Soncent

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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Achismo

A senhora parece que acha que a minha vida é estar deitada em lençóis de cetim, comendo uvas brancas e acariciando um gato persa! Saiba que devido a esta ciática, eu tenho que me levantar praticamente de hora a hora, para trocar o disco e deitar fora as grainhas!

Não publicações

Agora, como se não bastasse não publicar em Soncent e não publicar no Facebook, também já não publico do Youtube... A vida é feita não publicações. Vejam esta:

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Atropelei-me

Resultado de imagem para mulher à chuva
 
Há duas noites atropelei-me no caminho do porto. Era noite e eu ia animada, as galochas levantando pequenas tempestades de água. Havia chovido horas antes e ainda pingavam das árvores, gotas de cultura.
Caí e rolei na calçada, magoei-me feio no coração. Posso ter apanhado pancada também no cotovelo, mas não dói. Foi quando desbloqueei o telemóvel ao som do viber e vi a tua mensagem, no fundo, tão singela, uma simplicidade tosca, que me dizia em poucas palavras o que custou tantos meses de amor: que já não me querias. As gotas da chuva e as minhas lágrimas misturam-se no ecrã, umas doces, outras muito salgadas, umas frias, as outras bastante quentes.
Muni-me depois de tintura, vou beber o frasco todo, a ver se me cura. O que não nos mata torna-nos mais tristes.  
 
(Foto da net.)

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Vestimenta liberal

Muita mulher cabo-verdiana veste-se de forma liberal - roupa curta e apertada, independentemente de ter algum traço ou curva bonita para mostrar. Acho bem - ainda que o meu sentido estético deteste.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Afinal sou boa pessoa

 
Nunca me preocupei muito em ser boa pessoa. Andei na escola preocupada em ser a mais alta, a melhor aluna; nunca me ocorreu ser a melhor nalgum desporto nem em ser a que se vestia melhor, não sentia vergonha dos meus garatujos mas tinha orgulho do meu português.
 
É claro que nunca fiz maldades a não ser expulsar um gato do prédio, até a minha irmã me chamar a atenção. Não me aproveitei da minha altura para bater em ninguém, não "busquei insulta" a ninguém, que me lembre. Era extrovertida mas não me metia a gozar com os colegas. E em casa, ainda apanhava da minha mãe, da minha irmã e da minha vizinha. Sem ter em quem me vingar.
 
Foi só em Portugal, quando estava na universidade que, estando afónica, descobri que era boa pessoa sim, senhora. Porque sou mandadora de bocas, isso sou sim, tenho uma boca lesta em fazer comentários sobre a forma de falar, a roupa ou a postura de alguém, bocas que partilho apenas com gente de confiança, que não servem para mais nada a não ser para aquele entretenimento passageiro e inconsequente que também nos dá a leitura de revistas cor de rosa.
 
 Mas se me dói falar, se só consigo sussurrar o básico, então calo-me e penso para comigo mesmo que a minha maldade é um fogo de palha que não justifica o esforço. E, calada, descubro-me um amor de pessoa.
Onde é que vou buscar a minha medalhinha de santa para usar junto ao peito?

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Casamento expontâneo


E foram lá e casaram-se, sem nem planear, sem padre nem testemunhas, sem nem entrar na igreja – foi antes atrás dela, na rocha, ao ar livre, entre arvoredos e pássaros, com um único anel que ambos partilharam, com o sorriso que aflorou no rosto dela e as lágrimas que brilharam nos olhos dele por manifestações de celebrações. E de mãos dadas, voltaram a descer a colina, os degraus, encantados com a vida e o amor.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Oportunismo

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Vinha ontem da casa de uma amiga, passando pelo Palmarejo quando vi um pequeno cortejo: uma senhora e duas meninas transportando um armário, uma mesa de cabeceira e uma mesinha de canto nas suas cabeças.

O armário era relativamente grande, ainda que feito de contraplacado e não de madeira maciça. Entrei pela rua do Suave atrás delas e perguntei à senhora se iam longe. Ofereci-me para as levar, dado que tenho uma carro de caixa aberta. (O famoso Portentoso, que esteve de baixa durante quase três meses).

Eu estava relativamente satisfeita com a minha generosidade espontânea quando a senhora me diz se não a posso ajudar. E eu pergunto "Com o quê?". Ela diz-me "Tenho um filho de dois anos que não fala." E eu pergunto-me "Será que ela pensa que sou médica? É verdade que não estou com um ar muito medicinal, de calções de desporto e um top despretensioso, mas talvez ela..."