Soncent

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quinta-feira, 6 de junho de 2013

Saudades a despropósito VII


 
O culminar de um dia de trabalho era a novela, que dava às nove da noite. Creio que era o momento em que elas se esqueciam das suas vidas de empregadas domésticas, em que elas encarnavam nas heroínas brasileiras, em que elas choravam junto com as escravas ou rejubilavam com os sucessos da menina pobre que casou com o mocinho.
 Do que me lembro é de estarmos na Praça Nova, com as nossas bicicletas reluzentes e a certa hora, a Da Cruz e a Ma Bia começarem a dizer-nos para darmos a nossa última volta, porque já está na hora de irmos para casa.
 
Mas a Praça era o paraíso para crianças como nós, então íamos ficando, íamos fugindo delas e os minutos escorriam até que elas, desesperadas e chateadas, nos pegavam por um braço, pegavam nas bicicletas com a outra mão e voavam calçada acima até o Alto de São Nicolau, onde, esbaforidas, suadas pelo esforço, subiam mais umas escadas para as casas vizinhas onde trabalhavam. Atiravam a bicicleta para alguma varanda e entravam na sala, onde a patroa já estava sentada no sofá a ver a novela.
 
A Da Cruz, a nossa, sentava-se então na alcatifa, pernas estendidas, e embarcava na trama. Todas nós na casa, e praticamente toda a gente na zona, na ilha, no país, atentos ao ecrã durante uma hora, sabendo os nomes de todos os personagens, amando uns e odiando outros, rindo-nos às claras e chorando às escondidas.

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