O problema às vezes é a véspera. Aquela vitória da Alemanha não foi apenas expressiva, foi uma chacina. E a vítima foi um país quase tão pequeno como nós, que também pela primeira vez, ousou estar numa copa do mundo. Daí que quando saio de casa para ir ver o jogo à Kitanda, vou com os pés firmemente no chão. Sem ilusões, sem grandes esperanças.
Mas bastou lá chegar e ver toda a gente de pé a começar a cantar o hino de Cabo Verde que uma centelha de esperança se acendeu, não porque ganhámos mais um jogador, mas porque os que lá estão teriam que estar a sentir tanta energia positiva de tantos corações a bater e a torcer em uníssono. A Liza Vaz tinha os olhos cheios de água, a Cláudia Spencer trazia a energia concentrada de centenas de pilhas Duracell e a Landa gritava “Catchupa” como uma portadora de síndrome de Tourette. Éramos dezenas aí a torcer, a cantar, a dar claque e a gritar que era hoje que iríamos pegar o boi pelos cornos.
Quando aparecia o treinador da Espanha, toda a gente lia nervosismo na sua expressão contida. A na bancada, nem se fala. Cada espanhol era a imagem de quem foi à matança dos bois mas só vieram os touros.
E o Vozinha fez uma defesa, e mais outra, uma terceira, o César a contar os minutos que ainda faltava para aguentarmos o forte e não cairmos. Eu também ia pensado: a esta altura, sete a zero é impossível. A esta altura, seis a zero já não dá. Vá lá que ainda nos marcam um golo. Quando já só faltavam os cinco minutos desconto, toda a gente celebrou. Menos de cinco minutos e estávamos safos!
Mais para os últimos instantes, começamos a subir mais, a atacar e eu já pensava “Vá lá que ainda lhes marcamos um golo!”
Se ao menos tivéssemos tido mais cinco minutos!
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