Soncent

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segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

E nós, que lucraremos com isso?

Já muitas pessoas me questionaram se acho que os grandes projectos imobiliários que vão sendo apresentados como certos, trarão realmente vantagens ao país. Posso estar a ser muito ingénua, mas defendo sempre que as vantagens terão muito a ver com a nossa coragem, empreendorismo e perspicácia.

Vão construir mais duas cidades na ilha? Então, que tal se, em vez de ficarmos a perguntar "e o que é que vamos ganhar com isso", mudarmos o foco um bocadinho e pensarmos "deixa-me ver como é que vou ganhar com isto". Não é bem, bem a mesma coisa, porque esta segunda frase subentende uma atitude activa.

Pessoas a adquirir casa precisam de N serviços e produtos: advogados, traduções, segurança, limpeza, mobiliário, transporte, comida, entretenimento, etc, etc. Os cabo-verdianos já cá estão.

Mas desconfio que se passarem muito tempo a pasmar, aparecem uns estrangeiros espertalhões, que abrem logo empresas disto e daquilo e lucram com o nosso desenvolvimento. E nós continuaremos a olhar, desconfiados, para o desenvolvimento que não nos chega à carteira. E antes que me perguntem "E tu, Eileen?", vou logo avisando: só estou à espera da ideia luminosa...

15 comentários:

Paulo disse...

Pois é pois é. Diz isso, que esta bem dito, aos meus amigos Mindelenses que vivem na pasmaceira, no conformismo da critica e só se mexem e se entusiasmam com festas e futilidades. Bem haja uma atitute activa pois Só do nada é que não se tira.

Xaquitim disse...

Cara Eileen, foi exactamente isso que aconteceu no Sal, em S. Maria. Parece que nós nunca acreditamos até que vem alguem de fora e começa a fazer as coisas...cumprimentos

Tiago disse...

Se não houvesse gente sonhadora e optimista como tu o mundo era um lugar muito menos interessante. O que me lembra um provérbio tuga horrivelmente conservador que diz qualquer coisa parecida com aos vinte anos não ser de esquerda mostra falta de coração, aos quarenta anos não ser de direita mostra falta de razão. Não concordo. Obviamente. Admiro a tua atitude e acho verdadeiramente que é aquela que se deve adoptar mas, infelizmente, não consigo encontrar quaisquer reais vantagens na «venda» de Cabo Verde ao capital estrangeiro. Os projectos de que oiço falar para SonCent assustam-me. Prevejo que apenas alguns poucos ganharão com esses projectos e não a ilha de São Vicente no seu todo. O problema não é o desenvolvimento e esses projectos por si só. A questão está em que tipo de projectos e qual é o preço que Cabo verde tem a pagar. (Não acredito que mesmo tu possas acreditar que há almoços grátis!) Acho que a ilha do Sal fala por si. Eu, pela minha parte, aconselho todos aqueles que falam comigo a não perderem mais do que o tempo essencial no Sal. (30 minutos se puderem!) A ilha está quase 100% descaracterizada. Ouve-se falar tanto crioulo como italiano, espanhol e português. Não faz parte de Cabo Verde dias-há. E, pior que tudo, para nada. Não se desenvolveu. Nem sequer um hospital...

dudao disse...

subscrevo o que aqui ja foi dito.... nem mais!

Eileen disse...

Obrigada, Paulo Xiquitim e Dudão. Tiago: Dizes, e bem, que no Sal, o desenvolvimento muito pouco tem feito beneficiar os moradores (se bem que há outras formas de vermos isso). Mas não será exactamente porque muitos ficaram à espera que lhes caíssem as coisas à porta de casa? Há casos de sucessos - os hotéis Odjo d'agua e Morabeza pertencem a nacionais, e parece-me que se estão a dar bem.

A descaracterização parece-me igualmente um problema que os cabo-verdianos é que devem resolver, nós, que temos as coisas, é que nos devemos agarrar a elas. Vai desde pormenores como a equipa de animação de um hotel preparar um bom programa, com base no que é nacional, e não deixando-se influenciar (corromper) por programas estrangeiros.

É natural que se oiçam os italianos a falar italiano. O estranho é ouvir crioulos a falar italiano, não é? No entanto, isso é culpa do italiano, ou do próprio crioulo, que adopta outra língua para se expressar com o seu semelhante? Acho que faz imenso sentido que aprendam o italiano, que é uma ferramenta de trabalho. Atrevo-me até a vir com teorias fáceis, acerca da fragilidade dos valores do próprio salense 8ou do cabo-verdiano em geral, embora o Sal me pareça ser um caso de estudo, por ser recente, e uma mistura de gente de muitas ilhas), para se deixar influenciar com tanta facilidade pelo estrangeiro. Mais uma vez, defendo que somos nós, os cabo-verdianos, quem devemos assumir a nossa posição, de país que se quer desenvolver no turismo para enriquecer, sustentavelmente; temos que ver o turismo como um negócio que é. E num negócio, é o vendedor que tem que acautelar o seu produto. Não podemos esperar que venham estrangeiros preocupados com a nossa cultura, o nosso ambiente; podemos, sim, impor comportamentos, pedir contra-partidas - como o tal hospital.

De certa forma, isto é como dares uma festa na tua casa ou num outro local: as pessoas pagam, vêm, querem divertir-se, beber, comer, dançar, ir embora. Cabe ao dono do espaço esconder as peças mais preciosas, para não serem quebradas/roubadas, proteger as zonas particulares (como os quartos, por exemplo). Zelar pela higiene do espaço; oferecer comida e bebida, qb; arrumar e limpar o espaço quando a festa acaba; e contabilizar os lucros, para saber se vale à pena...

Tiago disse...

Hotéis que pertencem a nacionais. (é claro que antes isso do que de estrangeiros) Mas. Isso há-de interessar muito ao povo! Era exactamente isso de que eu falava. E todos os outros crioulos. E a vila de Espargos desenvolveu-se? E o hospital? E as escolas? E os transportes? E a cultura? E os cinemas? E os espectáculos? E os salários? É porque aquela ilha do Sal de praias paradisíacas já não tem volta. Por isso diz-me se o preço não foi um bocadinho elevado. E, pelo que me parece, a Boa Vista segue o mesmo trilho. O que acho é que a generalidade dos projectos são totalmente megalómanos e não visam minimamente o desenvolvimento das ilhas e a qualidade de vida dos cabo-verdeanos. O dinheiro fala sempre mais alto. Isto do capitalismo selvagem é um jogo muito perigoso. Não deixas de ter razão em muito do que dizes. E repito. A tua atitude activa é fundamental. Mas. Parece-me uma festa cheia de rusgas! E os rusgas normalmente só se preocupam em divertir-se e consumir à borla.

Eileen disse...

Espera aí, Tiago. Um hotel, ainda mais se pertencer a um nacional, faz sempre mover dinheiro: consome comida local para o restaurante, dá empregos a pelo menos 50 pessoas, dá formação, com os turistas, há táxis a circular, há outros restaurantes a facturar... O sistema all inclusive é que não é vantajoso para o país. E podia dizer muito mais coisas, neste momento preciso é que não me dá jeito.

rui disse...

Alô, pessoal.

O essencial, a meu ver, é o que referiu a Eileen: Somos nós os Caboverdeanos que temos que defender o que é nosso. Infelizmente, acontece frequentemente ver-se gente responsável a negociar assuntos importantíssimos sem critérios bem definidos, o que na maioria dos casos levará a resultados muito aquém do que vagamente se pretende. Mas, há que encarar o desenvolvimento sem ilusões quanto à nossa realidade ou à realidade do mundo que nos rodeia. O capital externo é, em certa medida, necessário, se bem que não se deva permitir o capitalismo selvagem. Cabo Verde vai evoluindo (cometendo alguns erros pelo caminho é certo) e tenho visto alguns sinais encorajadores: o aparecimento de empresários nacionais com dimensão e influência; iniciativas de revisão aos incentivos ao investimento (os actuais não são os mais adequados), ensino superior, etc. Temos ainda um longo percurso pela frente e é preciso pensá-lo e debatê-lo constantemente. Ainda estamos a tempo de modelar o futuro que que queremos para Cabo Verde, tendo naturalmente em conta os custos e benefícios de cada opção. Mas, se ficarmos a pasmar, ou nos concentrarmos no essencial...

Anónimo disse...

Entendo as preocupações dos colegas que opinaram, mas concordo com a tua visão Eileen.
O nosso país está a passar por um processo que muitos outros países já passaram. Só que insistimos em não aprender com os erros dos outros. E é por isso que na ilha da Boavista não se devem repetir os erros da ilha do Sal e ainda estamos a tempo.
Esse caminho traçado em Cabo Verde na onda turismo, deve ser entendido como porta que se abre para o nosso desenvolvimento e por isso temos de saber para onde vamos ou que pretendemos ir. Mas isso depende, em grande parte, de nós mesmos. Não vamos pensar que são os outros que vão decidir qual a melhor via para nós.
Temos um problema enorme em Cabo Verde, em que ficamos muitas vezes a ver o barco a passar ao largo, como se não tivéssemos nada a ver com isso. Depois, aparecemos a derramar as nossas lamentações. Ou seja, temos de apostar é na acção (e não na reacção).
Agora uma coisa é verdade: temos de ter maior profissionalismo nos serviços que prestamos (ainda mais o turismo exige). Só assim é que possamos entrar nessa onda também. O crioulo precisa entender que terá de ser mais empreendedor.
Temos sim, de ver no investimento estrangeiro uma oportunidade e não uma ameaça.
Cumprimentos, Arsénio.

Anónimo disse...

É impressionante a mania que temos de continuar a cantar essa morna de Venda de Terrenos. Com um pouco de ousadia até era capaz de nos fazerem crer que Cabo Verde mudou de posição geográfica. Pelo que me parece as terras continuam na mesma posição geográfica absoluta e o Estado continua a ser o único detentor do poder soberano. As terras são deserticas, não produzem, e nós ainda continuamos a espera do poder devino (“maldita chuva”) para tirar algum proveito. Não temos conhecimentos nem capital para poder investir. Pelo menos os nossos governantes têm a consciencia disso e com a espertesa do criolo andam a conseguir “vender(gato por lebre)” essas terras para outros que tem capacidade de fazer melhor. Devemos era ficar agradecido pelas oportunidades que nos dão em investirem o dinheiro deles em Cabo Verde, já que muitas outras paradas por esse mundo fora eram capaz de venderem ainda mais para poderem ter a oportunidade que Cabo Verde esta a ter. É claro que nós também somos um povo invejoso e queria que tudo que estivesse ali ser todo nosso. Mas como?! O país é pobre, não tem recursos naturais (Classico bla, bla, bla), e ainda por cima temos a mania de sermos inteligente. Há já sei! Temos muito cerebros lá fora. Na verdade apenas estamos a trilhar caminhos que outros já percoreram há varios séculos. Só agora estamos a instalar a primeira Universidade, não temos cientistas (inovadores e não seguidores), não temos autores (preocupamos em demasia criar novas poesias e estudar a nossa historia que nem foi assim de tanto sucesso – por favor não venham com pedagogia, sou vacinado), não temos professores (perguntem aos alunos da ISE e Univ. Jean Piaget) e para complicar decidiram inventar novo passatempo – Abecedario do criolo (desculpem pela gralha, o C vai ser exterminado assim para nao serem acusados de plagio). O que dificulta tudo isso ainda mais, e pelo meu espanto, são aqueles que tem o cerebro preenchido com mais bit do conhecimento, continuam a por em causa as contruçoes até agora feita, como se fosse o caso se os hoteis nao estivessem em Cabo Verde estariamos melhor. Há já sei. Lá vai um dizer que é a favor dos hoteis, mas é contra da maneira em que estão a conduzir o processo (proprietario, cedencia de terrenos, contrucao, bla, bla, bla etc). Eu também gostaria que os cabo-verdianos tivessem maior poder de compra para frequentarem esses espaços, gostaria que o povo podesse tirar maior proveito, que maior numero de emprego e melhores salarios sejam criadas e por aí adiante. Mas também concordo 100% com essa brilhante blogueira [sempre nos trás coisas novas e com sentido e não fica por aí apenas a encher as paginas (Ok, confesso que as vezes tenho a sensação q tb ela caí nessa tentaçao) e citar outras fontes] de que as oportunidades estão alí para serem aproveitadas e não esperem que os estranjeiros nos vão ensinar a fazer dinheiro.

Tiago disse...

Tem graça. O discurso vazio e bacoco do sistema, o verbo trapalhão e atrapalhado do político, a voz metálica do dinheiro, o dilúvio falsamente ingénuo, é precisamente do senhor anónimo. Como dizia a Sophia: «Perdoai-lhes Senhor / Porque eles sabem o que fazem».

Anónimo disse...

Gostei do post, a meu ver, um dos melhores, ou a melhor que blogueira "postou". Questões bem levantadas... São questões como esta que precisamos e sem politiquices no meio.Parabéns!
Continuo depois...
xxp

moreia disse...

"Parece-me uma festa cheia de rusgas! E os rusgas normalmente só se preocupam em divertir-se e consumir à borla." (Tiago)

Festas, barulheiras e telenovelas são o método mais fácil para fazer dormir o povo, para impedir as pessoas de pensar: "Panem et circenses". Só que o pão será um pão "blorod"...

Quase tudo foi dito mas falta as acções. Estão à espera de quê? Exemplos há muitos.

Porque não criamos um partido verde ecologista?

Com todo esse fluxo de turistas e outros efeitos da globalização desenfreada (fabricas, etc...), sem contrôle dos nossos politicos, Cabo Verde mais dois ou três anos vai ser uma lata de lixo em pleno oceano.

Anónimo disse...

Sem qualquer ponta de ironia

“Se não podes ser dono do palácio pelo menos seja criado nele”
Provérbio Chinês, made CV

PS: Quando falas nos empresários cv seria interessantes se procurasses saber como e à custa de quem muitos criaram a sua “fortuna”... pistas: são directores e compram um avião ou coisa parecida e viram empresários; são migrantes e de repente “ganham o totoloto” ( talvez várias vezes) e chegam cheios de $ , e são empresários; são amigos do Presidente da Câmara compram terrenos à 100$ m2 e vendem-nos no dia seguinte à 5000$ m2 ( mas, atenção, se tu fores à Câmara não há terrenos para ti)... e adivinha que é que no final paga tudo, o contribuinte por conta de outro...mas não o empresário bem sucedido, pois este ninguém controla os seus lucros .

Natasha disse...

..De politica eu entendo pouco..ou quase nada...mas sou a favor do partido verde ecologista))
..ate porque ja estou farta de ser o motivo de troça de muitos dos meus colegas, quando ao enves de deitar o lixo no chao meto-o na minha bolsa)))