Às vezes há que matar o
português. Para escreveres tal como ouves. Tal como te dita o grilo falante,
tens que matar o português, dar-lhe com um pau na cabeça. Mata-o, afoga-o.
Escreve o que queres, como queres.
Aqui há umas semanas, fui uma dos coapresentadores, na
Assomada. Como sempre, falei pouco. Ufa, ainda bem, porque dos outros não se
pode dizer a mesma coisa, à exceção do Arménio, que não falou de todo.
Foi assim:
“Pois é, madame, este é o leite de cobra mais fresco que
encontrará no mercado.” Cito de cabeça.
Foi este o “poema” que Arménio Vieira enviou para a
coletânea de poesia chamada Destino di Bai que reuniu, em 2009, poesia inédita
de Cabo Verde. Eu já não sei que poemas publiquei nesse livro; mas desta frase
do Arménio não me esqueci, por ser tão curta e ao mesmo tempo, tão plena de
humor, de audácia, por ser tão inesperada num livro de poesia. Ora, extrapolem,
multipliquem, elaborem.