Soncent

Soncent

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Ela

Pede-me um copo de água enquanto espera que o banho aqueça para poder ir chorar às escondidas. Vou-lhe buscar o copo e quando regresso ela está pelo chão, mergulhada no peito, os pés redondos.
 
- Pensei que fosses esperar pelo banho.
 
- Pensei que doesse menos.
 
Há quanto tempo não se banhava? O banho às vezes é uma vaidade, um conforto, um quase luxo. A que ela não se dava. Estava encardida, as unhas pretas, o cabelo rançoso e o cheiro cheirava em vez de apenas odorar. Eu odiava esse cheiro e quase que a empurrei para dentro da banheira e quase que a queimei com a água quente.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O Choro da Tua Natureza



Saborear o vago,

Acomodar o etéreo, 

Subir nas nuvens dos teus lábios… 

 Colar a saliva no céu da tua boca.



Mentir nas tuas nádegas.

Navegar nos teus gemidos.

Sentir o teu cheiro no meu cheiro,

Os restos de ti por mim, tirar o véu 



Saltar a vida,

Andar por um rodízio de amores.

 Saber, assim,

Com que gritos festejas o prazer.



E receber, sedenta, 

O choro da tua natureza.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Músicas

Acabo de fazer uma descoberta espantosa: não havia uma etiqueta neste blog para a categoria que mais gosto na vida: Música!!

Tratei imediatamente de corrigir a situação e estou agora a rever posts antigos, lá onde falei da tal, para os catalogar.

Mea culpa. Mea máxima culpa!

Rice. Damien Rice

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Como é que o Damien Rice, lá da Irlanda, consegue fazer música que me cai tão bem, eu cá nos trópicos, tão longe mas tão perto nas emoções que me desperta?

Fico muito perto de o querer idolatrar, de querer ir a um concerto dele, gritar de ao pé do palco, esticar os braços acima a ver se ele repara em mim, depois fazer um monte de disparates quando ele finalmente me convidasse para cima do palco.

...
...
...

Mas não, estaria de olhos parados durante o concerto todo, cantando com ele baixinho, pensando, como é que um tipo tão feio faz música tão bonita?


Para quem gosta dele também, como Ivan Mões, devo dizer que já passei da fase do The Blowers Daughter; já superei Accidental Babies. Agora estou em The animals are gone e Elephant.

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Beijos em sacos de papel

Vão, que te mando, beijos em sacos de papel
Pois os meus abraços fugiram em tropel.

Sobraste

 
Sobraste.
Pela vinda de outro, sobraste
Pela presença de outro, não ousaste
Permanecer-me na retina
 
Foi com giz e não tinta
Que lograste escrever
Nas minhas muitas linhas
 
Foi com tanta ignomínia
Que te passei para trás
Apaguei-te da minha sina
E tu, já longe vais.
 
Agora, de consolo,
Quero dar-te uma prenda,
Uma flor,
Quero de oferta,
Tirar-te esta dor.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

A mamã, o camelo e a pirâmide


Pois é, pessoal, a Madalena a modos que acordou no Egipto, que é um lugar que por estes dias não atrai assim tanta gente, o que não deixa de ser uma alteração do status quo, porque aqui há uns anos, houve alguém que afirmou
 
     "Qual é o interesse de ir ao Egipto se lá, tudo o que interessava aconteceu há mais de dois mil anos?"
 
Mas para a Madá, era um sonho. Não exatamente estar lá, mas sobretudo tirar uma foto lá. Parece que este género de sonhos se tornou popular, há quem vá pelas fotos, há quem vá pela comida; eu tiro cada vez menos fotografias, gosto de ser do contra, então guardo as imagens na cabeça, respiro fundo os cheiros, ponho a mão nas cores.
 
Gostava de dizer que como cada vez menos, mas seria uma grande falácia; porém não saio do meu piso para ir de propósito comer a algum país. Estando lá, sim, experimento de tudo, não sou esquisita, mas não regresso a falar da comida como se fosse o elemento mais marcante da viagem. Espero nunca ir a um sítio em que a gastronomia ultrapasse a paisagem, as pessoas, a música...
 
Sobre o camelo não me posso pronunciar muito, porque quase tudo o que sei sobre os bichos soa a anedotas politicamente (e animalmente) incorretas. É que houve o Jarbas, que era um camelo particularmente apreciador de cheiros e que passou uma viagem a cheirar-me o derriére de uma vez nas Canárias; há ainda aquele par de anedotas muito picantes sobre os bichos e eu, que às vezes não me controlo, há dias contei uma numa mesa em que estava o PM e uns diplomatas e depois não havia buraco onde me meter, muito por causa do meu mais que um metro de setenta e cinco, o que vos parecerá muito, mas que não chegou para apanhar a senhora minha mãe, cujas calças até hoje me ficam compridas e que está a esta hora, no Cairo, a pensar para onde mais vai tirar uma fotografia.
 
Pirâmides... teria que ser uma artigo científico de mais e não vos quero maçar com isso...

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Sem título, aguarrás deslavado

Eu nunca te prometi uma fria relação intelectual, uma masturbação mútua ou antes, um espelho para brilhares. À temperatura a que o meu sangue circula, já te desejo mesmo sem te conhecer o cheiro, a textura.
 
A natureza permite que assumamos que qualquer homem é passível de se envolver com qualquer mulher e que ambos tirarão uma satisfação desse envolvimento maior do que a soma das partes. Somos uns bichinhos engraçados, nunca me canso de nos observar e maravilhar com as nossas complexidades mas sobretudo, com as nossas simplicidades. A forma como nos deixamos satisfazer com a simples temperatura do outro.
 
Mas também, a forma como nenhuma outra temperatura, por mais parecida, nos satisfará.

Passeio em Manhattan



Encantam-me sobretudo as pessoas e alguns edifícios e, surpresa, os pedaços de poemas que reconheço no que poderia ser uma selva de cimento e betume apenas.


Adoro esta cidade. Tenho passado apenas horas cá, esta noite é a primeira em que me permitem dormir e do meu quarto de hotel não ouço nem sirenes nem buzinas nem cheirei qualquer fumo nas ruas movimentadas.


Andei dez minutos ao lado de uma beldade de calções curtos, cabelo comprido e os sapatos da sola vermelha. Senti-me um bidão ao lado dela. Senti-me deselegante nas minhas calças formais, no meu sapato raso sem piada, no meu cabelo sem vaidade e com a única gentileza de um batom que nem me favorece.


Imaginei que se morasse cá, vestir-me-ia com mais graça, seria mais magra, teria um corte de cabelo moderno e uma cor provocante, tipo, em dois tons de vermelho; andaria a bambolear-me ligeiramente pelas ruas; seria rapidamente descoberta por um agente, que me proporia qualquer coisa.

Teatro? Porque não Hollywood? Oferece-me um trabalho num bar da Moda? Porque não a sua gerência? Pede-me em namoro? Porque não um safari urbano de trinta meses, um mergulho nas culturas aqui vividas?

 
 

Cheia de vi

 



Escrevia isto a 25 de setembro, lá nas Nações Unidas em Nova Iorque:


"Hoje já vi o Papa Francisco, o Bill Gates e o Daniel Craig. Vou confessar a minha enorme futilidade - foi o Craig que me tirou do sério, me arrancou uma gargalhada histérica.


O Papa Francisco fez uma intervenção bonita e pertinente, em espanhol; lembrei-me muito do Papa João Paulo II que nos honrou com a sua visita numa altura em que eu era muito mais impressionável. Os anos trouxeram-me cinismo e ceticismo, o que é uma pena.



O Bill Gates estava ali sentado... Não me falou nem lhe falei. É claro que ele ficaria sem assunto se fosse ter com ele e me apresentasse. Detesto pessoas sem assunto! Hehehehehe


Podem ver que hoje estou assim, muito cheia de mim; e de si; e de vi!"