Soncent

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quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

A D. Cesarina

Perdemos a D. Cesarina.
 
Sempre a chamámos assim, num misto de afeição e muito respeito, porque era ela alta, era branca, tinha o cabelo curto e quando era de nos bater, agarrava numa das nossas mãozinhas bem esticada e com apenas dois dedos bastante compridos da sua mão direita, batia-nos uma, duas, três vezes no máximo e isso já era um grande castigo.
 
Mas nós sabíamos que ela tinha um coração de ouro e o nosso jardim era o melhor do mundo, o mais ensolarado - chamava-se Jardim Raio de Sol - e ela considerava-nos pequenos raios que por lá andavam, de batinhas verdes e a lutar pelas amêndoas verdes que nasciam no recreio.
 
Depois de irmos para a Escola Primária, muitos de nós ainda ia lá matar saudades do Jardim, das professoras - a minha era a Maria da Luz - das cadeirinhas amarelas que agora nos pareciam muito, mas muito pequeninas - dos trabalhos manuais, dos quadros na parede, feitos pelos meninos.
 
Deixa saudades, a D. Cesarina!

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Família


Em voo

 
Ia pôr esta foto a ilustrar algum post mas ela merece aparecer por si mesma, não de enfeite. Uma foto assim, cheia de movimento, tão bonita, que apanha a Nádia com uma cara de quem pregou algum partida e agora foge para não ser agarrada.
 
Uma foto em que ela flutua um bocadinho acima do chão, realizando o nosso sonho - voar, voar, nem que seja por um singelo minutinho.

Soncent faz 10 anos!


Saibam que nesta manhã radiosa, neste dia sereno, neste mês decente, Soncent completa uns radiosos 10 anos de vida, com serenidade e com uma longevidade ativa bastante decente.
 
Estávamos nos idos de 2006 quando o Tey Fonseca Soares me perguntou porque era que eu não tinha um blog e fiquei a olhar para ele com cara de sargento na reserva e depois mudei a minha cara para a de um burro a olhar para um palácio e depois fiz-me da cor do burro quando foge. Saí a correr, entrei rápido numa sala qualquer (que poderá ter sido a do meu trabalho, ao lado do Palácio do Povo) e momentos depois (no dia seguinte, talvez) já eu estava a blogar.
 
E o resto da história, vocês conhecem-na...
 
(Foto do Adónis Ferreira)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Missão suicida

 
Entrou no quarto numa missão claramente suicida. Mordeu-me em ambos os braços, aproveitando-se do meu sono. Trazia zika ou não? Não perguntei, antes de o espremer e recuperar, ainda quente, o meu sangue.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Se cair o avião



 
Se cair o avião, saberás que caí a pensar em ti; que nadei e sobrevivi a pensar em ti - e em me livrar daquele tubarão além com má cara.


Duzentas facas


 

As pistolas apontam-se e as facas? Duzentas facas apontadas na minha direção e eu fujo? Fujo das facas que passam silvando por mim. Uma há-de se me espetar algures, nas costas, nas pernas, quem sabe até na cabeça, embora não me pareça muito verossímil que se dissesse depois - ela morreu de uma facada na cabeça. Podiam apenas dizer que ela morreu atacada por um bando de bandidos. É claro que não diriam a verdade - ela foi escorraçada da sua casa por gente amiga, ela foi esfaqueada por gente a quem amava. Falarão sempre de gente gentia.

A primeira manga do ano


 
Deu-lhe uma mordida. Foi a primeira manga do ano. Seria a primeira manga do ano? É possível que tivesse sido a primeira manga do ano. Era a primeira do ano. Estava doce e sumarenta. Uma manga laranja, madura, com poucos fios, que lhe trouxe à memória muitas outras mangas pela vida atrás. Mangas comidas debaixo da mangueira, em Santo Antão, na presença de amigos e com o futuro de braços abertos.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Feliz 2016

 
Entra fresquinho, este ano de tantas esperanças, depois de outro que pareceu trazer desgraças para meio mundo. Ou para o mundo inteiro, dependendo das perspetivas. Mas as coisas não estão fáceis ou simples por esse mundo fora - disse ela, cofiando o escasso bigode - que nas mulheres se chama buço.
 
Por cá, (entenda-se, cá neste blog, não por cá em Cabo Verde. Pode ser que por instantes, vocês tenham julgado que eu ia fazer uma análise do último ano, vir falar das tragédias, da chuva que choveu, dos preços que subiram, dos outros que desceram, quiçá, do veto, das manifestações, ou, mais fiel a este blog, dos livros lançados, ou, mais fiel ainda às minhas paixões, da música dada ao dia e dos filmes estreados, dos fios de cabelo branco que se me surgiram, por teima, das viagens, das coisas que escrevi, dos livros que afinal não lancei...
 
Lembra-me a conversa de duas tias:
- Este ano vocês já não vão à China?
- Isso foi no ano passado, minha querida. Este ano nós já não vamos é ao Japão.
E a cada ano, já não iam a algum sítio maravilhoso.
 
Por cá, retomou-se alguma dinâmica, choveu, vetou-se, desceram os preços do gasóleo e do gás mas nem por isso estou mais rica.
 
E finalmente, fará este blog a bonita idade de 10 anos e haverá mudanças...