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terça-feira, 3 de abril de 2012

A descoberta do Eça

Durante alguns anos, dormi com a minha mãe. Ela lia um bom bocado antes de adormecer. Lembro-me que era muito novinha e já o maior mistério para mim era isso da leitura. Eu perguntava à minha mãe como é que ela conseguia saber o que se dizia no livro. E ela respondeu-me uma vez que cada letra tinha um som, e que juntas, formavam uma palavra. Que vontade que eu tinha de também poder ler! Assim que aprendi a ler, abriu-se o mundo: lia tudo! Dos cartazes na rua, aos ingredientes da manteiga, passando claro, pelos livros que encontrei em casa, e pelos tráficos de livros de quadradinhos com amigos. E assim, enquanto vários colegas passaram a juventude a praticar desportos ou a ver televisão, eu passava tardes inteiras no sofá, a “queimar as pestanas”.

Foi assim, nas idas e voltas de volumes, que se me apresentou o Crime do Padre Amaro. Devo dizer que tinha na altura um grande preconceito contra tudo o que fosse escritor português. Os meus amigos mais velhos torciam a cara quando falavam do Primo Basílio, leitura obrigatória no 5º ano do liceu. De maneira que no carregamento em que o Crime veio, deixei-o para o fim, e quando peguei nele, foi com tanto descrédito que ainda olhei à volta para ver se não me sobrara mesmo mais nada. Mas depois que comecei, não parei mais. O Crime do Padre Amaro, hoje em dia célebre graças a um par de filmes, era, para uma adolescente dos anos 90, uma história para se ler quase às escondidas e depois contar às amigas. Era muito real, muito misteriosa e sensual e com um delicioso sabor a proibido.

Depois disso, apareceu-me A Relíquia, com que me diverti imenso e cuja história conto às pessoas, em jeito de anedota, até hoje. Em A Relíquia, um órfão vai viver com uma tia, que é tão rica como beata, e muito pouco carinhosa. O nosso herói chega à conclusão que para ficar com a fortuna da tia já idosa, terá que a convencer que será igual ela deixar a sua herança à igreja ou ao sobrinho. Este finge então ser mais beato ainda que ela, saindo na boémia mas perfumando-se de fumo de incenso antes de entrar em casa. É afinal perdido por um erro que comete, ao trocar os embrulhos de uma coroa de espinhos, com que ele convenceria a tia de ser a que Jesus levara na cabeça, como a prenda que queria dar a uma prostituta, uma camisola de dormir de seda.

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