
Há duas noites
atropelei-me no caminho do porto. Era noite e eu ia animada, as galochas
levantando pequenas tempestades de água. Havia chovido horas antes e ainda
pingavam das árvores, gotas de cultura.
Caí e rolei na
calçada, magoei-me feio no coração. Posso ter apanhado pancada também no cotovelo,
mas não dói. Foi quando desbloqueei o telemóvel ao som do viber e vi a tua mensagem,
no fundo, tão singela, uma simplicidade tosca, que me dizia em poucas palavras
o que custou tantos meses de amor: que já não me querias. As gotas da chuva e
as minhas lágrimas misturam-se no ecrã, umas doces, outras muito salgadas, umas
frias, as outras bastante quentes.
Muni-me depois de
tintura, vou beber o frasco todo, a ver se me cura. O que não nos mata
torna-nos mais tristes.
(Foto da net.)