interessante.

Então, o que foi que mudou?

Primeiro, de costume, vou de avião. Um meio de transporte decente, que não cheira a nada, que embora suba nas alturas, não balança, às vezes treme mas não faz ondas. Por oposição, um barco é um barco e a palavra já diz tudo: tresanda a gasóleo queimado, as cadeiras são de plástico, o chão brilha de gordura, a carga está à vista, e faz por nos tirar da nossa zona de conforto, nomeadamente, fazendo por nos tirar coisas do estômago.  Enfim, um barco. Vejam a forma como temos que abrir a boca para o pronunciar. Só isso é prenuncio de coisa má.

E foi de barco que arribei à ilha do Maio, numa sexta feira pouco depois do pôr do sol, vendo o cais ficar mais próximo e pensando que alguma forma haveria de desembarcar se toda a gente, toda a vida, tinha lá desembarcado. 

Ah, pois: esperam que uma onda aproxime o barco, agarram-te debaixo dos braços com um saco e atiram-te para os braços do outro tipo que nos espera em terra firme. E pronto. Não foi desta que caímos entre o barco e o cais e fomos feitos puré. 


E por falar em costas largas

E por falar em costas largas: estava uma vez de férias em Soncent. Ia muito à discoteca Syrius. Por lá andava também o X. (nome fictício, disfarçado, aqui sob pseudónimo e num programa de proteção de testemunhas) que era enorme.

ENORME.

O X. era bastante alto e fazia culturismo, o que eu não apreciava na altura, achava feio homens fortes demais. O que aconteceu foi de eu começar a pensar se, dançando com ele, as minhas mãos conseguiriam tocar-se atrás das suas costas. Será que eu abarcava toda a sua circunferência? Queria saber.

Mas ele nunca me convidava para dançar.

As noites passavam, o X. lá na discoteca, eu lá  na discoteca, fazendo-me encontrada com ele e nada.

Comecei a fantasiar com o X. Já não queria apenas dançar com ele. Agora queria, sei lá, falar com ele. Definitivamente, abraçá-lo!

De maneira que depois de uns dias, ele estava sentado no balcão da discoteca e fui sentar-me à sua frente, sem mais, e meti conversa. Perguntei-lhe se ele competia. Ele disse que não, que só treinava porque gostava mesmo, não gostava de chamar as atenções, ser avaliado.

Ah.

Perguntei-lhe o que fazia na vida. Ele já estava a responder quando reparei que ele tinha as unhas das mãos pintadas. Enfim, de verniz transparente, mas era verniz. Ele viu que eu estava a olhar e disse-me uma frase que nunca mais me esqueço:

- Sim, pinto as unhas mas não sou gay.

Naquela hora, naquele momentinho, imaginei o portento do homem, de quase dois metros, de pernas cruzadas, mão esquerda esticada, mão direita a pintar uma unha, a língua de fora num gesto de concentração.

Todas os dias de fantasias com o X. se esfumaram frente aos meus olhos, vi-as cair mesmo, género desenhos animados. Disse-lhe qualquer palavra de despedida enquanto me ia embora e não olhei para trás.

Atire a primeira pedra quem nunca.

Cobiça infantil

Cobiço a tua vastidão. Cobiço perder-me e encontrar-me na largura do teu peito e no calor do teu pelo. Anseio pelos teus braços ao meu redor, apertados e alertados pela minha proximidade. Almejo roçar, pequenas, as minhas mãos nas tuas costas enormes. Um abraço sem volúpia, quero enganar-me. Sem sofreguidão, apenas um bebê que se alinha no pai, protetor invencível contra todos os males.

terça-feira, 16 de junho de 2015

As amizades são bonitas, são, são!


Isto foi num dia em que a Luci me perguntou se queria ir numa aventura. Ora, eu, em ouvindo "aventura", nem preciso que me digam se é para norte ou para sul. Fomos no Portentoso, fomos 3 mais os dois cães, fomos na lama que estava a chover, fomos divertidos e foi nessa diversão que dei por bem ir para a caixa do carro, cantando em altos berros, curtindo estar viva e de saúde.

 De repente, dei por mim quase na beirada da caixa do carro, quase no chão, quando a Luci me viu e travou. Vim a deslizar, de joelhos, na caixa toda molhada e só travei quando o meu nariz foi de encontro ao vidro e por pouco não se partia.

Mas doeu como se se tivesse partido.

O que não impediu a nossa aventura de continuar, ou não fosse Uma Aventura!


Luci e Eileen - numa aventura pós-chuva e antes de quase partir o nariz






sexta-feira, 12 de junho de 2015

Gritos na madrugada

Nunca confessarei as saudades que tenho do tempo em havia uma blogosfera activa, toda a gente lia e comentava os posts e estes eram fruto de trabalho, introspeção e pesquisa.

Estes dias está-me a dar para reler os posts em Soncent e principalmente, reler os comentários. Esta é uma das grandes diferenças entre o blog e o Facebook: aqui, a história mantém-se mais viva, mais acessível, os comentários parecem saltar do ecrã, quase que oiço as vozes da Nádia, do Dudão, do Mr. Guimarães, da Kuskas, do JB...

E o pulsar da vida, este é quase palpável.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Abidjan


Cidades atravessadas por rios... gosto. Verdes, organizadas... gosto. Gostava de ter gostado mais, mas o tempo foi pouco para ver e sentir e cheirar... ficaram as paisagens, o porto a perder de vista, um acidente na estrada, um temporal de chuva que fez desviar o avião que nos levaria a Casablanca.

Ah, Casablanca... 

quarta-feira, 10 de junho de 2015

As ramelas

É preciso uma conjugação de fatores para me lembrar do Garrado, que era um amigo da minha tia Augusta e por quem tive uma paixão muito fugaz, tipo, de uma semana. Uma vez fui passar uma semana com ela e coincidiu com a chegada dele de uma viagem a Marrocos. Era estilista.

Ele deixou-se ficar em Lisboa alguns dias, enquanto tratava de uns assuntos. Fez-se visita assídua lá de casa. Achei-o logo muito interessante. Lera os mesmos livros que eu, vira os mesmos filmes, aconselhara-me outras leituras. Interessou-se pelos meus estudos, deu-me indicações. Levou-me a passear, dançámos uma das noites. Era alto e forte. Dançava bem.

A minha tia, se se sentiu em segundo plano, não o revelou. Os dias lá se passaram, eu voltei para Beja, ele para o Porto. Mas eu ardia em vontade de falar com ele, de o ver, de descobrir se ele se interessara por esta rapariga tão nova, do alto dos seus quarenta e tais. Finalmente ganhei coragem para telefonar. Ele atendeu com a voz mais simpática do mundo e declinando o convite para um passeio a Beja, convidou-me para ir conhecer o Porto. Não conhecia ainda? A cidade era linda, havia imensos edifícios art noveau, pelos quais eu tomara um interesse na altura. O convite estendia-se, claro, à casa dele, mas não me preocupasse porque ele tinha dois quartos.

Fui. Como não ir? Fui depressa, fui correndo, gastando os meus parcos euros no bilhete tão caro. Ele foi buscar-me à estação, o carro, uma coisa luxuosa, cheirosa, rápida e silenciosa. A casa dele, um encanto, toda branca, sofás, móveis, paredes, molduras. Ele, conversador, simpático, foi receber-me com três flores, um grande sorriso.

E para quê? Se à noite, em vez de sairmos, ele quis ficar em casa, beber chá, comer biscoitos, ver um filme? Quem vai ver filmes ao Porto?

Quando nos fomos deitar, descubro que se era verdade que ele tinha dois quartos, um deles não tinha cama. E que problema é que isso punha se a dele era tão grande. Até era, mas não me livrou dos roncos dele enquanto dormiu nem de o ter colado a mim feito uma lapa quando o tinha avisado que não haveria sexo entre nós.

Para quê, se no dia seguinte fervia o Porto de animação mas ele só queria saber de ficar trancado em casa, melancólico, carente, mole, com duas ramelas em cada olho porque se sentira tão, mas tão à vontade comigo que não achara necessário ou justificável lavar o rosto, quem sabe, os dentes também? Quem sabe, apenas, mirar-se ao espelho e com um dedo espetado, limpado o diabo das ramelas que me enviaram de volta para Beja, sem paragem em Lisboa, sem dormir a segunda noite, sem comida de caminho?

terça-feira, 2 de junho de 2015

Em Portugal, estivemos juntos!

Uns dias em Portugal que renderam imenso pelas experiências, pelos reencontros. Pelas vistas, pelo tempo que fazia. Sobretudo, pelos amores partilhados, a amizade revisitada. Uma leveza, uma alegria de criança. 

 Ao pé do Chiado, eu e o Ailton armámo-nos em modelos. 

 Fazia uns quantos anos que não estava com a Suzana. 

Os meus tios e primos, gente muito, muito carinhosa.  

Os meus primos do norte, cujas semelhanças não se escondem. 

Também deu para ir ver o meu avô paterno e a mulher.  

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Mentes parecidas

O título deste post pode-vos parecer uma tradução literal do Inglês, isso porque eu também me tornei numa dessas pessoas enfadonhas, medonhas e arrogantes e pobres de espírito que ficam a introduzir palavras de outras línguas quando falam a Língua Cabo-verdiana ou o Português, como se estas não tivessem vocábulos suficientes para nos expressarmos apenas com elas. Até o João Ubaldo Ribeiro, em Os Budas Ditosos, meteu falas em Inglês na narradora. Se não fosse por ele já não estar entre nós, eu iria falar muito mal dele! 

Devo dizer em nossa defesa, minha e do João Ubaldo, (a quem, por decisão régia da Rainha do Reino Reinante de Palmarejus Baixus e Arredoris Oceânus Atlanticus,   de agora em diante  posso tratar por Tu, tradução literal de You), que, às vezes, somente às vezes, há coisas que são expressas de uma forma um tantinho melhor numa outra língua. Discussão para uma outra hora, de qualquer forma. 


Vinha contar-vos do meu feriado, que tinha toda a cara de vir a ser uma desgraça mas que por uma inspiração vinda de vários dias a chocar uma tristeza com poucos paralelos, acabou por ser uma maravilha de dia, praticamente pela simples razão de ter encontrado alguém com uma mente tão parecida com a minha que alinhou em tudo o que lhe propus: ir nadar a São Francisco quando nenhum de nós dormira grande coisa na noite anterior. Estar em São Francisco, sentir fome, e pensar que não era mal avisado ir comer uns pastéis de milho a São Domingos. 

Estando em São Domingos, olhar para o alto e decidir, às seis da tarde, que o melhor mesmo era ir fazer uma caminhada até o Monte Tchota. E assim, às seis e tal, deixávamos o meu portentoso carro na Quinta da Montanha e rumávamos, de chinelos e sal na pele, montanha acima, a pé. Mas o melhor nem foi isso. O melhor foi termos ambos cantado, com toda a força dos nossos pulmões, famosas óperas que devíamos estar a estragar de todas as formas mas o que é que tem, se sabe tão bem cantar? 

E depois descer no escuro, com o cheiro dos eucaliptos no nariz, cruzando-nos com um ou burro acompanhado do seu parasita.

Nota: Gostava de agradecer esta oportunidade para voltar a mencionar o meu portentoso carro. É que até hoje não está muito claro na minha cabeça como é que posso possuir uma montada tão esbelta e forte, tão cinzenta e grande. É daquelas coisas, uma pessoa nasce para ser ciclista e escritora e de repente vê-se, por força e arte das circunstâncias, a conduzir um 4x4. Sobe na cabeça de qualquer um! Ou pelo menos, sobe na cabeça da ciclista. Obrigada mais uma vez! 

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Letra de rock

Uma vez fiz um rock para o Jon Bon Jovi mas nunca calhou de lho enviar... era assim:

Show me the sky again
Cause I see no blue
I only see dark colours

Between me and you

Reli, outra vez.


As tripas do Rei

As tripas do Rei foram estendidas ao sol da Praça dos Irmãos, regadas com vinagre e polvilhadas com sal e pimenta.

Pouco passava das oito quando veio a Rainha atear o lume, vestida que estava com veludos e seda vermelhos, naquele calor todo que já se fazia. Por pouco as chamas não lhe lamberam as saias do vestido, tão decotado que os reais mamilos ficavam meio à vista da populaça que se reunira na praça, ainda incrédula, ainda silenciosa, ainda mal acordada depois de ter acordado para as terríveis notícias.
A Rainha pegou nas tripas com as próprias mãos, as unhas escarlates confundindo-se com pingos de sangue e atirou-as ao lume.

Os assistentes contiveram todos o fôlego e quase que faltou ar à soberana no momento em que ia a descer do palco.

Do outro lado da praça surgira a princesa Clotilde Maria Cristina, a primeira filha do Rei, despenteada e mal vestida, chorando ainda, com as mãos sujas de sangue ainda, e correndo em direção à Rainha, sua madrasta. Conseguiu chegar ao pé dela sem que os seguranças interviessem e agarrou-se aos longos cabelos da outra mulher, pouco mais velha do que ela mesma. Puxou, estrebucharam ambas, rolaram ambas pelo chão de calçada, sem que ninguém se atrevesse a chegar perto, até que as duas outras filhas do rei surgiram também, indo separar a irmã da madrasta.


Dentro do Palácio, o Rei, dizia-se, vivia ainda, desfazendo-se aos poucos pela barriga, de onde a Rainha lhe tirara as entranhas. 

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Fotos a despropósito

 De um Carnaval de 2006, estas fotos sorriem para nós.


O Carlos e o Kelly esmeraram-se nas indumentárias.


A Nádia tinha trazido as fatiotas dos EUA. Eu passei depois anos a vestir-me de zorra. 


A Suzana na altura estava em São Vicente.




O Mick Lima é sempre o homem do Carnaval!


E depois há aquele homem que está em todas as festas... ao mesmo tempo!

Marie entre as Marias

Maria, descobriu Marie, uns tempos depois de chegar às ilhas de Cabo verde, é o nome das empregadas domésticas e da maior parte das mulheres com mais de cinquenta anos no país. Marie começou por querer impor às pessoas a pronúncia francesa do seu nome. Depois desistiu e tentou, sem grande sucesso, ser chamada pelo apelido. Era Hensel. Marie Hensel, alemã de Colónia, que tinha vivido em França e no Burundi e vinha agora trabalhar para o gabinete de desenvolvimento das Nações Unidas em Cabo Verde. Mas essa não foi a sua única dificuldade.

A sua primeira impressão do país foi-lhe causada pelo ar. Tinha voado durante cinco horas e tal. A sua canseira estava mascarada por uma excitação comum, a que sentia sempre quando visitava um país pela primeira vez. Quando se aproximou da porta do avião para descer, respirou aquele ar pela primeira vez. Pesado. Quase físico. Comparado com o ar rarefeito do avião, este do aeroporto era húmido, ligeiramente perfumado. Sabia que tinha chegado a um país seco. Tinha lido tudo o que havia para ler sobre as 9 ilhas habitadas por meio milhão de mestiços, e mais uma ilha deserta e uns quantos ilhéus que lhe despertavam a imaginação. Sabia da pobreza, da boa governação, da grande evolução que o país tivera desde a sa independência. Sabia que a estação das chuvas estava ainda distante.


Desceu as escadas do avião segurando a mala Louis Vuitton numa mão e a pastinha do tablet na outra. Marie sabia ser alemã no porte atlético, nos longos cabelos louros, nos olhos ora cinzentos ora azuis. Mas tinha o gosto refinado por roupas e acessórios das francesas. O passaporte diplomático de pouco lhe serviu. Esteve uns quantos minutos na fila de passageiros à espera de passar a fronteira. O polícia não a cumprimentou mas sorriu quando ela lhe falou em português com um certo sotaque brasileiro, culpa do seu professor de português. Ela tinha noção de que não soava como a Marisia, a sua cantora de fado preferida, mas cujas palavras ela mal entendia. 

... 

terça-feira, 7 de abril de 2015

Mentirinhas de 1 de abril

Eu não sei o que vocês pensam e vai até soar mal, mas eu gosto das minhas mentirinhas de 1 de abril. É uma espécie de tradição neste blog, sou capaz de vir a pé para vir escrever uma mentira, como se se tratasse de uma responsabilidade ou compromisso. E relendo algumas, redescobri o bom que era naquele tempo em que as pessoas faziam comentários. 

Elas tanto acreditavam que eu tinha encontrado um cordão de ouro, como que eu tinha mantido uma alta conversa com um candidato à presidência. Também lhes parecia verosímil que uma pomba me tivesse olhado dentro dos olhos e depois, feito adeus. E o que dizer deste pedido de namoro

A última mentirinha também recebeu comentários, coitadinha... no Facebook! 

Arrancar com as próprias mãos

O que a pátria amantíssima se recusou a dar-te, tu quiseste arrancar com as tuas mãos.


Arrancar com as mãos parece ser a única forma de arrancar, pelo que aí não podes ser pesadamente censurado, mas que a pátria te negue e tu na mesma queiras é um erro de julgamento, certamente. 

Não que eu queira julgar, eu que tenho dúvidas acerca do que faria, tendo sido sempre uma pessoa com ideias progressistas demais, independente demais nas minhas decisões e posturas e em geral, um ser à parte. Mas dentro da lei. 

Terão os velhos morrido?


Terão os velhos morrido? 
Das suas casas não se ouvem
Outros ruídos que o silêncio pesado 
Que soa entre retratos descorados.

Terão os velhos morrido? 
Queria perguntar pelas tuas gentes 
Mas não sei se ainda vivem estes dias. 
Terão os teus avós perecido? 

Não sei se ainda te abraçam
E te pesam nas horas 
Ou se apenas os recordas.
Não sei se jazem prostrados Num leito 
Ou jazem prostrados 
Num prédio invertido no chão.

Taska





Se me virem na rua a chorar 
Com uma cadela pela trela

Essa cadela já foi marca de pilha
Tanta era a sua energia


Essa cadela foi desejada

Bem-criada, bem educada 
Essa cadela foi, de todas
A mais esperta


Essa que nunca usou trela

Antes
Pois soube fazer tudo
Dantes


Hoje lá vai ela, cega

Com medo até de andar
Essa é a Taska, a superstar. 

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Taska e MC


Da primeira vez que a Taska pariu, nasceu o MC e mais 3 irmãos. Hoje, ela está velhota, cega e diabética mas continua doce e educada. Ele é um brutamontes que quer sempre mais mimos, que sabe o que é correto ou não mas nem sempre cumpre, que gosta de correr e parece ser gay. Gosto imenso dos dois.

Esta foto maravilhosa foi tirada pela Catalina Lamey.

Creio que eram polícias

Ontem a minha mãe fez anos. Resolvi que ia celebrar mesmo estando cá na Praia e ela em São Vicente e fui ao Quebra Canela, na hora do almoço, beber um gin tónico. Foi uma grande exceção pois já por duas vezes, tive episódios de vertigens após beber gin. Mas fazia sol, era o último dia do mês das mulheres e havia aquela energia das manifestações, aquela expetativa do jogo contra Portugal, enfim, uma energia pulsante no ar e nas pedras de gelo dos meus três gins. 

Quando fui pagar ao balcão, senti as pernas um pouco bambas. Decidi que o melhor era deixar lá o carro e apanhar um táxi para casa. Visto que nenhum passava a essa hora, fui andando a pé, curtindo o sol na cara. Devia estar pior do que pensava pois às tantas, um carro do Piquete parou ao pé de mim e o agente que vinha à boleia perguntou-me se estava bem. Disse-lhe que muito bem, obrigada e continuei o meu caminho. 

Passados mais uns metros, um carro da Polícia Nacional parou ao meu lado e mais uma vez, o polícia no banco dos passageiros me perguntou se estava bem. Disse-lhe que talvez um pouco tonta mas que estava à procura de um táxi. Eles foram-se embora. 

Dei mais uns passos e parou um carro sem matrícula, cheio de ferros na janela e um encapuçado perguntou-me para onde ia. Disse-lhe que para casa. Ele perguntou onde ficava a minha casa. Aqui perto, disse-lhe eu, sem querer revelar a zona. Ele disse-me que entrasse e que me levariam a casa. Eu não quis. Vai daí, um homem da grossura de um guarda-fatos mas mais alto sai do banco de trás e agarra-me num braço e mete-me dentro do carro, que zarpa imediatamente. Dentro da viatura, um rádio de baixa frequência estava ligado e não se passou um minuto antes de ouvirmos uma voz feminina a dar conta de um cassubody em Tira Chapéu. 

Arrancaram em alta velocidade, fazendo chiar os pneus no chão e o meu estômago veio parar à minha garganta. Chegamos a Tira Chapéu em menos de três minutos, pararam o carro de tal forma depressa que a minha testa bateu na cadeira da frente. Depois dois encapuçados saíram à desfilada e vinte minutos depois, estavam de volta, um deles com um puto de t-shirt vermelha agarrado pelo pescoço. 

Puseram-no dentro do carro comigo, e sentaram-se de novo. Voltaram a arrancar naquela velocidade, certamente esquecendo-se de mim, pois percebi que iam para uma esquadra na Achada. O rapazinho esfregava o pescoço e acusava-os de agressão e de excesso de zelo. Às tantas eu não aguentei mais e vomitei. Vomitei em cima do agente à minha direita, em cima do rapaz da t-shirt, em cima dos assentos, em cima de mim. Os encapuçados enfureceram-se na hora. O rapaz gritou como se se tratasse de água a ferver. Reclamou mais ainda de agressão. 

Pararam o carro ao pé do Di Nôs, desceram-nos a ambos e arrancaram de novo. 

Creio que eram polícias.


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Arrenda-se um coração

Arrenda-se um coração
Está livre, completamente vazio
Talvez não esteja limpo

Talvez tenha restos 
Sobras de amores
Que deixaram alegrias
E também muitas dores

Arrenda-se este espaço 
Grande, amplo, luminoso
Para nele caber
Algo que encha
O que está assim tão vago 

Dos pagamentos não falaremos
Das frestas também não.

Arrenda-se um coração.