Soncent

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quarta-feira, 20 de julho de 2016

A gente da Praia - extrato de A Artista

 
A gente que a recebeu a Artista era boa – o Anacleto era sobrinho do Honório e vivera uns tempos em casa dele, daí sentir que tinha a obrigação de velar pela Imelda. Era um homem sóbrio, careca e bastante queimado pelo sol, com uma perna ligeiramente mais curta que a outra. A Santinha, a mulher dele, era uma santa. Muito protetora, muito decidida a pôr alguma carne nos ossos da priminha, coitadinha, que viera da Boa Vista carregada de queijos, mas estava tão magrinha. A Santinha era muito parecida com o marido, alta, escura, de ombros um pouco largos de mais e umas mãos enormes.

Eles tinham três filhos em casa e a Artista tinha que partilhar o quarto com as duas meninas da casa. Que  eram excelentes miúdas. Simpáticas e carinhosas. A Artista é que, até à data, não partilhara nada. Nem quarto, nem sono – acordava por qualquer motivo, muito assustada – não estava acostumada ao barulho todo em casa, não estava acostumada sequer ao suave ressonar da prima Babinha, que sofria de alergias. O susto maior vinha da Roselma, a prima mais velha, que rangia os dentes nos dias das vésperas dos testes na escola. Também estranhava ter que esperar para poder ir à casa de banho, a mesa numerosa, ter que comer o que estivesse na mesa ou ficava com fome. 

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Minha campa

Minha campa,
um túmulo sem asa,
vagando sem flor
num mar de jasmins
e outros querubins
caídos
e vaiados por mim. 
 
Minha campa,
má memória de capim,
meu céu fortuito e carmim.