Soncent

Soncent

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Sobrou


Sobrou o teu cheiro pelas ruelas, pelos parques sardentos e poças de lama.

Sobrou de ti, umas saudades de louca varrida.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Fotos


Vou, devagarinho, apagando as tuas fotos. As que não tive coragem, ontem, apaguei hoje.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Hoje

 
Duas luas hoje no céu. Dois carros na beira da estrada, um par de bois a pastar e os nosso corações também perfazem dois, batendo em compasso.
 
Quando o céu se racha em dois, estávamos de sobreaviso e corremos para dentro dos carros. Arrancamos e partimos em direção ao parque solar. Hoje veremos refletidos em milhares de vidros, os relâmpagos da nossa dor.
 
Pois hoje, o adeus deitou-nos a mão.

13/09/15

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Cabo Verde - A gestão das impossibilidades



É ou está?


No metro apinhado, estava eu resfastelada, meio feliz, quando entrou uma jovem senhora, com um grande casaco cor de laranja, que não encontrou assento. Estive para lhe perguntar se era gorda ou estava grávida, em cujo caso lhe cederia o meu lugar, claro.
 
16 de Março de 2005

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Extrato de Marisa e Adélio



"(...)
A conversa prolongou-se de tal forma que quando deram pelo fecho do bar, ficaram surpreendidos. O André já havia partido, pelo que a Marisa convidou o Adélio para uma última bebida na sua casa. Quando deram por si, estavam sentados na cama dela, num quarto tão desarrumado que parecia um campo de batalha.

- Que é que mais gostas de fazer? – Era do tipo de pergunta que a Marisa aprendera a não gostar. Mas resolveu ser sincera.

- Escrever. Escrever pequenos contos. Olha, este ficou pronto ontem à noite.

Ele pediu-lhe que lhe lesse o conto. Pega de surpresa, ela relanceou o manuscrito. Escrevera-o de uma vez e até gostara dele. Mas em menos de um segundo, ela reviu a história e teve a certeza de que ele não a apreciaria.

- Para quê?

- Ora! Gostava de saber o que escreves!

-Mas vou ler para ti? Como na escola? Não gosto!

- Então dá-me que eu mesmo leio.

- Não! Deixa estar, eu leio. – E na hora, a Marisa inventou uma história completamente diferente, e enquanto corria os olhos pelo papel, fingindo ler, tentando fazer as pausas esperadas do texto, declarava frases recém-feitas, surgindo um conto leve e divertido, que caberia em duas páginas se estivesse escrito. Ela viu nos olhos dele um interesse e uma satisfação que lhe aqueceu o coração e lhe deu ânimo para continuar a farsa. Quando terminou, ele mostrou-lhe um sorriso rasgado:

- Brilhante! Adorei. Tens muito jeito para a escrita! Ouve, tens que publicar isso! A sério. Está muito bem escrito!
Ela fez um sorriso triste. Se conseguisse escrever tudo o que dissera num só sopro minutos antes, claro que o queria publicar, acabara de criar o melhor conto que ela alguma vez inventara, mas que só servira para ele! Como lembrar-se agora de todas as frases tão inspiradas que pronunciara instantes antes? Não deixava de ser romântico, pensou, ter inventado o seu melhor conto para que somente o Adélio apreciasse.
(...)
 
Janeiro de 2004
 
 
 

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A Luci vai para Stanford






Sabem? Era eu no gabinete a trabalhar, por bandas das onze e tal de um dia perdido em 2012 quando a Luci me ligou, meio do nada, a perguntar se queria ir almoçar com ela. Já tínhamos sido apresentadas e eu já sabia que era inteligente, proveniente da Ivy League coisa e tal.

Mas não tínhamos nenhuma intimidade. O que não me impediu de aceitar e lá fomos ao Paparokas.

Desde aí, tornou-se uma pessoa muito especial na minha vida. Muito inteligente, nada arrogante, muito boa pessoa, motivada e motivadora, excelente a dar conselhos sem os dar. Quase sempre que lhe peço uma opinião, ela responde-me assim.
- O que é que achas que deves fazer?
O que é ótimo na verdade, porque às vezes só precisamos é que nos ajudem a chegar às respostas que já temos ou sabemos.

Mas a Luci é muito mais: é divertida, imensamente querida, carinhosa, prestável, muito correta. Tem um pacote de qualidades e capacidades fora de série, que ela coloca generosamente à nossa disposição.

Por isso tudo, esta muy singela homenagem, com votos de muitos sucessos nesta nova etapa - é que ela vai agora estudar para a Stanford, depois de ter entrado para todas as grandes universidades para as quais concorreu. É obra!

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

O meu sentido adeus

 
Quero reunir as tropas à minha volta, gizá-las de vermelho, cantar-lhes o meu hino e dizer-lhes o meu sentido adeus, pois parto nesta hora. Não mais ditaduras, não mais oficinas de crianças.

(Foto de Catalina Solares)

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Bebi-te


 
Bebi-te. Bebi-te até a última gota e lambi o copo e deixei-o sobre a minha boca para que escorresse ainda sobre a minha língua, tão sedenta de ti. Bebi-te. Engoli o que havia de beber, engoli com ânsia e gula. E depois, mijei-te. Já sabes que também dei a descarga e te foste num redemoinho pela loiça branca.