Soncent

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quarta-feira, 22 de junho de 2016

De ouro

O copo cheirava a chá de hortelã, sem pimenta. Um copo tosco, vidro encardido. Uma garrafa ao lado, essa aparentemente de cristal, transparente e brilhante como se lavada para aparecer na TV. Mas chá, depois de três meses de a casa estar fechada? Não fazia sentido.
 
Rebolei no chão para escapar a uma bala perdida. Mas não houve estampido nem furo na parede. Em contrapartida, o meu macacão de bombeira ficou imundo de pó e cimento. Encontrei, enquanto me levantava de novo, o atacador de ouro de um brinco. Só o atacador. De ouro.

A pena que às vezes canta

 
Parecem ir bastante longe os tempos em que de manhã, vinha bloggar, sem assunto nem agenda, pelo simples prazer de escrever numa página em branco e também, às vezes, por algum sentido de dever para com os que, de manhã, como eu, vinham ler o que os bloggers haviam escrito.
 
Os tempos mais gloriosos terão sido enquanto estava na GDP, o meu primeiro trabalho, que coincidiu com a criação de Soncent. Depois foi quando estava na Irlanda, isolada numa ilha em inglês, em que as pessoas eram muito simpáticas mas incrivelmente frias e eu, animal tropical, deixava-me afectar pelos dias cinzentos, pela falta de amigos.
 

terça-feira, 14 de junho de 2016

Este cofre não!


Vou a um banco e está este cofre no gabinete da gerente. E penso, e penso, e censuro-me até mais não aguentar e digo-lhe:

- Desculpe o atrevimento, mas este cofre nem dá vontade de roubar! Um cofre que se preze deve ser brilhante, novo, impecável, para deixar a cidadã com água na boca! Este dá é pena!

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Sopa de artistas


 
O Chico Buarque olha para mim com aquela cara séria e eu também olho para ele, sem me poder desviar um segundo. Venho de um leilão onde por pouco, arrecadava o piano da Nina. A verdade é que não haveria jeito de o subir em casa, então teria que o doar para o Conservatório e depois ir lá todos os dias enxotar quem nele quisesse tocar. Algures, ao longe, soam as notas e se o vento está de feição, ouve-se... Geni...

O Caetano disse que passaria pelo café, mas deixou-se ficar com o Cohen em Silves, que é uma cidade muito bonita onde nunca pus os pés, porque para tal teria que ter dito à Ryahnna: não precisas de mostrar os seios dessa forma para venderes discos.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

O Casa-café-museu-poético

 
Não digam a ninguém: estou a escrever um romance. Chama-se A Artista. Ninguém irá acreditar, mas não tem rigorosamente nada de auto-biográfico. Tanto mais não seja porque ela, a Artista, poderia ser minha avó.
 
Eis um extracto:
 
"(...) A Artista mungira várias vacas, tinha uns dinheiros que de vez em quando ainda entravam, exatamente quando mais necessitada.
Tinha um amigo que às vezes lhe pagava umas contas da casa. Era o Euclides de Pina. As coisas começaram quando ela foi ter ao escritório dele com um pedido de financiamento para uma casa-museu. Os seus argumentos eram fortes: pintava, possuía uma coleção de objetos absolutamente divinos. Desde que se tornara Artista que amava o fútil, o pueril, e fazia-o de uma forma anárquica, eclética e extravagante.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Versos perdidos



Perdi hoje uns versos que escrevi nuns ares,
Enquanto olhava para os teus lábios
Que me confessavam docemente
Que embora te tenhas apaixonado por mim,
Não ficarás comigo.

 

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Cabo Verde em 2030




Por alturas da organização do II Fórum da Transformação (maio de 2014) pediram-me que escrevesse a minha visão do que será o país em 2030. E escrevi isto:




2030 é celebrado por todos em Cabo Verde, até nas ilhas onde não havia muita tradição de apitos e barulho à meia-noite. Pudera! O país vira tanto desenvolvimento nas últimas décadas que parecia maior, como se as suas ilhas tivessem crescido.


Mas em tamanho, estava tudo igual. Até havia menos cidades e municípios, à medida que o crescimento levara à fusão de algumas cidades e algumas câmaras tinham conseguido chegar a acordo a fundirem-se, ganhando, desse modo, maior força e economia de escala. Fora o que acontecera em Santiago e no Fogo. O Governo tornara-se mais enxuto e dispersara-se pelas ilhas. Que se visse o efeito que a instalação de dois ministérios tinha tido na ilha da Brava! O Parlamento tinha também ficado mais leve e os deputados eram bem pagos mas tinham imensas exigências sobre eles.